Quando a linguagem se torna uma arma. Artigo de Maria do Rosário Nunes

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

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09 Fevereiro 2026

O Brasil tem sido um laboratório para a construção e disseminação de discursos de ódio com intenções políticas e econômicas, fortemente associados ao avanço de forças de extrema-direita.

O artigo é de Maria do Rosário Nunes, representante do Partido dos Trabalhadores do Brasil, publicado por Ctxt, 23-01-2026.

A autora participou do painel “Como forjar alianças contra a internacional reacionária”, no âmbito da 1ª Conferência Internacional “Ideias para combater o ódio”, organizada pela Fundação Contexto e Ação em Saragoça, nos dias 22 e 23 de janeiro. Este artigo resume os principais pontos da sua apresentação, que decorreu via Zoom.

Eis o artigo.

Quando falamos de discurso de ódio, muitas pessoas imaginam insultos ou comentários agressivos nas redes sociais. Mas o problema é muito mais profundo. O discurso de ódio não surge do nada, nem se limita a palavras "mal escolhidas". Ele é construído ao longo do tempo, sustentado por ideias, valores e hierarquias que permeiam a cultura e moldam a forma como as pessoas são percebidas. Não é coincidência que seja direcionado a mulheres, migrantes, pessoas negras, pessoas LGBTQ+ e outros grupos historicamente estigmatizados.

A linguagem não apenas descreve o mundo; ela cria a realidade. As palavras produzem sujeitos, definindo quem importa, quem é respeitado e quem pode ser tratado como descartável. Nesse sentido, precisamos entender algo fundamental: ninguém se constrói isoladamente. Somos seres sociais, formados dentro de estados, nações e instituições. Nossas identidades dependem do olhar dos outros. E é precisamente aqui que o discurso de ódio se torna tão violento: ele atinge o próprio âmago da existência, empurrando aqueles a quem se dirige especificamente — mulheres, migrantes, pessoas negras e pessoas LGBTQ+ — para um "não-lugar", definindo uma condição na qual suas vidas são menos valorizadas.

O discurso de ódio não surge simplesmente no momento em que alguém clica em "publicar". Isso é apenas a ponta do iceberg. Por baixo, existe um vasto repertório de piadas, memes, estereótipos, provérbios, comentários "inofensivos" e narrativas que se repetem até parecerem naturais.

É essa repetição que dá poder ao discurso. Uma única piada misógina pode parecer trivial, mas milhares delas, circulando diariamente, reforçam a ideia de que as mulheres são inferiores, exageradas, estúpidas ou mentirosas. O mesmo ocorre com discursos racistas ou homofóbicos. Eles moldam a percepção social e limitam quem pode ser reconhecido como um sujeito digno de respeito e proteção.

O discurso de ódio fere não apenas por ofender, mas por colocar o alvo em uma posição social familiar: a de subordinação. Funciona como um lembrete violento de quem está no comando e quem deve permanecer à margem. Seu poder deriva precisamente do fato de não ser uma expressão isolada ou improvisada. Quando alguém profere um insulto racista, misógino ou homofóbico, não está apenas expressando uma opinião individual, mas reativando toda uma estrutura de dominação existente. É como se a sociedade estivesse falando através do agressor. Nesse sentido, o discurso de ódio não cria nada de novo: repete, quase automaticamente, hierarquias antigas, reinscrivendo desigualdades de forma previsível e eficaz, como uma máquina que continua girando porque nunca foi desmontada.

Portanto, os comentários de ódio nas redes sociais não são meras “opiniões”. Eles funcionam como violência simbólica: desumanizam, silenciam e expulsam certos grupos da esfera pública.

No atual contexto histórico, é necessário destacar que a construção e a disseminação de discursos de ódio estão fortemente associadas à ascensão de forças políticas de direita e extrema-direita nas vitórias eleitorais de governos de países importantes. Por meio desse mecanismo, ativam-se estruturas de pensamento opressivas, conservadoras e retrógradas, ligadas à subordinação de indivíduos e grupos sociais, conferindo poder opressor aos seus antagonistas.

