"Na semana em que celebramos o dia internacional da mulher, a igreja nos oferece na liturgia um texto do Evangelho de João no capítulo 4, cuja protagonista é uma mulher; e não se trata de uma mulher judia, protegida pela lei judaica, mas de uma samaritana, uma excluída, pessoa má vista e cuja reputação, provavelmente, não era muito boa."
A reflexão é de Solange Maria do Carmo, teóloga leiga. Ela possui graduação em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) e graduação em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas). É mestra em Teologia Bíblica e doutora em Catequese pela Faculdade FAJE. É coautora da coleção Catequese Permanente pela Editora Paulus.
1ª leitura: Ex 17,3-7
Salmo: Sl 94(95),1-2.6-7.8-9 (R. 8)
2ª leitura: Rm 5,1-2.5-8
Evangelho: Jo 4,5-42
Eis a reflexão.
Na semana em que celebramos o dia internacional da mulher, a igreja nos oferece na liturgia um texto do Evangelho de João no capítulo 4, cuja protagonista é uma mulher; e não se trata de uma mulher judia, protegida pela lei judaica, mas de uma samaritana, uma excluída, pessoa má vista e cuja reputação, provavelmente, não era muito boa.
O texto, carregado de imagens potentes, nos convida ao esvaziamento de nossos conceitos e preconceitos para entrar, com Jesus, em diálogo com a mulher, para entender sua vida, seus dramas existenciais, suas dores mais pungentes.
Tomemos como base um gesto simples de Jesus. Ele surpreende a samaritana não só ao lhe dirigir a palavra, mas especialmente ao lhe pedir um pouco d’água. Ora, um judeu não bebia nem comia nada em vasilhame que não fosse exclusivo para uso de sua gente, que não tivesse passado pelos rituais de purificação prescritos pela Lei, conforme vemos no Levítico ou reafirmado no Evangelho de Marcos: lavar bem copos e jarros antes do uso. A resposta da mulher ao pedido de Jesus é pronta e imediata.
Como ele quer beber água se não tem vasilha? Vai beber na mesma vasilha que ela, uma mulher samaritana? Vai entrar em comunhão com sua miséria, sua exclusão e tomar parte em sua impureza? Sim, Jesus se despoja de tudo para compreender e dialogar com aquela mulher. Para isso tem de abandonar todo machismo e patriarcalismo de sua época.
Pois bem! Para os homens, acho que o Evangelho tem algo muito importante a ensinar. Cada um é convidado a fazer como Jesus: abandonar seus costumes, seus rituais de pureza, suas convicções tão convenientes, para beber no mesmo pote das mulheres, para entrar em comunhão com elas, com seus dilemas, com suas dores de ser mulher, quase sempre subjugada, explorada, violentada de todas as formas por uma sociedade machista, sexista e patriarcal.
Um machismo tóxico e malévolo domina nosso país conhecido como majoritariamente cristão. Como pode ser? Enquanto Jesus se humilha e pede de beber à samaritana, muitos homens que se dizem cristãos, em nome de uma fé enviesada, distorcida e conveniente, ostentam sem vergonha a bandeira da submissão feminina, chamando a mulher de auxiliar, afirmando que ela tem de poder e por isso há a necessidade de ela ser subjugada. Com sua teologia equivocada, acabam apoiando feminicídios, filicídios e todo tipo de violência que possa atingir a mulher. E há quem se cale diante dessa teologia. E pior, há quem aplauda, justifique e defenda esses discursos.
E para nós mulheres? O que o Evangelho tem a nos dizer? Ele nos convida a não aceitar o lugar da submissão, a não nos calar, a nos darmos as mãos num gesto de solidariedade, entendendo que se uma mulher sofre violência, todas são violentadas; se uma mulher é calada, todas são também silenciadas.
Jesus inaugura um novo modo de viver em sociedade, superando o machismo e o patriarcalismo de seu tempo. Dá voz à mulher samaritana, escuta-a, dialoga com ela... e faz dela uma agente evangelizadora, que comunica a boa-nova à sua gente. Na fé cristã não cabe submissão ou subordinação.
Na fé cristã somos todos irmãos e irmãs, com os mesmos direitos, daí a necessidade de pregarmos sempre um discipulado de iguais, eliminado de nossas comunidades eclesiais o machismo e o patriarcalismo, que são geradores de violência e de dor.
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