08 Janeiro 2026
Entre todas as conferências que acompanhei, nenhuma se aproximou do que vimos em Belém no que diz respeito à participação da sociedade. A cidade respirou e transpirou COP30.
O artigo é de André Ferretti, engenheiro florestal e gerente de economia da biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, publicado por ((o))eco, 07-01-2026.
Eis o artigo.
Por ter sido realizada no Brasil, a Conferência das Partes despertou um interesse inédito entre os brasileiros. E, num cenário em que notícias negativas costumam ecoar com mais força do que conquistas, é importante afirmar que a COP30, apesar da insatisfação manifestada com o texto do acordo final, esteve longe de ser decepcionante.
Pelo contrário, Belém entregou resultados expressivos, trouxe surpresas muito positivas e reforçou a percepção de que estamos avançando, ainda que em um ritmo mais lento do que o desejado, rumo a um novo patamar de ação climática global. Afirmo isso após ter acompanhado, presencialmente, 19 edições desse encontro promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU).
Destaco o fato de que, pela primeira vez, entrou oficialmente na mesa de negociação um roteiro para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis. A construção de mapas do caminho foi apoiada por mais de 80 países. Essa iniciativa será discutida em uma conferência internacional, organizada pela Colômbia em parceria com a Holanda, a ser realizada em abril de 2026 na cidade colombiana de Santa Marta.
Esse foi um resultado de grande relevância, sobretudo em um dos temas mais espinhosos das discussões climáticas – nunca antes tratado dessa maneira nas COPs – e que, na COP30, foi estrategicamente conduzido de forma separada da agenda negociada entre os países e aprovada já no primeiro dia. É um sinal concreto de mudança: a energia fóssil deixou de ser um tabu diplomático e entrou na rota política oficial.
Entre todas as conferências que acompanhei, nenhuma se aproximou do que vimos em Belém no que diz respeito à participação da sociedade. A cidade respirou e transpirou COP30. Praças, universidades, centros culturais, ruas e auditórios lotados mostraram que o tema clima não é mais uma conversa restrita a especialistas e negociadores. A mobilização não veio apenas da população local, mas também de brasileiros de todas as regiões e de visitantes de dezenas de países.
A primeira grande lição da COP30 é justamente o poder da participação popular. Ver a pauta climática entrar de fato na vida das pessoas – nas conversas de rua, entre os jovens, em espaços comunitários e no centro da agenda da imprensa – foi um passo enorme. Nunca tivemos no Brasil uma cobertura tão ampla e qualificada sobre o tema. Esse movimento amplia o entendimento coletivo, fortalece comunidades e eleva nosso nível de maturidade para cobrar a implementação de políticas e compromissos. Participação não é simplesmente fazer barulho: é construir conhecimento, contribuir tecnicamente, acompanhar decisões e manter engajamento cotidiano.
Outra lição foi a priorização absoluta da ação para adaptação climática. O que não poderia ser diferente diante da escalada global de desastres. Foram aprovados 59 indicadores do Objetivo Global de Adaptação, lançado o Acelerador Global de Adaptação para apoiar NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas) e Planos Nacionais, além da pactuação da meta de triplicar o financiamento até 2035. O desafio agora é montar os instrumentos financeiros para que esses recursos cheguem ao território, às cidades e aos setores produtivos. Sem adaptação, a conta dos impactos será impagável.
O terceiro aprendizado foi a centralidade dada ao oceano, reconhecido como elemento estratégico na agenda climática global. Foram apresentadas quase 500 iniciativas, incluindo os 70 projetos do Blue Package, capazes de responder por até 35% das reduções necessárias de emissões até 2050. Sustentabilidade costeira, economia azul, biodiversidade marinha e Soluções Baseadas na Natureza (SBN) passaram a ocupar o centro da discussão. Falta ainda presença mais explícita nos textos decisórios, mas a virada já aconteceu.
Por falar em SBN, esse assunto foi tratado como eixo transversal, um elemento articulador entre setores: agricultura regenerativa, cidades resilientes, restauração florestal, saúde, energia, turismo, indústria e recursos hídricos. O Brasil tem potencial único para liderar esse campo científico, tecnológico e econômico. Hoje, soluções que conservam a biodiversidade também são oportunidades de negócio e de geração de renda.
O Brasil também teve êxito ao consolidar esta edição como a COP da implementação, conforme se esperava. Mais de 120 planos de ação foram apresentados e debatidos no contexto da Agenda de Ação, indicando uma mudança concreta para a ação. Os próximos meses serão decisivos para transformar esses compromissos em planos e projetos reais, com efeitos palpáveis nos territórios. A transição climática precisa sair definitivamente das salas de negociação e chegar às cidades, nos negócios, na agropecuária, na indústria e no oceano.
Para concluir, a COP30 representou também um resgate da autoestima nacional. O Brasil se projetou como um país maduro e articulador, capaz de construir convergências em um cenário global complexo. Temos agora quase um ano de presidência para sustentar o ritmo das discussões e transformar ambição em acordos concretos. É uma oportunidade estratégica para reposicionar nossa economia na rota da descarbonização, da adaptação e resiliência, da bioeconomia e da inovação ambiental. Precisamos continuar surfando essa onda com determinação, porque os avanços precisam acontecer agora. São lições valiosas que podem inspirar ações práticas no ano que se aproxima.
Leia mais
- COP30: nem sucesso nem fracasso. Artigo de Luigi Togliani
- Que COP30 foi essa? Entre as mudanças climáticas e a gestão da barbárie. Artigo de Sérgio Barcellos e Gladson Fonseca
- COP30 entrega mais metas e métricas para adaptação, mas não fecha a conta climática
- COP30 termina com compromissos mínimos, objeções latino-americanas e muito trabalho pela frente
- Negacionismo de Lula e meta proposta para COP30 pode eliminar região que sediou evento. Artigo de Lucas Ferrante
- Meta de adaptação gera impasse em negociações da COP30
- COP30 avança em financiamento, adaptação e regras de transparência
- Financiamento, adaptação e protestos: o que marcou a primeira semana da COP30
- COP30 avança com pacote sobre financiamento, metas climáticas e medidas comerciais
- O fracasso da COP30. Artigo de Carlo Petrini
- COP30. Dois projetos em disputa: o da floresta que sustenta ou do capital que devora. Entrevista especial com Milton Felipe Pinheiro
- O que a COP30 tem que entregar para não fracassar
- Financiamento climático exige instrumentos criativos, afirma Ana Toni
- COP30 se torna a “COP da Verdade” ao escancarar quem atua contra o clima
- A COP30 começa sem ter feito a sua lição de casa e com o planeta em chamas
- Por que a COP30 deveria abandonar os combustíveis fósseis? Artigo de Rosilena Lindo Riggs
- A contradição da COP30: o Sul Global pagará 238 bilhões de dólares em dívida em 2025 enquanto espera por financiamento