09 Fevereiro 2026
"Mark Fisher desafiou-nos a não aceitar a quietude do fim da história, nos lembrando que, de uma situação em que nada pode acontecer, pode emergir subitamente a possibilidade de que tudo seja diferente. A sua obra é um mapa e um instrumento para essa reapropriação do futuro", escreve Erick Kayser, mestre e doutorando em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.
Eis o artigo.
Poucos autores contemporâneos captaram com tanta precisão os impasses subjetivos e políticos do nosso tempo quanto o britânico Mark Fisher (1968–2017). Segundo a sentença que ele ajudou a popularizar: em nossos tempos, tornou-se mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.
Esta ideia, o cerne do que batizou de “realismo capitalista”, define o ambiente ideológico que ele se dedicou a cartografar: um sentimento generalizado e paralisante de que o capitalismo não é apenas o único sistema político e econômico viável, mas se tornou impossível até mesmo conceber uma alternativa coerente.
Filósofo, crítico cultural e professor, Fisher teve sua trajetória intelectual profundamente moldada pelas derrotas da classe trabalhadora britânica nos anos de 1980. Formado em filosofia pela Universidade de Warwick, ele integrou o coletivo Cybernetic Culture Research Unit (CCRU), espaço experimental onde a cultura pop, a ficção científica e o pós-estruturalismo se misturavam numa tentativa de pensar o capitalismo como uma força mutante e viral. Mas Fisher transcendeu o hermetismo teórico de seus pares ao buscar, em uma linguagem acessível e incisiva, uma reflexão radical sobre as formas de vida e de consciência produzidas pelo neoliberalismo.
Sua obra mais conhecida, Realismo Capitalista (2009), tornou-se um marco intelectual. Fisher sintetiza ali a sensação difusa de bloqueio histórico que define a experiência contemporânea: não apenas a impossibilidade de imaginar um futuro fora do capitalismo, mas a incapacidade de perceber que essa própria limitação é uma construção ideológica. A famosa formulação de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo condensa sua tese central: o realismo capitalista é menos uma crença explícita e mais um horizonte cultural total, um filtro que captura afetos, desejos e possibilidades. Em vez de se impor pela coerção, o capitalismo neoliberal opera pela colonização das subjetividades, transformando a ansiedade, a depressão e o cinismo em componentes estruturais da vida cotidiana.
"Realismo Capitalista: É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo?", de Mark Fisher (Autonomia Literária, 2020).
Para além da análise do presente esgotado, Fisher dedicou-se a explorar os espectros de futuros que não se concretizaram, popularizando o conceito de “hauntology” (ou espectrologia), termo originalmente cunhado por Jacques Derrida. Na sua visão, a cultura contemporânea é assombrada pelos “futuros perdidos” da modernidade, cancelados pelo neoliberalismo e pela pós-modernidade . Esta nostalgia não é por um passado idealizado, mas um luto por um futuro que nos foi roubado. Esta sensibilidade espectrológica percorre a sua coletânea de ensaios Ghosts of My Life (2014), onde investiga como a música e a cultura pop das décadas de 1970 e 1980 continuam a assombrar o nosso presente, funcionando como um testemunho de que outrora se pôde imaginar (e construir) um mundo socialmente mais justo e culturalmente mais ousado. Numa possível síntese, a sua luta aqui era contra o que via como o “cancelamento” desses futuros alternativos.
Sua crítica, no entanto, não se limita ao plano cultural. Textos como Exiting the Vampire Castle (2013) e The Weird and the Eerie (2016) demonstram sua tentativa de reencontrar na experiência estética o germe de uma saída política. Fisher confronta o moralismo punitivo das redes e da esquerda identitária, propondo um retorno à solidariedade e à construção de um universalismo radical. Em The Weird and the Eerie, o olhar se volta para aquilo que escapa às normas da realidade social – o estranho e o inquietante como brechas ontológicas capazes de desestabilizar o senso comum neoliberal. Para Fisher, essas zonas de estranhamento são momentos em que o mundo revela sua contingência, onde se pode vislumbrar a possibilidade de outra ordem.
O seu apelo para que convertamos o mal-estar generalizado, a ansiedade e a depressão — que ele via não como falhas individuais, mas como sintomas políticos — em antagonismo efetivo contra o capital, permanece mais atual do que nunca. Mark Fisher desafiou-nos a não aceitar a quietude do fim da história, nos lembrando que, de uma situação em que nada pode acontecer, pode emergir subitamente a possibilidade de que tudo seja diferente. A sua obra é um mapa e um instrumento para essa reapropriação do futuro.
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