05 Março 2026
"Pessoalmente, suspeito que aquele das direitas de tipo trumpiano-putiniano seja "um outro Evangelho", no sentido entendido pelo apóstolo Paulo em Gálatas 1,8, isto é, uma interpretação radicalmente diferente da mensagem de Jesus em relação àquela da grande tradição cristã", escreve Fulvio Ferrario, professor de Teologia Sistemática na Faculdade Valdense de Teologia em Roma, em artigo publicado na revista Confronti março de 2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Os últimos anos testemunharam uma proliferação de declarações e comportamentos, de natureza e modalidade bastante heterogêneos, que, no entanto, convergem no que podemos definir como "ecumenismo parafascista", ou seja, a invocação ou menção do nome de Deus, por representantes das diversas denominações cristãs, para articular ideologias reacionárias.
O caso mais marcante é provavelmente a proclamação da "guerra santa" pelo Patriarca de Moscou, Kirill, onde a "santidade" residiria na natureza antiocidental e antiliberal da política de agressão do autocrata no governo da Federação Russa.
A Igreja de Kirill é a mais consistente, em termos numéricos, entre aquelas que fazem parte do Conselho Mundial de Igrejas. É difícil não imaginar que esse fator tenha desempenhado um papel significativo na Assembleia Geral de Karlsruhe (2022), que de fato se distanciou das declarações mais brutais do hierarca ortodoxo, mas o fez, sendo benévolos, em termos bastante articulados.
A camarilha de Kirill continua, de qualquer forma, representada nas instâncias ecumênicas, inclusive naqueles que afirmam orar pela paz na Ucrânia.
Nos Estados Unidos, as pesquisas de opinião que acompanham as inúmeras empreitadas de Trump, que agora chegam ao assassinato de Estado, mostram que a base "evangélica" de seu eleitorado permanece muito forte e entusiasmada. Na verdade, o "cristianismo" trumpiano é amplamente ecumênico, como evidenciado por figuras (ou melhor: cafajestes) como o vice-presidente J.D. Vance ou o governador da Flórida, Ron DeSantis (o carrasco mais diligente dos EUA, constantemente quebrando recordes de frequência de execuções), sempre prontos a ostentar sua pertença católico-romana.
É fato, porém, que o núcleo duro de Trump da deep America tem raízes evangélicas sólidas, não apenas nas igrejas pentecostais e "evangélicas", mas também em amplos setores das igrejas "clássicas".
Na Itália, o cristianismo fascistoide tende, por razões óbvias, a se expressar em termos "católicos", desde o presépio como elemento identitário até a releitura de Francisco de Assis em termos de nacionalismo italiota.
Desconheço quaisquer estudos empíricos que quantifiquem a presença dessas correntes no catolicismo praticante. Certamente, e não apenas na base católica, mas também em setores do episcopado, os apelos da direita (se não exatamente de Vannacci, quase certamente de Meloni) encontram forte simpatia.
O pluralismo político nas Igrejas é inerentemente fisiológico. No âmbito protestante, sempre foi considerado normal; na Igreja Católica, após ter sido duramente combatido por papas e bispos durante a longa temporada democrata-cristã, constituiu uma conquista preciosa, e não há motivos para defender um retorno a unanimidades anacrônicas e eclesiasticamente problemáticas.
Isso, porém, não deveria obscurecer uma questão crucial: o atual dissenso, não tanto entre as Igrejas, mas dentro delas, tem um caráter ainda "simplesmente" político, ou diz respeito a visões abrangentes da realidade e, portanto, também da fé?
Pessoalmente, suspeito que aquele das direitas de tipo trumpiano-putiniano seja "um outro Evangelho", no sentido entendido pelo apóstolo Paulo em Gálatas 1,8, isto é, uma interpretação radicalmente diferente da mensagem de Jesus em relação àquela da grande tradição cristã.
Enquanto as Igrejas "oficiais" afirmam praticar o ecumenismo discutindo, indiferentemente à opinião do Senhor, sobre quem comanda na comunidade (o tema pudicamente, ou hipocritamente, chamado do "ministério", ou seja, do "serviço") e sobre outras trivialidades fora do tempo e da realidade, formou-se uma espécie de "anti-Igreja", amplamente interconfessional, na qual nostálgicos de Pio IX, algumas franjas pentecostais e alguns líderes ortodoxos, fechados em seus exoesqueletos litúrgicos, proclamam, mais ou menos com amor e concordância, uma ideologia pré-moderna e antiliberal despachada como cristianismo. Recém-saídas das celebrações um tanto esotéricas do Concílio de Niceia, as Igrejas cristãs se veem hoje diante da pergunta sempre presente de Jesus, em termos clássicos e, ao mesmo tempo, novos: "E vocês, quem dizem que eu sou?"
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