Assim, o nacionalismo contra os migrantes, o machismo e a misoginia, o racismo, a LGBTfobia e todas as outras formas de opressão se exacerbam de maneira articulada, com intenções políticas e econômicas, bem como sociais e culturais.

O Brasil tem sido um campo de testes para esse movimento: todos os atos, golpes e ações da extrema-direita fascista foram impulsionados por seus interesses políticos e econômicos corruptos, utilizando uma retórica sobre a defesa da família, de Deus e da pátria. Claramente, essa polarização opera como uma estratégia política voltada para a exclusão e o extermínio — tanto simbólico quanto material — dos grupos historicamente oprimidos mencionados anteriormente.

O discurso de opressão e o ataque direto contra mulheres, pessoas negras e pessoas LGBTI, associados à ideia de “ordem militar” e “moralidade religiosa neopentecostal”, foram centrais para a vitória eleitoral do candidato de extrema-direita em 2018 e para a construção de uma tentativa de golpe em 2023.

A lei é necessária, mas não resolve todos os problemas

Uma vez que o discurso de ódio não é exclusivamente a manifestação de um pensamento retrógrado enraizado na cultura da sociedade, mas se ativa no contexto de interesses políticos que dividem a sociedade, dificilmente conseguiremos combatê-lo apenas por meio de mecanismos legais.

Em nossa época, o fascismo se caracteriza como um movimento que vai muito além do nacionalismo extremo, embora conserve essa dimensão. É, mais do que nunca, uma ideia nostálgica segundo a qual, dentro de cada nação, as referências à hierarquia e à ordem que outrora prevaleceram se perderam e agora precisam ser recuperadas. Assim, tais movimentos se propagam com força pelas redes sociais, apoiando-se na construção de líderes carismáticos que dão voz aos impulsos opressivos reprimidos nas democracias constitucionais estabelecidas durante as sucessivas ondas democráticas do século XX.

Em relação ao Brasil, podemos considerar que houve avanços em termos de legislação e decisões judiciais para punir o discurso de ódio nos últimos anos. Obviamente, esse progresso não acompanhou o aumento da popularidade do discurso de ódio. A resposta legal, por si só, muitas vezes chega tarde demais e aborda apenas os efeitos mais visíveis do problema.

Punir um comentário ofensivo não desfaz a cultura que o tornou aceitável. Além disso, as redes sociais se movem muito mais rápido do que o sistema judiciário consegue reagir. Quando uma decisão é tomada, o dano já está feito: o conteúdo viralizou, a vítima foi exposta e o medo se instalou.

A lei estabelece limites, mas leva tempo para mudar mentalidades. E o ódio continua a encontrar eco na sociedade. Além disso, o próprio processo judicial perpetua as ofensas e expõe a vítima mais uma vez às humilhações sofridas no momento do crime.

É importante notar que, entre todos os países que vivenciaram ditaduras civis-militares nas últimas décadas do século XX, o Brasil é a nação que fez a transição para a democracia com a menor implementação de justiça de transição. Isso perpetua a impunidade de torturadores, assassinos e golpistas que atuam dentro do Estado brasileiro, no setor privado e na área das comunicações.

A ditadura de ontem desenvolveu uma doutrina de segurança nacional contra o chamado "inimigo interno", delineando um perfil dos perseguidos e desaparecidos. O movimento neogolpista que ameaça o país hoje tem seus próprios alvos, e o discurso de ódio é o ataque fascista da nossa era em favor do autoritarismo.

Quando a fala se transforma em violência física

Os números deixam claro que o discurso de ódio não se limita ao campo das palavras. No Brasil, a violência contra a mulher atingiu níveis alarmantes. Dados recentes mostram que mais de 21 milhões de mulheres sofreram alguma forma de violência no último ano (Datafolha). Em 2025, um levantamento do Laboratório de Estudos do Feminicídio (Lesfem) identificou 5.582 feminicídios consumados e tentativas de feminicídio no Brasil, resultando em uma taxa anualizada de 5,12 feminicídios por 100 mil mulheres.

