O teste dos carismas: não se tornar apenas instituição. Artigo de Luigino Bruni

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25 Fevereiro 2026

"Quando um carisma está em sua fase nascente, traz inovações que fazem reviver as palavras dos profetas bíblicos com sua crítica sistemática ao templo e aos sacrifícios (religião)", escreve Luigino Bruni, professor titular de Economia Política na Lumsa de Roma e Diretor Científico da Economia de Francisco, em artigo publicado por Avvenire, 24-02-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Crise é o outro nome da vida. Nascemos chorando e, muitas vezes, terminamos nossas vidas entre lágrimas. Não há etapa da vida que não seja passagem, encosta, discernimento, crise. Quando a vida se desenrola dentro de comunidades e organizações, as crises individuais se somam entre si, e tudo, por vezes, se torna mais rico e, ao mesmo tempo, mais complexo e difícil de compreender. Além disso, se, quando jovens, acreditamos em uma grande promessa espiritual que preencheu todos os horizontes de nossa alma e do mundo, entramos em um convento, em um movimento ou criamos uma cooperativa social com companheiros e companheiras, hoje, às alegrias e crises corriqueiras, somam-se um Ocidente e um cristianismo em rápida transformação, comunidades envelhecidas e, muitas vezes, desorientadas, a palavra "Deus" ou "Ideais" que já não conseguimos mais pronunciar com o mesmo encantamento das gerações passadas. Novos processos se desdobram em um mundo pós-moderno que já não consegue mais compreender (muito menos apreciar) uma vida vivida inteiramente em um "para sempre".

Tudo se torna mais complexo e difícil a cada dia, e torna-se mais urgente tentar compreender e analisar essas novas multicrises e multicomplexidades, e aí tentar escrever alguma página que não se conclua lá onde deveria começar. Um tema que serve de pano de fundo às análises desse livro é o tempo, especialmente a relação entre o passado e o futuro das comunidades e de seus membros. Começaremos, portanto, com uma hipótese de trabalho: as crises das comunidades ideais e espirituais são carestias de futuro geradas por interpretações equivocadas de seu passado. O passado de um movimento carismático (isto é, nascido de um carisma) é um tesouro imenso, uma era de ouro real e imaginada que corre o risco de se tornar uma maldição para o futuro.

Pois é a amizade entre o ontem e o amanhã que torna o hoje belo e fecundo, em todas as etapas da vida pessoal e comunitária. Somente um bom futuro transforma o passado em bênção, redime-o e o liberta da armadilha do saudosismo; e nenhum grande passado, individual ou coletivo, é suficiente para nutrir o presente. Para viver bem hoje, não basta tentar contar nossa história com palavras que tenham um sentido que convença, no mínimo, a nós mesmos: essa história sensata e convincente é apenas uma condição necessária, não suficiente. A boa vida também aguarda uma nova palavra hoje, espera ver o rosto de uma filha que virá nos visitar novamente esta noite, deseja ainda estar aqui para se alegrar no dia da formatura de um neto, tem bons motivos para esperar que pelo menos uma criança que está nascendo agora ainda possa acreditar na nossa comunidade e nos seus ideais. Há também outro tema importante.

Quando os movimentos e as comunidades espirituais e carismáticos iniciam sua jornada, são quase exclusivamente profecia, cuja gramática essencial e insuperável nos é descrita pelos profetas bíblicos — e por essa razão, os analisaremos bastante nesse livro. Os movimentos e as comunidades mudam profundamente quando seus fundadores nos deixam, é inevitável; mas continuam a viver e crescer enquanto forem profecia e não se tornarem apenas uma instituição. Continuar a ser profecia quando o "profeta" não está mais entre nós, no entanto, é muito difícil, embora não impossível. Pela Bíblia, sabemos que a religião e a ética dos profetas não são aquelas do templo, dos sacerdotes e da Lei.

Quando um carisma está em sua fase nascente, traz inovações que fazem reviver as palavras dos profetas bíblicos com sua crítica sistemática ao templo e aos sacrifícios (religião). Por exemplo, quando as Filhas da Caridade foram fundadas por Vicente de Paulo e Luísa de Marillac, eram chamadas de "freiras sem claustro", porque seus mosteiros deveriam ser as casas dos doentes, suas celas um quarto alugado, sua capela a igreja paroquial e seu claustro as ruas da cidade. E assim foi. Depois, com o tempo, até mesmo essas "freiras sem convento" entraram no convento, tornando-se uma instituição benemérita e admirável, mas necessariamente tiveram que se adequar às regras prescritas pela Igreja para a vida religiosa feminina. Séculos antes, o monasticismo nasceu como uma experiência leiga (em seu sentido bíblico e evangélico), sem mencionar os franciscanos e as ordens mendicantes. Depois, com o fim da sua fase de fundação, essas grandes experiências inovadoras foram progressivamente enquadradas em categorias clericais, e muitos monges e frades tornaram-se sacerdotes.

Muitos carismas sociais e educacionais modernos, tanto masculinos quanto femininos, surgiram como grandes inovações laicas, civis e sociais e, com o tempo, muitas vezes se transformaram em instituições religiosas e clericais. A própria vida monástica e religiosa, que por sua própria natureza teria um caráter profundamente laico (ainda que apenas pela ausência do sacerdócio ministerial), após a Contrarreforma, passou a ser descrita e vivida como "sagrado" e como "vida consagrada", relegando a laicidade inicial a um segundo plano. A pequena, mas tenaz ambição desse livro é tentar apresentar uma breve teoria das dinâmicas das Organizações Motivadas por Ideais (OMIs), tanto religiosas quanto laicas, analisadas em um plano tridimensional cujos eixos são: as pessoas (x), a comunidade (y) e o carisma (z), com ênfase particular nos fundadores (em seus relacionamentos com x, y e z).

Se alguém depois desejar usar as afirmações e as análises feitas aqui (e em outros lugares) sobre as OMIs para orientar a escolha concreta de uma comunidade ou organização, não deve cometer o grave erro de não se ater às diferenças específicas dessa comunidade, que são as que realmente importam em qualquer bom exercício de discernimento. Portanto, deixo ao leitor a tarefa de adaptar os exemplos, a linguagem (muitas vezes bíblica) e os contextos às suas próprias realidades. Porque o trabalho mais apaixonante pode começar quando se fecha o livro e se mergulha na vida cotidiana, nas enfermarias de um hospital ou entre os bancos do coral, e eventualmente se descobre que as respostas já estavam lá, mas nós não o sabíamos.

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