24 Janeiro 2026
"Resumindo, as concepções e práticas de poder/poderio implementadas por Donald Trump são destrutivas para a vida e para a sociedade global, em todos os seus aspectos fundamentais. Como tais, não são boas nem para o povo estadunidense e os povos das Américas, nem para os povos do chamado mundo "ocidental", nem para os povos da África, do Oriente Médio ou da Ásia", escreve Riccardo Petrella, em artigo publicado por Prima loro, 16-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Riccardo Petrella é cientista político italiano com doutorado em ciências políticas e sociais pela Universidade de Florença (Itália) e autor, entre outros, do livro O Manifesto da Água (Editora Vozes, 2002).
Eis o artigo.
Declaram isso os Estados Unidos de Trump, considerados o estado mais poderoso da Terra. Não haveria ética nem leis às quais um poder deva responder.
À pergunta feita por jornalistas do New York Times em 8 de janeiro: "Do you see any checks on your power on the world stage? Is there anything that could stop it you wanted to?” (Existe algum limite ao seu poder no cenário mundial que poderia limitar o que pode fazer?), Donald Trump respondeu de forma clara e inequívoca: “Yeah, there’s one thing: my own morality, my own mind. It’s the only thing that can stop me. And that’s very good”. (Sim, existe uma única coisa: minha própria moralidade, minha própria mente. É a única coisa que pode me deter. E isso é ótimo.) Trump também afirmou: “I don’t need any international law. (…) (My power is) limited by strength rather than treaties or conventions” (Não preciso de nenhum direito internacional. (...) Meu poder (ou seja, dos Estados Unidos) é limitado pela força, e não por tratados ou convenções.) Ele, por fim, declarou: “Well it does, to me it’s ownership. Ownership is very important, yeah. (…) Ownership gives you things and elements that you can’t get from just signing a document that you can have a b …” (Sim, existe, é a propriedade. A propriedade dá coisas e elementos que você não consegue apenas assinando um documento.) Essa última afirmação esclarece muito bem o pensamento e o comportamento de Trump.
Pelo conjunto dessas declarações, inadmissíveis sob todos os pontos de vista, emerge a evidência que não se pode tolerar que uma pessoa que defende tais opiniões ainda possa exercer legitimamente o cargo de presidente dos Estados Unidos. A realidade confirma isso de forma dramática: suas ações já são uma fonte de desastres para a vida na Terra no campo ambiental, econômico, humano, social e político. Sua remoção é necessária e urgente. Não um dia a mais. Sua destituição deve ser, antes de tudo, uma tarefa dos cidadãos e do povo EUA. Mas também deve ser um dever inquestionável para a grande maioria dos cidadãos e dos povos do mundo, cujos direitos e dignidade foram pisoteados com tamanho desprezo e cinismo por Trump. Seu desprezo pelos outros povos do mundo não se deve explicitamente a fatores raciais, de classe ou religiosos, o que seria extremamente grave, mas sim ao fato de que, em sua visão, eles não valem nada. Por quê? Porque, ele garante, não têm nenhuma força econômica e militar, nenhum poder, não sendo "proprietários" de suas terras e recursos, de suas vidas. O conceito de "propriedade" ao qual Trump se refere na entrevista desempenha um papel fundamental em sua visão de mundo, que ele está tentando impor como "sua ordem".
A afirmação "Não preciso de leis internacionais" significa que Trump acredita que, graças à força (dinheiro e armas) derivada de ser o "proprietário" econômico e tecnológico dominante do mundo, ele pode impor a "sua ordem" e exercer "o poder" de acordo com suas "necessidades" e princípios. Se, como ele afirma claramente, o único poder que pode detê-lo é sua moralidade (não fala de ética) e suas convicções, estamos diante de princípios absurdos. O único método que ele aceita é o da força. Nesse sentido, ele afirma que o destino dos fracos (indivíduos, grupos sociais, organizações, povos, estados) será submeter-se ao mais forte ou perecer (outro absurdo).
Os conceitos de Trump (que analisei e critiquei há um ano em um longo artigo intitulado "Entender por que o sistema EUA constitui o maior perigo para o mundo") [1] são anti-humanos, antissociais e abertamente criminosos.
É inconcebível que se possa aceitar que esses princípios sejam aplicados impunemente, e tolerar que sejam considerados objetivos estratégicos mundiais do presidente do Estado militarmente mais forte, que se autoproclamou "fora da lei" e acima de qualquer outro poder.
