Trump não dissipa dúvidas sobre seu plano futuro para a Venezuela além do petróleo

Foto: Daniel Torok/White House | Flickr

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07 Janeiro 2026

O presidente dos EUA não esclareceu qual será o roteiro na Venezuela após a captura de Nicolás Maduro: o único prazo que fixou são 18 meses para que as petrolíferas americanas voltem a operar amplamente no país caribenho.

A informação é de Francesca Cicardi, Camilo Sánchez e Juan Gabriel García, publicada por El Diario, 06-01-2025.

Dias depois da agressão militar dos EUA contra a Venezuela e da captura ilegal de Nicolás Maduro, o presidente Donald Trump deu poucas pistas sobre qual é o seu plano para o futuro governo da Venezuela, além de repetir que os EUA estão no comando do país caribenho e interessados em explorar seu petróleo. De fato, nesta madrugada, ele colocou números nessa exploração. O presidente americano assegurou nesta terça-feira que a Venezuela está disposta a entregar-lhes de 30 a 50 milhões de barris que serão vendidos no mercado americano. Trump qualificou em uma publicação na Truth Social os milhões de barris como “petróleo de alta qualidade e autorizados nos Estados Unidos”.

No momento, ele descartou a celebração de eleições num prazo de 30 dias – tal como estabelece a legislação venezuelana – e mostrou-se aberto a trabalhar com a nova presidente Delcy Rodríguez, até agora vice-presidente de Maduro e que na segunda-feira prestou juramento perante o presidente da Assembleia Nacional, seu irmão Jorge Rodríguez.

“Primeiro temos que consertar o país. Não se podem realizar eleições. As pessoas nem sequer poderiam votar”, afirmou Trump em uma entrevista exclusiva com a rede NBC News. As declarações dos últimos dias deixam entrever que o mandatário não tem pressa depois de ter derrubado Maduro pela força, nem parece ter claros quais serão os próximos passos na Venezuela.

Trump sinalizou que vários de seus homens de confiança vão integrar a equipe que se encarregará da Venezuela, sem especificar quando nem como o fará. Entre os nomes que mencionou estão os de seu secretário de Estado, Marco Rubio, muito envolvido na 'nova doutrina Monroe' de Washington em relação à América Latina; e Pete Hegseth, secretário de Defesa e um dos ideólogos do cerco militar à Venezuela, que culminou com a captura de Maduro no dia 3.

Certamente, à frente da equipe estará o próprio Trump. Como no plano que desenhou para Gaza – que três meses depois ainda não foi aplicado totalmente, especificamente a parte relativa à governança e administração da Faixa – o presidente se vê como o líder absoluto e quem deve ter a última palavra sobre o destino de outros povos. Um deus na terra.

O presidente dos EUA não fechou a porta para trabalhar com Delcy Rodríguez e com o resto dos altos comandos do regime de Maduro que continuam no poder em Caracas. Em relação a essas autoridades, Trump declarou que tem a sensação de que estão cooperando, mas “precisam de ajuda”. Assim como Rodríguez: “Tenho a sensação de que ela ama seu país e quer que seu país sobreviva”.

Ao que parece, Trump teria optado por apoiar – pelo menos por enquanto – Rodríguez após uma avaliação da CIA e o aconselhamento de altos cargos de seu Governo, como Rubio, segundo revelaram meios de comunicação americanos. O jornal The Wall Street Journal indicou que uma avaliação recente de inteligência considerava que figuras-chave do chavismo estavam em uma melhor posição para liderar um governo provisório e manter a estabilidade a curto prazo na Venezuela, enquanto a oposição teria dificuldades para governar.

18 meses para chegar a explorar o petróleo

O único prazo temporal que Trump fixou para a Venezuela tem a ver com o petróleo, o recurso mais precioso do país caribenho e que o presidente americano deixou claro, desde o primeiro momento após a captura de Maduro, que vai controlar e explorar ao seu bel-prazer. O mandatário acredita que a indústria petrolífera americana poderia colocar em marcha operações na Venezuela em menos de 18 meses. “Acho que podemos fazê-lo em menos tempo, mas custará muito dinheiro”, acrescentou.

“As companhias petrolíferas gastarão uma quantia muito substancial de dinheiro”, admitiu Trump. “Mas elas se sairão muito bem. E o país se sairá bem”, acrescentou. Inclusive, sinalizou que o dinheiro que as companhias venham a gastar para iniciar suas operações na Venezuela poderia ser reembolsado por sua Administração.

No entanto, as grandes empresas petrolíferas dos EUA, por enquanto, evitaram se envolver no plano de Trump e estão à espera de ver como se desenrolam os acontecimentos na Venezuela, país do qual muitas saíram após as medidas adotadas por Hugo Chávez em 2007.

Trump disse à NBC News que “as companhias petrolíferas sabiam perfeitamente” que o Governo dos EUA estava “pensando em fazer algo”. Mas afirmou que não lhes disse que iam fazê-lo. Apesar dessas afirmações, o The Wall Street Journal revelou que o presidente avisou às petrolíferas que se aproximavam “grandes mudanças” na Venezuela. Trump enviou uma mensagem a um grupo de executivos do petróleo aproximadamente um mês antes da operação militar ilegal contra Maduro, dizendo-lhes simplesmente: “Preparem-se”. Embora não tenha fornecido então mais detalhes do que estava planejando, essa informação é superior à que ofereceu ao Comitê de Inteligência do Congresso.

