24 Janeiro 2026
"Leão XIV era americano. Ele apoiava o sistema da Igreja sem recorrer a uma guerra cultural. E, no entanto, agora é Trump quem contradiz crenças católicas clássicas fundamentais em questões-chave. Essa inversão de papéis é desconcertante — e não pode mais ser ignorada", escreve Andreas G. Weiß, teólogo e filósosfo alemão, em artigo publicado por Katholisch, 20-01-2026.
Eis o artigo.
O ano novo tem apenas algumas semanas. No entanto, o dia 20 de janeiro marca o momento de olhar para trás, para os últimos meses – não como uma avaliação final, mas como uma visão geral inicial. Para os católicos do mundo todo, este período é de particular importância. Pois, em pouco tempo, dois americanos ascenderam ao comando de sistemas cuja influência se estende muito além da política e da Igreja: Donald Trump na Casa Branca e Leão XIV em Roma. Ambos representam respostas diferentes para a mesma pergunta: Como liderar quando as ordens existentes enfrentam dificuldades?
Essa assimetria temporal é reveladora. Trump age sem um período de preparação, sem uma fase de tentativa, sem levar em conta as redes de segurança institucionais. Leão, por outro lado, ainda está em processo de estabelecer e estruturar seu sistema. No entanto, ambos estão reagindo a um ponto de partida comparável: lideram sistemas que estão sob considerável pressão e cuja viabilidade não pode mais ser dada como certa. A questão crucial, portanto, não é quem age mais rápido ou com mais veemência, mas sim como se configura a liderança quando os sistemas não conseguem mais se sustentar.
Desafios profundos
O Sonho Americano enfrenta um crescente ceticismo há anos. Como narrativa inclusiva, prometia ascensão social, participação e pertencimento, apesar da diversidade. Nunca esteve isento de conflitos, mas, por muito tempo, foi uma força unificadora. Hoje, esse sonho foi levado ao limite. A desigualdade social, as lutas por identidades culturais, a perda de confiança política e a influência religiosa nas lealdades políticas enfraqueceram sua resiliência. O sonho não desapareceu, mas seu antigo brilho começa a mostrar rachaduras.
A Igreja Católica também enfrenta desafios profundos. Escândalos de abuso, perda de autoridade, fragmentação cultural e polarização interna abalaram a confiança em uma ordem que busca transmitir significado e compromisso moral. Essa tensão é particularmente evidente nos EUA: entre a estabilidade institucional e o endurecimento ideológico, entre a unidade sacramental e a polarização política. Em ambos os casos, a questão não reside em reformas detalhadas, mas em quanta tensão interna um sistema pode suportar sem entrar em colapso.
Trump e Leão responderam a essa situação comparável com estratégias contrastantes: Trump apostou na ruptura, Leão na desaceleração. Ambos geraram atrito e atenção – mas de natureza diferente. Nos meses que antecederam 20 de janeiro de 2026, ficou claro que o segundo mandato de Trump se desenrolaria de forma diferente do primeiro. Ele estava preparado. A nomeação para cargos-chave seguiu quase exclusivamente uma lógica de lealdade. Os republicanos da "velha guarda" praticamente não tinham mais influência – nem na administração, nem nas estruturas do partido. A amplitude institucional foi substituída pela confiabilidade pessoal.
"Salvador" político
Há também um fator crucial: Trump não tem mais nada a perder politicamente. O fato de não precisar mais vencer uma eleição não é libertador, mas sim desinibidor. O que resta é o que sempre foi sua verdadeira força: gerar manchetes – não importa o custo. A ponderação dá lugar a um cálculo de sucesso máximo, independentemente do que aconteceu antes ou do que acontecerá depois.
Essa lógica se exemplifica em sua abordagem da questão da paz. Trump a reivindica para si, mas, simultaneamente, a concebe como algo que pode ser imposto pela força, se necessário. A paz não surge como resultado de negociações minuciosas, mas como um estado imposto pela parte mais forte. Sua promessa de "tornar a América grande novamente" é igualmente contraditória: a grandeza não é alcançada por meio da cooperação ou da confiabilidade institucional, mas sim pela dominação. Padrões de pensamento colonialistas — reivindicações de propriedade, esferas de influência, o direito do mais forte — são retoricamente reativados. Essa contradição também molda a política externa de Trump. Ele critica duramente a guerra da Rússia contra a Ucrânia, mas, em outros contextos, emprega lógicas semelhantes de imposição violenta de objetivos políticos, por exemplo, em suas relações com a Venezuela. Os princípios se aplicam situacionalmente, não universalmente.
