Lar de embrião do PL da devastação, PR abriga união do agro e Ratinho Júnior que desafia proteção ambiental no país.
A reportagem é de Amanda Audi, publicada por Agência Pública, 06-01-2026.
Não eram nem nove horas da manhã e o cheiro de carne assada já preenchia o galpão, enquanto música sertaneja estourava caixas de som. De dezenas de ônibus saltavam homens e mulheres vestindo camiseta branca, calça jeans e botas de vaqueiro. Eram representantes do que se entende como o “agro” do Brasil. Vindo de todos os cantos do Paraná, a maioria tinha passado a noite viajando, mas não se notavam sinais de cansaço. O clima era de festa.
Uma aglomeração se formou. Poderia ser em torno da dupla César Menotti e Fabiano, atração esperada para aquele dia mais tarde. Mas era Ratinho Junior (PSD), governador do estado e um dos cotados pela direita à corrida presidencial de 2026. Estamos em Curitiba, no Encontro de Líderes Rurais, promovido pela Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), que representa o agro no estado. Entre os palestrantes, nomes como os ex-ministros bolsonaristas Paulo Guedes e Sergio Moro faziam a plateia reagir com palmas após qualquer menção ao nome Bolsonaro ou com risos debochados durante piadas envolvendo o presidente Lula (PT), o que escancarava a preferência política que dominava o ambiente.
Fábio Bissi, vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Braganey (PR), município com pouco mais de 5 mil habitantes, participa do evento “há muitos anos”. Ele afirma que sempre teve um teor político, mas que se intensificou nos últimos anos. “É bom ver que tem pessoas nos defendendo”, diz. Era a primeira participação de Joselda Mendonça, que viajou num ônibus, com 15 pessoas de São Miguel do Iguaçu (PR), que foi pegando mais gente no caminho por quase 12 horas. “É importante para a gente aprender sobre a realidade”, comentou ela, que é ligada ao sindicato de seu município e se diz de direita, mas não mais bolsonarista “depois de tudo o que aconteceu”. “Bolsonaro, se tivesse perdido e ficado quieto, agora poderia se candidatar e ganhar”, opina.
Realizado todo fim de ano, o evento é esperado com ansiedade por mais de 4 mil participantes. São produtores ligados a sindicatos rurais locais que não escondem a felicidade por terem ganhado uma viagem com tudo pago: hospedagem em hotel, buffet com churrasco e muitos brindes. Paparicar políticos e ouvir discursos por horas em ano pré-eleitoral pode ser um preço baixo a se pagar para alguns. Não que alguém parecesse estar à contragosto.
O encontro costuma sintetizar as bases e as prioridades do agro para o ano seguinte. Funciona como laboratório para ideias que começam no Paraná e depois se expandem para o resto do país – como foi o caso do PL da Devastação, que flexibiliza o licenciamento ambiental. A legislação que passou a valer para todo o Brasil já estava implementada no Paraná desde 2024, e teve origem em eventos da Faep.
O agronegócio é o carro-chefe da economia paranaense, responsável por 36% do Produto Interno Bruto do estado. O setor deve fechar 2025 com o maior faturamento bruto de sua história: R$ 200 bilhões, segundo o Departamento de Economia Rural do governo estadual. “O Paraná é o supermercado do mundo” é uma das frases mais repetidas por Ratinho Júnior.
No palco, o governador anunciou uma nova grande bandeira de sua gestão: o lançamento do Programa de Certificação e Regularização dos Cadastros Ambientais Rurais do Paraná (CertiCAR), que promete “facilitar ainda mais a regularização ambiental no campo”. Em linhas gerais, tratam-se de ações para agilizar o processo do Cadastro Ambiental Rural (CAR), uma autodeclaração de proprietários rurais de que seus imóveis cumprem a legislação ambiental e mantêm a parcela exigida de vegetação nativa. Com o CAR, os produtores têm acesso facilitado a crédito rural, podem participar de programas governamentais de incentivo e ter benefícios fiscais.