“Sou membro do grupo dos oito e ainda não recebi nenhuma chamada de ninguém da Administração”, afirmava após o ataque Jim Himes, o principal democrata desse comitê. O reduzido grupo é formado pelos principais líderes do Congresso de ambos os partidos, que tradicionalmente são consultados sobre assuntos de segurança nacional.

“Literalmente mentiram na nossa cara”, dizia no domingo o senador Chris Murphy, em referência a uma sessão informativa sobre a Venezuela que Marco Rubio realizou no Senado no mês passado. “A mensagem que enviaram foi que isso não era sobre uma mudança de regime… Disseram que se tratava unicamente de uma operação antidrogas”.

Trump também não ofereceu então às companhias petrolíferas detalhes de quais planos tinha para elas na Venezuela nem lhes pediu conselhos sobre como alcançar seus objetivos: explorar o petróleo venezuelano e fazer o preço do bruto cair.

A Chevron é vista como a empresa que mais pode se beneficiar da campanha extrativista de Trump. O gigante energético é a única grande companhia americana que conseguiu continuar operando na Venezuela décadas após a nacionalização do petróleo, garantindo uma série de exceções de curto prazo perante as sanções americanas. Consultado pelo The Wall Street Journal, um porta-voz da companhia assegurou que continuam focados “na segurança e no bem-estar dos funcionários” e não quis especular sobre investimentos futuros. Nos mesmos termos se pronunciou a companhia em declarações ao The Guardian.

Outras duas petrolíferas americanas com o porte e a experiência em petróleo pesado necessárias para trabalhar na VenezuelaConocoPhillips e Exxon — não deram sinais de que desejam voltar a operar no país que expropriou seus ativos depois que rejeitaram as condições do Governo de Chávez há duas décadas. Da ConocoPhillips, declararam ao jornal econômico americano que é prematuro especular sobre novos investimentos, enquanto da Exxon mantiveram silêncio.

Possíveis cenários a médio e longo prazo

Diante da falta de um plano concreto por parte de Washington e seu interesse único em reviver a extração de petróleo – além da cifra de barris estimada por Trump que a Venezuela entregará aos EUA –, o analista da Universidade do Rosario (Bogotá), Ronal Rodríguez, apresenta ao elDiario.es vários possíveis cenários a médio e longo prazo.

O primeiro é um pacto no qual Washington permita ao regime manter-se no poder em troca de assumir o controle na reconstrução da infraestrutura e na exploração e venda de petróleo – potências como Rússia, China ou Turquia seriam afetadas. Rodríguez destaca que este cenário implicaria uma ruptura com o principal argumento para intervir em política externa que até agora os EUA tinham defendido, ou seja, o de promover a democracia no mundo.

Um segundo desfecho possível seria o Governo chavista ganhar tempo até a saída de Trump da Casa Branca em 2029. O também pesquisador e porta-voz do Observatório da Venezuela em Bogotá explica que, no segundo caso, o Governo venezuelano aceitaria um alto grau de obediência às políticas americanas. Ao mesmo tempo, teria uma agenda paralela para “manter o espírito bolivariano vivo”. Além disso, por baixo do pano, conservaria as relações com potências extracontinentais afins aos seus interesses. “Esta opção é muito provável – afirma – porque Delcy Rodríguez, a atual presidente, sabe se movimentar em função de seus interesses e do dogmatismo da revolução”.

O terceiro cenário gira em torno da possibilidade de o regime venezuelano não cumprir os requisitos de Trump. Trata-se de um panorama que obrigaria Washington a exercer pressão novamente para conseguir uma segunda mudança no poder e instalar no Palácio de Miraflores, a sede presidencial, um ator obediente e que deixe de ignorar seus planos. Para o especialista, é um cenário plausível.

Por último, Ronal Rodríguez não descarta que os EUA consigam dirigir a situação nos próximos três anos e impulsionem uma transição democrática na Venezuela. Até agora, no entanto, nem o presidente Trump nem seu secretário de Estado privilegiaram esse caminho em sua linha discursiva. O especialista assinala que uma das características da revolução bolivariana foi a erosão das instituições e da capacidade produtiva de um Estado que chegou a ser rico. “Se a Venezuela enfrenta uma emergência humanitária complexa e prolongada, é em boa medida porque a revolução bolivariana não mede suas capacidades reais. Toma decisões e desenha políticas que frequentemente desconhecem as necessidades políticas e econômicas. Não são lógicas do ponto de vista técnico nem social e respondem mais a interesses de poder e a princípios ideológicos”, sustenta o analista.

China, o petróleo e o preço do golpe ao direito internacional: as chaves econômicas do ataque dos EUA na Venezuela

Por isso, nos próximos anos a Administração Trump poderia optar por impulsionar uma normalização democrática. Ou pelo menos um governo com outros alicerces institucionais. Com regras claras e afastado da estrutura bolivariana. O objetivo seria criar as condições que o país precisa para atrair investimento estrangeiro e o desenvolvimento de seus recursos em hidrocarbonetos. “Lembremos que o petróleo venezuelano requer pelo menos uns 20 anos de investimento contínuo e trabalho sustentado”, conclui.

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