27 Fevereiro 2026
Enquanto pescadores enfrentavam anos de incertezas, as condições ambientais, sanitárias e produtivas necessárias para retomar a atividade não foram restabelecidas no ritmo esperado.
O artigo é de Henrique Callori Kefalás, Leopoldo Cavaleri Gerhardinger e Luzineide Rodrigues da Fonseca Pinto, publicado por ((o))eco, 26-02-2026.
Henrique Callori Kefalás, Coordenador executivo do Instituto Linha D’Água.
Leopoldo Cavaleri Gerhardinger Ph.D., socioecólogo e oceanógrafo, especializado na interseção entre Educação, Comunicação e Ação em Rede para a transformação de sistemas socioecológicos costeiro-marinhos e de florestas tropicais no Brasil. Como Pesquisador Adjunto no Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA, Brasil), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, lidera um grupo de pesquisa em sustentabilidade com abordagem transdisciplinar. Dr. Gerhardinger colabora ativamente com ONGs, organizações nacionais e internacionais e iniciativas filantrópicas, fazendo a ponte entre ciência, políticas públicas e sociedade para promover uma governança oceânica e costeira inclusiva e transformadora.
Luzineide Rodrigues da Fonseca Pinto, agente Pastoral dos Pescadores e Pescadoras Artesanal, do Estado do Espírito Santo e Educadora Popular. Formada em Administração e Educação do Campo (UFES). Pós em Direito Agrário pela UFG, acompanha as comunidades de Pescadores de norte a sul do ES.
Eis o artigo.
O aniversário do rompimento da barragem de Brumadinho reacendeu o debate público sobre segurança de barragens, responsabilidade corporativa e reparação de danos no Brasil. A coincidência da data com o rompimento de outra barragem no mesmo dia reforça que esses eventos não são exceção, mas parte de um padrão que segue ativo. É nesse contexto de recorrência e de memória reativada que o desastre de Mariana precisa ser relido: não como um marco encerrado no tempo, mas como um processo ainda em curso, cujos efeitos mais profundos recaem sobre atividades diretamente dependentes da integridade dos rios – entre elas, a pesca artesanal.
Dez anos depois do rompimento da barragem de Fundão, a narrativa de “recuperação” do Rio Doce continua distante da realidade de quem vive da pesca. A lama que desceu de Mariana até o Atlântico não apenas alterou parâmetros ambientais; ela quebrou cadeias produtivas, desorganizou rotinas e colocou em xeque a saúde física e psíquica dos afetados, bem como a sobrevivência econômica e cultural de comunidades inteiras.
A pesca artesanal é, talvez, o termômetro mais sensível desse fracasso. Depende de água limpa, de habitats íntegros, de peixes disponíveis, de confiança sanitária, pessoas saudáveis e de mercados estáveis – e, em quase todos esses pontos, o cenário segue frágil. Estudos recentes mostram que muitos dos impactos ecológicos e sociais sobre as comunidades de pesca artesanal persistem enquanto estes grupos continuam à margem dos processos de decisão.
Do ponto de vista ecológico, a base produtiva não voltou ao que era. Estudos como o de Ferreira e colaboradores mostram que peixes capturados em áreas impactadas apresentam concentrações mais altas de arsênio (As) e mercúrio (Hg) mesmo anos após o desastre, resultado da ressuspensão de sedimentos historicamente contaminados na bacia. Isso compromete a segurança alimentar, alimenta o estigma sobre o pescado do Rio Doce e dificulta a reabertura de mercados. A governança pós-desastre, centrada em acordos corporativos, tem excluído pescadores artesanais das discussões sobre o futuro do rio, revelando injustiças procedimentais que precisam ser corrigidas.
Na dimensão socioeconômica, os dados são igualmente claros. Pesquisa publicada em 2024, com 441 pescadores de seis municípios do Espírito Santo, revela que 96,35% se consideram afetados pelo rompimento. Quase metade abandonou a atividade integralmente; outra parcela semelhante permaneceu pescando apenas mudando espécie ou área. Apenas 3,63% continuaram na pesca de maneira integral. Isso não é ajuste conjuntural: é colapso estrutural.
