Não trair a missão que nos é confiada. Comentário de Consuelo Vélez

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20 Fevereiro 2026

"A Quaresma deve nos desafiar a refletir sobre a fé que vivemos e a concepção messiânica que temos. Em tempos em que as religiões são manipuladas para interesses políticos, ou quando Deus é invocado para matar outros ou para propor uma sociedade de poucos escolhidos, as tentações de Jesus nos convidam a discernir a missão que nos foi confiada e a não traí-la". 

O comentário é de Consuelo Vélez, teóloga colombiana, publicado por Religión Digital, 17-02-2026.

Eis o comentário.

Então Jesus, movido pelo Espírito, retirou-se para o deserto para ser tentado pelo diabo. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, ao fim desse tempo, teve fome. O tentador aproximou-se dele e disse: "Se você é o Filho de Deus, mande que estas pedras se transformem em pães". Jesus respondeu: "Está escrito: 'Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus'". Então o diabo o levou à cidade santa e o colocou no ponto mais alto do templo. "Se você é o Filho de Deus", disse ele, "jogue-se daqui para baixo. Pois está escrito: 'Ele dará ordens a seus anjos a seu respeito, e eles o sustentarão nas mãos, para que você não tropece em alguma pedra'". Jesus respondeu: "Também está escrito: 'Não ponha à prova o Senhor, o seu Deus'". Novamente, o diabo o levou a um monte muito alto e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e o seu esplendor. “Tudo isso te darei”, disse ele, “se você se prostrar e me adorar”. Então Jesus respondeu: “Retire-se, Satanás! Pois está escrito: ‘Adore o Senhor, o seu Deus, e só a ele preste culto’”. Imediatamente o diabo lhe disse isso, e anjos vieram e o serviram. (Mateus 4,1-11)

Iniciamos o tempo da Quaresma, um período de preparação para a celebração do Mistério Pascal, o centro da nossa fé. A leitura do Evangelho que nos é apresentada na liturgia é o conhecido relato das tentações de Jesus. A referência ao deserto, aos quarenta dias e às tentações nos remete à experiência de Israel durante seus quarenta anos no deserto, com a diferença de que Israel não venceu as tentações, enquanto Jesus vencerá.

Marcos menciona essa passagem muito brevemente, afirmando apenas que Jesus foi tentado, enquanto Lucas e Mateus a descrevem em detalhes. No entanto, a segunda e a terceira tentações são invertidas, possivelmente porque Lucas, que apresenta Jesus a caminho de Jerusalém, opta por identificar a tentação relacionada à cidade santa como a terceira. Seguindo Mateus, a primeira tentação é transformar pedras em pão, a segunda é pôr Deus à prova atirando-se do alto do templo, e a terceira é adorar o diabo e pedir-lhe todos os reinos. Em todas as três ocasiões, Jesus vence a tentação referindo-se a textos bíblicos de Deuteronômio, introduzindo a passagem com a expressão "está escrito".

Essas tentações são tentações messiânicas porque se referem à missão que Jesus está cumprindo. Nos dois primeiros casos, o diabo introduz a tentação com a frase "se és o Filho de Deus". Se assim for, não lhe faltará alimento e ele será protegido das pedras quando cair da montanha. A resposta de Jesus é contundente porque ele sabe muito bem que sua missão não é buscar glória ou fama pessoal, mas sim servir ao reino no mundo em que vive. A terceira tentação é a oferta de todos os reinos se Jesus adorar o diabo. E Jesus responde com as mesmas palavras que usará mais tarde com Pedro, quando este se recusa a aceitar suas palavras sobre a Paixão que pressente que lhe sobrevirá. Podemos interpretar essas palavras como uma forma de não se apoiar na prudência ou nas concessões gloriosas do messianismo, pois ele sabe muito bem que sua missão não busca glória, mas sim o serviço.

Jesus vence a tentação, e o texto conclui dizendo que o Diabo e os anjos começam a servi-lo. Sua fidelidade à sua missão permite que a ordem seja restaurada para o bem da humanidade. Jesus pode então começar sua missão, confiante no Deus que não o abandonará, mesmo que a situação seja difícil e sua missão provoque tanta rejeição e conflito.

A Quaresma deve nos desafiar a refletir sobre a fé que vivemos e a concepção messiânica que temos. Em tempos em que as religiões são manipuladas para interesses políticos, ou quando Deus é invocado para matar outros ou para propor uma sociedade de poucos escolhidos, as tentações de Jesus nos convidam a discernir a missão que nos foi confiada e a não traí-la, adaptando os valores do Reino aos nossos próprios privilégios ou interesses privados.

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