Trump se apresenta como um homem forte, mas evita compromissos claros. Promessas vinculativas, regras duradouras e limites transparentes ao seu próprio poder são evitados. A força é demonstrada não pela confiabilidade, mas pela imprevisibilidade. Os mecanismos de controle e equilíbrio ficam em segundo plano; as instituições se transformam de sistemas fundamentais em meras ferramentas de manobra política. Isso confere à política de Trump uma dimensão religiosa. Ele se vê como o herdeiro legítimo, legitimado pelo voto popular — e, portanto, acima de tudo. Muitos de seus apoiadores o interpretam como um "salvador" político: aquele que tem permissão para dizer e fazer o que outros não ousam mais. Essa lógica salvacionista é perigosa porque sacraliza a responsabilidade política e deslegitima a crítica.
A continuidade de Leão com seu antecessor
Leão XIV escolheu um caminho diferente. Ele também liderou um sistema em circunstâncias transformadas, mas, em vez de intensificar o desafio, procurou distribuí-lo. Sua liderança foi caracterizada por gestos de estabilidade. Manteve uma continuidade substancial com o Papa Francisco sem copiar seu estilo. Em questões-chave, estabeleceu posições claras: a paz como horizonte indispensável, a proteção da vida em seu sentido ético mais amplo, a rejeição da pena de morte e a justiça social como parâmetro para a ação política.
Ao mesmo tempo, Leão XIV está refreando as estratégias que medem o sucesso de um pontificado pelo número de reformas visíveis ou que buscam credibilidade unicamente em uma ruptura com o passado. A desaceleração torna-se uma estratégia de liderança — não para criar estagnação, mas para dar ao sistema tempo para se autocorrigir. Criar espaço significa manter os conflitos dentro do sistema, não negá-los. Decisões como a permissão da Missa Tridentina na Basílica de São Pedro exemplificam isso. Leão XIV não cede simplesmente, mas também não transforma a situação em uma guerra cultural. Ao criar espaço, ele neutraliza a oposição permanente e, simultaneamente, deixa claro que não haverá retrocesso sob seu governo. Continuidade significa confiabilidade, não regressão. O sistema é apoiado, não romantizado — e não violado.
Para os católicos nos EUA, essa coexistência é particularmente desafiadora. De acordo com dados do Pew Research Center, cerca de 19 a 20% da população adulta dos EUA se identifica como católica – aproximadamente 52 a 53 milhões de pessoas. Os católicos constituem, portanto, o maior grupo denominacional no espectro religioso dos EUA. Quase 47% de todos os adultos também têm uma ligação pessoal ou familiar com a Igreja Católica. Sua influência cultural e institucional, portanto, vai muito além da filiação formal.
Tensão quase insolúvel
Ao mesmo tempo, o catolicismo nos EUA é extremamente heterogêneo. Cerca de um terço dos católicos são de origem hispânica, e muitos são imigrantes de primeira ou segunda geração. Os católicos constituem uma parcela significativa do eleitorado e estão presentes em quase todas as áreas da sociedade. Globalmente, o catolicismo nos EUA faz parte de uma Igreja com quase 1,4 bilhão de membros. As decisões nacionais, portanto, estão sempre inseridas em um contexto global.
Para muitos católicos americanos, isso cria uma tensão quase insolúvel. Muitos apoiaram Trump justamente por o verem como um contrapeso ao Papa Francisco — uma defesa contra o que percebiam como reformismo excessivo ou proximidade com a modernidade progressista ocidental. Essa lógica já não se sustenta. Com Leão XIV, a Igreja tem um papa que não pode ser acusado nem de crença ingênua no progresso nem de uma retórica reformista baseada em princípios, mas que assume uma posição clara contra as políticas de Trump em questões cruciais: na ética da paz, na ênfase na dignidade humana universal, na rejeição da violência e na responsabilidade social do Estado.
Aqueles que antes viam Trump como um baluarte contra a modernidade desenfreada e a arbitrariedade agora se deparam com a questão de saber se essa lealdade ainda é compatível com seus próprios valores católicos. A interpretação anterior — Washington como um bastião político contra uma Roma supostamente imprevisível — já não se sustenta. Leão XIV era americano. Ele apoiava o sistema da Igreja sem recorrer a uma guerra cultural. E, no entanto, agora é Trump quem contradiz crenças católicas clássicas fundamentais em questões-chave. Essa inversão de papéis é desconcertante — e não pode mais ser ignorada.
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