24 Fevereiro 2026
Por que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X decidiu avançar nas sagrações episcopais sem mandato de Roma, apesar dos gestos de abertura do Vaticano? Mais do que um ato de desobediência, trata-se de uma escolha estratégica: preservar a própria identidade. Este artigo investiga a lógica dessa decisão e seus efeitos em cadeia. Ao apostar na coerência interna e na autonomia, a Fraternidade não apenas tensiona Roma, ela altera o equilíbrio de forças na Igreja, enfraquece moderados, fortalece extremos e aprofunda a polarização do catolicismo contemporâneo.
O artigo é de Carlos Eduardo Sell, sociólogo, professor da UFSC e autor do livro Para onde vai a Igreja Católica? (Editora Vozes).
Eis o artigo.
O anúncio da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), no início de 2026, de que realizaria novas sagrações episcopais sem mandato pontifício recolocou no centro do debate eclesial a delicada relação entre tradição, inovação e unidade. A teoria da escolha racional pode ajudar a compreender a lógica por trás dessa decisão. Nessa perspectiva, o episódio envolvendo o conflito entre a Fraternidade e o Vaticano pode ser lido como o resultado de decisões estratégicas tomadas por dois atores institucionais que buscaram maximizar seus interesses e reduzir suas perdas sob restrições normativas, reputacionais e políticas.
Para a FSSPX, o cenário podia ser reduzido a duas alternativas centrais: negociar ou não negociar. Negociar com Roma, o que implicaria suspender as sagrações e discutir pontos sensíveis ligados à recepção do Concílio Vaticano II, traria como ganho a redução da tensão institucional e a possibilidade de regularização canônica. Contudo, envolveria custos internos elevados, pois poderia ser percebido como concessão doutrinal e comprometer a coesão da base. Não negociar, por sua vez, significava levar adiante as ordenações mesmo sem mandato pontifício, reafirmando autonomia e coerência interna. Essa opção implicava custos externos (tensão canônica, risco de sanções e maior isolamento), mas preservava o principal ativo do grupo: seu capital identitário. Ao escolher essa última opção, não estamos diante de uma decisão irracional, mas de um cálculo estratégico no qual, diante dos ganhos e perdas, prevaleceu a prioridade pela manutenção da própria identidade. Bom para a entidade, mas ruim para Igreja.
Do lado do Vaticano, o cálculo foi distinto.
1) Roma poderia adotar uma linha dura preventiva, com advertências formais e ameaça explícita de sanções;
2) oferecer concessões substanciais em nome da reconciliação; ou
3) escolher um diálogo estratégico, mantendo princípios considerados inegociáveis enquanto preservava canais institucionais abertos. A terceira opção foi a escolhida.
Ao evitar uma resposta disciplinar imediata e maximalista, o Vaticano preservou sua legitimidade como instância de comunhão e reduziu o risco de transformar a Fraternidade em símbolo de perseguição para setores tradicionalistas. Ao mesmo tempo, manteve claros os limites doutrinais e canônicos, sinalizando que a plena regularização depende da aceitação do magistério conciliar. Ao delegar a condução do processo a um dicastério específico, também procurou proteger diretamente a figura do papa dos custos mais imediatos da negociação.
Os custos para os atores envolvidos são distintos. Para a Fraternidade, pesará o fato de que será rotulada como intransigente e de sofrer uma exclusão oficial clara da institucionalidade católica (excomunhão), com possíveis perdas de membros e fiéis que temam as consequências canônicas de uma ruptura formal. Já o Vaticano, embora no curto prazo tenha adotado uma estratégia prudente e tolerante, terá de conviver com a marca de uma fratura eclesial aberta, especialmente significativa quando se trata de um grupo que cresceu nos últimos anos. Esse custo se torna ainda mais sensível em um contexto no qual formas de religiosidade conservadora vêm atraindo novos adeptos, o que amplia o impacto simbólico e pastoral da divisão.
A decisão da FSSPX também deverá produzir ainda efeitos colaterais importantes dentro da Igreja. Grupos conservadores mais moderados que, desde o início do pontificado de Leão XIV, defendiam a ampliação ou regularização mais estável da celebração da missa segundo o rito romano anterior à reforma de 1970, veem-se enfraquecidos. Esses setores perdem margem argumentativa quando a defesa da tradição volta a ser associada a um gesto de desobediência formal.
Já a sagração sem mandato pontifício reforça no campo progressista a leitura de que concessões à sensibilidade tradicional podem fortalecer posições eclesiológicas sectárias. Dessa forma, sua própria agenda de transformações ganha nova legitimidade, pois passa a ser apresentada como caminho necessário para preservar a unidade.
O fato é: as decisões da Fraternidade afetam muito mais do que ela mesma e reorganizam o campo interno do catolicismo contemporâneo, estreitando as soluções intermediárias e reforçando ainda mais a polarização interna na Igreja. Resta observar se Leão XIV interpretará o episódio como motivo para um realinhamento mais claro com setores progressistas ou como um sinal da necessidade de continuar exercendo a delicada arte de costurar a unidade entre grupos eclesiais antagônicos.
Leia mais
- Para onde vai a Igreja Católica? Entrevista especial com Carlos Eduardo Sell
- Há algo de podre no automatismo sacramental. Artigo de Oliver Wintzek
- O Vaticano propõe "esboçar um estatuto canônico" para os lefebvristas caso eles cessem a consagração ilícita de bispos
- Os lefebvrianos desafiam o Papa
- Cardeal Müller: católicos tradicionais poderiam se juntar à Fraternidade São Pio X
- 36 anos após o cisma, o que representa a Fraternidade São Pio X?
- Os lefebvrianos mantêm a ameaça de consagrar bispos, apesar dos avisos de Roma
- Ata do dramático encontro entre Paulo VI e Lefebvre
- Os discípulos de Lefèbvre não ‘beliscam a isca’ e deixam o cismático Viganò sozinho nas suas graves acusações contra Francisco
- As razões por trás da restrição da missa em latim. Artigo de Mike Lewis