Não é algo pequeno. O processo de regularização sempre foi lento. Nos últimos oito anos, menos de 4 mil das 540 mil propriedades rurais do estado, 0,72% do total, para ser exata, obtiveram a conformidade com a lei. Com a implementação do programa, 220 mil propriedades foram regularizadas em apenas seis meses – um salto para cerca de 40% do total, segundo o Instituto de Água e Terra (IAT), órgão que faz a análise no estado. A plateia vibrou como gol do Brasil em Copa do Mundo.
Um dos motivos para a celeridade foi a automatização do processo para propriedades de até quatro módulos fiscais. Assim, a validação é feita de modo automático pelo IAT, por meio de ferramentas de sensoriamento remoto e ajuda de uma consultoria terceirizada. O produtor rural deve apenas contestar informações em caso de erros.
Outro fator que desbloqueou os processos parados é mais perigoso, e que não ficou claro em nenhum dos comunicados do governo: a anistia de desmatadores da Mata Atlântica. O governo do Paraná obteve na Justiça autorização para utilizar critérios do Código Florestal para a análise do CAR, e não mais da Lei da Mata Atlântica, bioma que cobre cerca de 40% do estado.
Hectares desmatados entre os meses de outubro de 1985 e setembro de 2024
Fonte: SOS Mata Atlântica. Créditos: Agência Pública
A mudança permite que áreas rurais com atividades agrícolas existentes antes de 22 de julho de 2008 sejam consideradas consolidadas. Até então, o marco era 1990. Na prática, o governo perdoa o desmatamento ocorrido ao longo de 18 anos, justamente o período de maior destruição de mata nativa no estado: quase 300 mil hectares – o equivalente a duas vezes a cidade de São Paulo.
“Nós entramos na Justiça, que queria impor a Lei da Mata Atlântica no Paraná. Quase 40% da nossa área não poderia mais ser produtiva. Nós lutamos juridicamente e ganhamos na Justiça o direito de ter o Código Florestal Brasileiro como a lei que regula o estado do Paraná”, disse Ratinho Júnior em seu discurso no Encontro de Líderes Rurais da Faep, no último dia 5 de dezembro, antes de agradecer o apoio da entidade.
Segundo a diretora de políticas públicas da ONG SOS Mata Atlântica, Malu Ribeiro, a decisão funciona como um salvo-conduto para desmatadores. Ela afirma que as duas leis deveriam ser consideradas em conjunto. “Desde o início, a Lei da Mata Atlântica trabalha de forma integrada com o Código Florestal, embora seja mais protetiva. Mas o que os desmatadores querem fazer? Aplicar somente o Código Florestal de 2012, porque ele é menos restritivo, ele anistiou vários desmatamentos. O CAR não pode dispensar uma lei que está em vigor”, avalia.
Para ela, o perigo da iniciativa paranaense é que vire exemplo para os outros 16 estados com incidência de Mata Atlântica, que hoje tem pouco mais de 20% de sua cobertura original. “O risco é desencadear um efeito cascata em outros estados”, pontua.
Com a ação, Ratinho Junior se alinha a movimentos das principais entidades do agro – a Faep, no Paraná, e a Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária (CNA), em âmbito nacional – que defendem a regularização do CAR como uma das principais bandeiras para o setor nos próximos anos. Pedro Lupion e Sergio Souza, respectivamente o atual e o ex-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) na Câmara dos Deputados, não pouparam elogios à medida durante o encontro da Faep.
Esse também era um dos sonhos da gestão Bolsonaro. Em 2020, seu governo chegou a pedir autorização para consolidar o entendimento de que o Código Florestal deve prevalecer sobre a Lei da Mata Atlântica. Mas o Supremo Tribunal Federal (STF) negou. O ministro relator da questão, Luiz Fux, disse à época que, se aceitasse, “o STF estaria abrindo espaço para a rediscussão de toda nova interpretação sobre dispositivo já declarado constitucional.”