Esses crimes não acontecem isoladamente. Eles são alimentados por uma cultura que banaliza a violência masculina, culpa as vítimas e trata as mulheres como propriedade. Memes, retórica misógina e narrativas de ódio ajudam a construir um ambiente onde a agressão se torna possível e até justificável.

As redes sociais se tornaram o principal palco dessa dinâmica. Algoritmos que recompensam o engajamento , o anonimato e a viralização criam um ambiente perfeito para a circulação desenfreada de ódio. Não é coincidência que mais de 80% das pessoas relatem ter sofrido algum tipo de violência online (ONU).

Nesse contexto, o discurso dos chamados "redpills" está ganhando força . Esses grupos se apresentam como vítimas de uma suposta "opressão feminina" e veem o feminismo como inimigo. Esses espaços ensinam, explícita ou implicitamente, que desprezar as mulheres é legítimo, que controlar corpos e emoções é natural e que a violência pode ser uma reação aceitável à perda de privilégios.

Esse discurso funciona como uma forma de discurso de ódio, especialmente entre jovens do sexo masculino em fases formativas da vida. Não é coincidência que diversos países estejam observando um aumento na violência de gênero em paralelo com o crescimento dessas comunidades online.

O medo que precede a ofensa

Outro efeito perverso do discurso de ódio é o medo que ele instila em nossos jovens. Jovens e adolescentes aprendem que suas ações e seus corpos estão sendo monitorados e que, portanto, o simples fato de existirem pode ser perigoso. Mesmo antes de se sentirem ofendidos, eles começam a se autocensurar: escondem quem são, controlando seus gestos, roupas e afetos.

Esse medo silencioso corrói a autoestima, afeta a saúde mental e limita os planos de vida. Os espaços públicos, incluindo o ambiente digital, passam a ser vistos como território hostil. E surge a pergunta: que tipo de jovens estamos criando?

Reconhecendo esses riscos, o Congresso Nacional do Brasil aprovou recentemente a ECA Digital, que atualiza o Estatuto da Criança e do Adolescente para o ambiente online. A proposta parte de uma ideia simples, porém fundamental: a internet não é neutra.

Ao impor obrigações às plataformas e criar mecanismos de proteção, a ECA Digital reconhece que crianças e adolescentes precisam de cuidados especiais contra a exposição ao ódio, à violência e à exploração algorítmica. É um passo importante, embora ainda insuficiente.

Além da proibição: confrontando a cultura do ódio

Como vimos, esse cenário de discurso de ódio e incitação ao medo não é politicamente neutro. Pelo contrário, tem sido explorado pela ascensão da extrema direita em diversos países, incluindo o Brasil. O medo gerado pelo discurso de ódio — medo do “outro”, da diferença, da perda de privilégios ou de um suposto colapso moral — torna-se uma poderosa ferramenta de mobilização política.

Por isso, é tão importante combater o discurso de ódio, que se espalha pelas nossas vidas como um vírus, um patógeno mortal. Combater esse vírus exige mais do que remover publicações ou punir indivíduos. Exige um esforço coletivo e estrutural: educação, políticas públicas, regulamentação das plataformas, fortalecimento das redes de apoio às vítimas e ampliação da participação política de mulheres, migrantes, pessoas negras e pessoas LGBTQ+.

Discurso de ódio é uma expressão de fascismo.

Confrontar o ódio significa desafiar a cultura. Significa expandir o que pode ser dito, quem pode falar e quem pode existir sem medo. Só assim será possível romper o ciclo que transforma palavras em violência e o silêncio em destino.

Combater o ódio é uma necessidade urgente para resgatar os princípios civilizacionais que moldam o significado contemporâneo dos direitos humanos e da democracia.

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