Como vemos, o futuro da pesca artesanal na região, 10 anos depois é devastador. Se aplicássemos aos pescadores critérios de classificação de risco como os da IUCN, por exemplo, usados para classificar risco de extinção, boa parte da pesca do Rio Doce estaria hoje em condição equivalente a “Criticamente em Perigo”. A atividade deixou de se sustentar em si mesma e passou a sobreviver mais por indenizações e um futuro incerto, fruto da relação desigual entre pescadores e empresas.

Parte das razões para isso está no próprio modelo de reparação. Segundo estudo de Maher e colaboradores, a atuação da Fundação Renova se estruturou em processos prolongados e pouco resolutivos, que acabam produzindo desgaste e limitando a participação efetiva dos atingidos. O autor descreve um padrão de atrasos, reuniões extensas e decisões fragmentadas que, em vez de acelerar a reparação, criam cansaço e deslocam soluções para negociações individuais. Com instâncias decisórias concentradas e participação social pouco vinculante, ações estruturantes tendem a avançar lentamente.
Essa leitura ajuda a explicar por que atividades como a pesca artesanal não se reergueram: enquanto comunidades enfrentavam anos de incertezas, as condições ambientais, sanitárias e produtivas necessárias para retomar a atividade não foram restabelecidas no ritmo esperado.
Ao longo desses anos, empresas e governos passaram a divulgar cifras crescentes. Segundo informações divulgadas pelo governo federal e pelas mineradoras, cerca de R$ 38 bilhões já teriam sido desembolsados pela Renova até 2024. O “Novo Acordo do Rio Doce”, homologado pelo STF em novembro de 2024, elevou esse valor para R$ 170 bilhões, a serem executados ao longo de duas décadas, incluindo obrigações diretas das empresas. São cifras monumentais, talvez, uma das maiores reparações econômicas do mundo (é o que vimos nas matérias publicadas). Mas a pergunta que fica é: quanto vale a pesca artesanal?
Porque, enquanto o anúncio das cifras cresce, o habitat socioeconômico da pesca e os próprios pescadores desaparecem. Fecham-se peixarias, mercados se retraem, postos de trabalho complementares somem (gelo, transporte, manutenção) e pescadores seguem sem condições de planejar o futuro. Para mais de 22 mil pescadores afetados (segundo dados oficiais), a reparação ainda não devolveu aquilo que de fato importa: a capacidade de viver da própria atividade e manter os modos de vida da pesca artesanal.
Ao passo que vimos empresas na COP30 se colocarem como agente da transição energética e promotora de uma “mineração sustentável”, estamos também olhando a extinção da pesca na região afetada. A tensão entre essas duas imagens – a do desastre não reparado e a da empresa “verde” do futuro – esteve presente em muitas conversas sobre justiça climática e sobre o papel das corporações nos territórios com uma certeza: esse modo de operação já não passa mais despercebido.
Do outro lado desse cenário, os pleitos da pesca artesanal levados à COP30 traduzem, de maneira cristalina, os aprendizados amargos de Mariana, do Óleo do Nordeste, de outras tantas histórias tristes e ameaças emergentes. As demandas do setor giram sempre em torno do mesmo eixo: garantir que não se repita o ciclo de violências institucionais em seus territórios para manter seus modos de vida tradicionais que garantem a segurança alimentar de tantas mesas no Brasil.
O novo acordo de R$ 170 bilhões abre, para alguns, uma oportunidade histórica. Para as pessoas que vivem da pesca artesanal, a pergunta central não é quanto se gasta, mas como se transforma. É se o investimento será capaz de tirar o setor da atual zona de risco e recolocá-lo no patamar mínimo digno de uma atividade viva, produtiva e culturalmente significativa.
Para que a recuperação das pessoas do Rio Doce seja real, é indispensável ampliar a participação das comunidades atingidas nas decisões, garantir reparações que considerem a reconstrução dos modos de vida e fortalecer a responsabilização das empresas. Caso contrário, a pesca artesanal na bacia do rio pode se tornar um caso emblemático de extinção funcional: presente em relatórios, lembrada nas narrativas comunitárias, mas ausente da vida real de um território cuja sobrevivência depende profundamente de seus rios e mares.
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