Iniciativas para acelerar o CAR também pipocaram em outros estados, fazendo com que as validações dos cadastros triplicassem em um ano, segundo pesquisa recente do Climate Policy Initiative com a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. O Paraná lidera o ranking.
O foco não é à toa. Além dos benefícios fiscais e de crédito, a regularização do CAR é entendida por especialistas como um “selo verde” para o produtor rural, que pode trazer facilidades para exportações em um contexto de crescentes preocupações ambientais, que podem se tornar ainda mais restritivas.
“Existia realmente uma demanda reprimida para que a validação do CAR fosse feita de forma mais rápida. Mas ela deveria ser bem feita”, afirma a professora de direito ambiental da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Katya Isaguirre-Torres, lembrando que uma forma de impedir situações irregulares seria a fiscalização, mas ela seria feita pelo próprio estado, que já deixou claro seu posicionamento. “Isso só tem como funcionar com um nível de controle muito elevado. Caso contrário, é mais fácil legalizar ilegalidades do que qualquer outra coisa.”
A batalha judicial foi cheia de idas e vindas. Em 2021, o Supremo Tribunal de Justiça (STJ) suspendeu uma liminar que obrigava o estado a aplicar o marco de 1990 de proteção da Mata Atlântica. Em agosto de 2024, a decisão foi revista e restabeleceu a validade da liminar que determinava a aplicação do regime da Mata Atlântica.
Paralelamente, a Justiça Federal do Paraná decidiu, em setembro de 2024, pela aplicação do regime legal da Mata Atlântica, mas a sentença foi suspensa em junho de 2025 pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, permitindo ao estado fazer as análises do CAR com base no Código Florestal, por entender haver “risco de grave lesão à ordem e à economia pública”.
Nenhum dos processos foi julgado em definitivo. Para o secretário de Controle dos Desmatamentos e Ordenamento Ambiental Territorial do Ministério do Meio Ambiente, André Lima, os CARs emitidos com base na liminar poderão ser considerados nulos posteriormente por decisões de instâncias superiores, o que deve elevar a instabilidade jurídica. “A decisão judicial pode ser revista pelo STF, o que causará um grande caos no sistema”, afirma.
Pouco antes das eleições de 2022, a Orquestra Sinfônica do Paraná deixou de lado, pela primeira vez em quatro décadas, o repertório clássico. No lugar, percorreu o interior do estado com um espetáculo apenas de clássicos do sertanejo, com músicas de Zezé di Camargo e Luciano, Chitãozinho e Xororó e Marília Mendonça.
A decisão em parte servia para agradar o governador Ratinho Júnior – a Orquestra é financiada pelo governo estadual – e em parte ajudava a sua campanha eleitoral, atraindo um público que dificilmente se interessaria por Mozart ou Bach. Seja como for, Ratinho se reelegeu naquele ano em primeiro turno, com 69,6% dos votos.
Quase quatro anos depois, e com um cenário ainda indefinido, o governador do Paraná figura no páreo como uma opção competitiva na corrida presidencial. Na última pesquisa Genial/Quaest, o paranaense tinha os mesmos percentuais de voto que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ambos pontuaram 35% no primeiro turno, contra 45% de Lula. Porém, a rejeição de Ratinho é menor que a de Tarcísio: 39% e 47%, respectivamente.
Um dos pontos a favor de Ratinho é justamente a sua relação umbilical com o agronegócio, cujo apoio é considerado essencial para candidaturas conservadoras. Mais que acumular medidas que agradam ao setor, ele próprio é um representante do agro. A família do governador paranaense tem negócios milionários no campo, além de mais de 70 emissoras de rádio e televisão espalhadas pelo país.