Vale reler agora, à luz desses princípios, as relações de Trump com ucranianos, palestinos, venezuelanos, nigerianos, cubanos e europeus... bem como a evolução da situação em relação a Groenlândia, Canadá, México...; e, inversamente, suas relações com Israel, Rússia, China e Arábia Saudita. Sem mencionar a devastação do clima e da vida na Terra, e a luta pela supremacia no ultrapoderoso universo da Inteligência Artificial. Na situação atual, especialmente após a reação quase totalmente branda dos outros Estados latino-americanos, do Oriente Médio e da Europa pelo que ele fez na Venezuela (a tomada de controle por via militar do governo do país, especialmente de seu petróleo), tudo indica que não deveremos esperar muito para que Trump decida ocupar a Groenlândia, por bem ou por mal, como ele afirma abertamente. A anexação da Groenlândia me parece mais próxima e provável do que a invasão militar do Canadá, apesar de estar circulando clandestinamente nos últimos dias um documento "secreto" do governo EUA sobre um plano de invasão do Canadá. Tudo dependerá da mobilização dos cidadãos estadunidenses e europeus. A reação dos governos europeus provavelmente se orientará pela submissão em troca de compromissos.
Uma breve observação final sobre o que Trump deliberadamente não falou e que, caso fosse mencionado, teria exposto uma de suas maiores contradições que fazem dele uma figura ainda mais perigosa para o futuro do mundo. Ao falar de "minha própria moralidade, minha própria mente", ele não fez nenhuma referência à sua proclamada fé cristã. Vale lembrar que, durante o atentado armado do qual se diz ter sido vítima sem consequências, o próprio Trump afirmou, com aparente convicção, que Deus o teria salvo para que pudesse continuar sua obra em prol da grande América, símbolo da liberdade, como líder mundial. Trump confirmou, assim, sua adesão à concepção mística e fideísta do "Destino manifesto" dos EUA, que domina todos os grupos políticos estadunidenses desde 1849. Segundo essa concepção — especialmente na versão de 1914 do presidente Woodrow Wilson, fervoroso defensor da criação da Sociedade das Nações Unidas, ou seja: "Creio que Deus presidiu o nascimento dessa nação e que fomos escolhidos para mostrar o caminho às nações do mundo em sua jornada rumo à liberdade" — os estadunidenses acreditam ser evidente que Deus tenha decidido destinar à sua "nação" o papel de liderar o mundo. Independentemente da solidez da fé cristã de Trump (tenho a impressão de que ele não acredita em nenhum Deus, exceto em termos instrumentais), a realidade está longe de ser mística: Trump acredita apenas em si mesmo na medida em que se considera "o poder", legitimado pelo poder fundado sobre a propriedade daquilo que é estrategicamente poderoso, incluindo o Estado, reduzido a uma "administração" e, portanto, um instrumento de propriedade do presidente que venceu a competição eleitoral e das forças que o apoiaram financeiramente.
Resumindo, as concepções e práticas de poder/poderio implementadas por Donald Trump são destrutivas para a vida e para a sociedade global, em todos os seus aspectos fundamentais. Como tais, não são boas nem para o povo estadunidense e os povos das Américas, nem para os povos do chamado mundo "ocidental", nem para os povos da África, do Oriente Médio ou da Ásia.
Vamos ousar a cooperação e a justiça planetárias.
O mundo começou a recusar ser dominado pelos EUA já antes da eleição à presidência de Donald Trump. Com Donald Trump no poder, em um país que continua sendo o primeiro e único a ter usado a arma atômica, tornou-se inadmissível para uma parcela cada vez maior da população mundial tolerar as destruições contínuas provocadas pelos EUA sob a liderança de Trump. A remoção de Trump é urgente e prejudicial, mas os princípios e os objetivos expressos por ele não desaparecerão com sua remoção, pois ele representa a forma extrema e mais violenta das concepções ainda hoje defendidas pelas forças sociais dominantes do sistema Estados Unidos e, de forma mais geral, do sistema econômico, social e político da sociedade capitalista fundada na economia de mercado da livre propriedade de bens e serviços essenciais para a vida.
Somente uma mobilização mundial, marcada por uma cooperação estreita, real e não retórica entre os cidadãos EUA, os cidadãos da América Latina, Europa, África, Oriente Médio e Ásia, poderá propiciar um pacto global planetário para a construção de novas regras, instituições e instrumentos. Chegou a hora de criar uma nova constituinte planetária dos Habitantes da Terra ou Constituinte da Terra, a partir do que resta da ONU e das novas estruturas multipolares criadas nos últimos anos (o BRICS é um exemplo frágil, mas essencial) para favorecer a gestação de um mundo mais cooperativo, justo e pacífico.
Notas
[1] Riccardo Petrella. Disponível aqui.
[2] Para uma análise das ameaças ligadas a uma visão místico-fideísta dos Estados Unidos, ver op. cit.
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