24 Fevereiro 2026
Os 3,5 milhões de documentos desclassificados mostram que o financista pedófilo ajudou a distorcer as relações regionais e o processo de paz contra a Palestina.
O artigo é de Thomas Palley, economista pós-keynesiano e fundador da organização Economics for Open and Democratic Societies (Economia para Sociedades Abertas e Democráticas), publicado por Ctxt, 20-02-2026.
Eis o artigo.
Uma entrevista recente com Craig Mokhiber, ex-diretor do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos nos EUA, oferece, de longe, a explicação mais convincente que já ouvi sobre o caso Jeffrey Epstein.
Segundo a entrevista, Epstein era um agente israelense que ajudou a distorcer significativamente as relações regionais no Oriente Médio e o processo de paz contra a Palestina.
O rumor, que circulava há tempos, de que Epstein era um "agente israelense" está sendo claramente confirmado pelas 3,5 milhões de páginas (ainda apenas parciais) que foram divulgadas em 30-01-2026.
Se isso parece difícil de acreditar, basta lembrar que o Mossad israelense é um serviço secreto extraordinariamente sofisticado e experiente, como demonstrado pela sabotagem mortal dos pagers e walkie-talkies do Hezbollah em 2024.
As intervenções pró-Israel de Epstein funcionaram de duas maneiras. Primeiro, ele deturpou o processo de paz ao seduzir figuras poderosas nos Estados Unidos e na ONU, que então concordaram em ignorar a persistente violência israelense e a expansão dos assentamentos na Cisjordânia em nome da manutenção do processo de paz. Segundo, ele ajudou a distorcer as relações regionais contra a Palestina ao envolver e vincular elites empresariais árabes, que então apoiaram os Acordos de Abraão. Esses acordos normalizaram as relações árabe-israelenses, relegando o conflito palestino a um segundo plano e minimizando os direitos palestinos.
Com relação à ligação com o "agente israelense", os arquivos mostram que Ehud Barak manteve um relacionamento substancial e contínuo com Epstein. Barak é um ex-general israelense de alta patente, ex-ministro da Defesa e ex-primeiro-ministro.
Em relação ao processo de paz, os arquivos mostram que Epstein manteve uma relação próxima com o casal de diplomatas noruegueses Terje Rod-Larsen e Mona Juul, a quem concedeu favores financeiros significativos. Eles foram figuras-chave no Processo de Paz de Oslo. Rod-Larsen ocupou diversos cargos influentes, incluindo o de subsecretário-geral da ONU e coordenador especial da ONU para o Processo de Paz no Oriente Médio, de 1999 a 2004. Epstein também manteve uma relação com o presidente Bill Clinton, que foi fundamental para o estabelecimento dos Acordos de Paz de Oslo. A relação com Clinton parece ter envolvido negociações partidárias.
Em relação aos Acordos de Abraão, Epstein manteve um relacionamento ativo e de longa data com o empresário dos Emirados Árabes Unidos (EAU), Sultan Ahmed bin Sulayem. Sulayem dirige a DP World, uma das maiores operadoras de portos e terminais de contêineres do mundo. Epstein facilitou grandes contratos de investimento nas áreas militar e de defesa entre Israel e os EAU. Esses acordos provavelmente foram viabilizados por suas conexões com ativos israelenses e abriram caminho para que os EAU se tornassem o primeiro país árabe a assinar os Acordos de Abraão.
De maneira mais geral, Epstein fazia parte do programa global de Israel para acessar e influenciar outros países. Seu acesso era extraordinário, mesmo para os padrões do extraordinário programa israelense. Além disso, ele acumulou um vasto acervo de kompromat (material comprometedor). Não sabemos se esse material chegou a ser usado, mas o conhecimento de sua existência pode ter influenciado alguns a apoiar Israel e seus interesses.
Em relação às finanças de Epstein, ele mantinha uma relação próxima com Leslie Wexner, o bilionário empresário americano. Wexner é um forte defensor de Israel e criou a Iniciativa de Liderança para Israelenses, que visa estreitar os laços de liderança entre os Estados Unidos e Israel. Epstein também mantinha relações financeiras de longa data com Leon Black, outro bilionário americano. Black é um doador frequente de Israel e de causas sionistas.
Quanto às posições políticas do próprio Epstein, ele era um defensor ferrenho de Israel e do sionismo. Fez doações substanciais tanto para a organização Amigos das Forças de Defesa de Israel (FIDF) quanto para o Fundo Nacional Judaico (JNF), organização que construiu assentamentos na Cisjordânia.
A grande mídia se recusou a conectar os pontos e revelar esse padrão claro, que inclusive ocultou deliberadamente. Inicialmente, trataram a saga de Epstein como uma questão de "perversão pessoal" envolvendo tráfico humano, pedofilia e imoralidade da elite. Também tentaram retratar Epstein como um agente russo.
A história da pedofilia e da imoralidade das elites é inegavelmente verdadeira, e a imoralidade dessas elites, que acreditam ter direito a tudo, foi a porta de entrada para a influência de Epstein. A acusação de que ele era um agente russo é uma invenção da mídia ocidental. Ambas foram usadas para obscurecer a história mais profunda.
Essa versão mais detalhada explica com maior precisão tanto os meios quanto os motivos das operações de Epstein e está em consonância com suas profundas crenças sionistas.
Finalmente, juntando as peças, surge um novo suspeito na questão de quem cometeu o assassinato de Epstein. O bilionário pedófilo estava considerando cooperar com os promotores federais. Israel teria o motivo e os meios (facilmente disponíveis em Nova York) para garantir que isso não acontecesse.
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