Ratinho Júnior, ou Carlos Roberto Massa Júnior, cresceu próximo do agronegócio. Seu pai, o popular apresentador Ratinho, do SBT, tem 19 fazendas, em que planta soja, milho e café e cria 50 mil cabeças de gado. A maioria fica no Paraná e no Acre – onde é considerado um dos maiores proprietários rurais do estado, com cerca de 200 mil hectares. Suas propriedades já foram palco de conflitos agrários com povos indígenas e posseiros. O governador é sócio do pai em pelo menos três fazendas.
Recentemente, Ratinho pai adquiriu cidadania paraguaia com o objetivo de expandir seus negócios rurais, visando condições fiscais mais atrativas. “No Paraguai, eu só fui comprar terra. Tem mais vantagens comprar terra no Paraguai do que no Brasil hoje”, disse o apresentador em outubro.
A família Massa é dona do Grupo Massa, que tem origem no Paraná e detém um conglomerado de emissoras de televisão e rádio em 10 estados. Também é dona de marcas de café (o “Café no Bule”, bordão do programa do SBT), marcas de tinta e de ração e empresas de hotelaria. O patrimônio do apresentador é estimado em R$ 530 milhões.
Ratinho Júnior começou cedo na vida política, aproveitando os holofotes. Aos 21 anos, teve a maior votação para deputado estadual do Paraná. Ainda antes dos 30, foi eleito para a Câmara Federal, onde se reelegeu duas vezes, sempre com votações expressivas. Foi eleito governador em 2018 e reeleito em 2022, sempre em primeiro turno. Só saiu derrotado uma vez, na disputa pela prefeitura de Curitiba, em 2012, quando perdeu para Gustavo Fruet (PDT) em segundo turno.
O governador sempre teve a sustentação do agronegócio por meio da Faep. Foi em uma assembleia da organização, ligada ao Sistema S, por englobar o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), que foi articulada a lei estadual que antecedeu o PL da Devastação. Sob o nome “Descomplica Rural”, a proposta de flexibilizar o licenciamento ambiental e permitir o autolicenciamento foi lançada em janeiro de 2020, muito antes da lei nacional.
“Além de trazer mais segurança jurídica aos produtores rurais, outro ponto que contribui para o desenvolvimento do programa é o fato de que o setor produtivo teve participação direta na elaboração do projeto”, como afirma reportagem de revista da própria Faep à época. “O governo irá fazer o favor de não atrapalhar os produtores”, afirmou Ágide Meneguette, então presidente do órgão, na publicação.
A Faep organizou quatro audiências públicas no interior do estado com cerca de 400 produtores rurais em cada para divulgar o Descomplica Rural. O político de carreira ligada ao agro e então secretário de Desenvolvimento Sustentável e Turismo do governo Ratinho Júnior, Márcio Nunes, que ganhou a fama de pai do programa, hoje é secretário de Agricultura e também um dos criadores do programa CertiCAR.
O envolvimento da Faep foi parecido no lançamento do CertiCAR. “O Sistema Faep participou ativamente da elaboração deste programa, assegurando um processo de avaliação dos cadastros mais ágil, transparente e seguro. A medida representa um avanço significativo na regularização ambiental, garantindo segurança jurídica, sustentabilidade e desenvolvimento aos nossos produtores rurais”, disse Ágide Eduardo Meneguette, que assumiu interinamente a presidência da Faep no lugar do pai.
Especialistas acreditam que o programa do CAR pode servir de exemplo e ser replicado em outros estados no futuro. “É um estado que tem se antecipado em políticas nocivas ao meio ambiente”, avalia o pesquisador de direito ambiental da UFPR, Gabriel Andrade. “Não sei se a mudança na avaliação do CAR faz parte de uma ação estratégica mais ampla, mas é evidente que o Paraná tem caminhado em retrocessos ambientais”, conclui.
A Pública procurou Ratinho Júnior e a Faep, mas não houve resposta até o momento. Em caso de manifestação, este espaço será atualizado.