09 Fevereiro 2026
"As palavras de Primo Levi voltam a ser tragicamente atuais: 'Vocês que vivem seguros em suas casas, vocês que voltando à noite, encontram comida quente e rostos amigos, pensem bem se isto é um homem'", escreve Tonino Perna, em artigo publicado por Domani, 24-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
2025 será lembrado como o ano em que um grande movimento global tomou as ruas para se solidarizar com o povo palestino e exigir o fim do massacre em Gaza. Da Europa à América do Norte e do Sul, ao Japão, Austrália e Coreia do Sul, um único grito de indignação e condenação se elevou aos céus. Um movimento comparável ao movimento pacifista que tomou as ruas no início deste século para se opor à invasão do Iraque, com milhões de bandeiras da paz aparecendo nas janelas das casas em todos os cantos da Europa.
Desde 10 de outubro do ano passado, quando uma espécie de trégua foi estabelecida em Gaza, que Donald Trump descreveu como seu oitavo acordo de paz, terminou o massacre de uma média de sessenta vítimas por dia, sem contar os feridos e os mortos por fome e doenças. No entanto, continuou uma "guerra de baixa intensidade", fazendo vítimas diárias por armas de fogo e ainda mais vítimas devido às precárias condições higiênico-sanitárias e à falta de uma alimentação suficiente.
A mídia de massa acompanhou a evolução da situação ao longo de outubro e novembro, não apenas em Gaza, mas também na Cisjordânia, onde se intensificou a ocupação israelense de terras, com uma sucessão de expulsões e assassinatos. Depois, lentamente, fechou-se a cortina sobre a condição do povo palestino, com a única exceção de algumas imagens da enchente que atingiu cruelmente a população de Gaza, já extenuada por dois anos de bombardeios, sem um teto para se abrigar da água e do frio. E agora, a partir de 1º de janeiro, chegou o golpe final: 37 organizações humanitárias terão que deixar Gaza até 1º de março. Trata-se, em sua maioria, de ONGs conhecidas e reconhecidas por seu trabalho em todas as áreas de crise: de Médicos Sem Fronteiras a Oxfam, ActionAid, Caritas Internacional, e assim por diante.
Com uma escolha de tempos bastante suspeita, a decisão de expulsar essas ONGs chega no momento em que os ministros das Relações Exteriores de dez países denunciaram o fato de que "com a aproximação do inverno, os civis de Gaza se veem enfrentando condições terríveis, com fortes chuvas e queda de temperatura, com 1,3 milhão de pessoas que ainda precisam de ajudas urgentes para a moradia. Mais da metade das instalações de saúde funciona apenas parcialmente e enfrenta falta de equipamentos e suprimentos médicos essenciais. O colapso total das infraestruturas higiênico-sanitárias deixou 740 mil pessoas vulneráveis a inundações tóxicas". Essa declaração — assinada pelo Reino Unido, Canadá, Dinamarca, Finlândia, França, Islândia, Japão, Noruega, Suécia e Suíça — foi ignorada pelo governo israelense, que se entrincheira por trás de risíveis preocupações de segurança.
Diante do prosseguimento do extermínio de um povo inteiro, a mídia de massa foi arrastada para outros cenários dramáticos, para onde a política de Trump a leva diariamente. Em tempos recentes, desde que existem os meios de comunicação modernos, nenhum presidente dos EUA dominou o cenário mundial com tamanha preponderância, concentrando sobre si mesmo a maior parte das notícias internacionais. Tragédias horríveis como as que afligem o Sudão há dois anos, com centenas de milhares de mortes e seis milhões de refugiados, além de uma terrível crise alimentar, ou a retomada da guerra no Kivu, onde mais uma falsa paz foi declarada e atribuída à sua própria ação pelo presidente dos EUA. Esses são apenas alguns dos exemplos mais flagrantes de quase sessenta conflitos que levaram o Papa Francisco a denunciar "uma terceira guerra mundial aos poucos".
Seria possível, nos perguntamos, romper com esse mecanismo perverso de seguir a última jogada de Dollar Trump? Não no sentido de negá-la, mas de lhe dar um espaço menor e permitir que outras realidades dramáticas ou trágicas sejam conhecidas pela opinião pública, ao menos em países onde ainda existe liberdade de expressão.
Na minha modesta opinião, para mudar o foco da mídia, é necessário que o movimento pró-Palavra retorne às ruas, em formas pacíficas, criativas e eficazes. Nos últimos meses, esse movimento desapareceu do radar dos principais veículos de comunicação, mas continuou a operar em pequena escala: encontros/debates, exposições sobre Gaza e a Cisjordânia, filmes, documentários. Essas são iniciativas significativas e importantes, mas que envolvem quase que exclusivamente os ativistas, enquanto sua força reside no engajamento de uma ampla faixa da população. Impedir a expulsão de ONGs humanitárias de Gaza poderia ser um objetivo que agregue uma grande parte da opinião pública para evitar que o povo de Gaza seja abandonado no meio da lama sem alimentos e sem remédios, médicos e enfermeiros e um teto sob o qual se abrigar.
As palavras de Primo Levi voltam a ser tragicamente atuais: "Vocês que vivem seguros em suas casas, vocês que voltando à noite, encontram comida quente e rostos amigos, pensem bem se isto é um homem"
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