06 Janeiro 2026
O negacionismo climático alimentado por interesses de uma economia imediatista pouco inteligente constitui perigo para a humanidade.
O artigo é de Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam), publicado por ((o))eco, 05-01-2026.
Eis o artigo.
O ataque de Donald Trump à Venezuela e a prisão de Nicolás Maduro geram múltiplas interpretações e efeitos, seja pelo intervencionismo político ou pelos interesses econômicos.
A história recente demonstra que esses fatos não representam algo novo. A prisão do ditador panamenho Manuel Noriega, a eliminação de Qassem Soleimani da Guarda Revolucionária Iraniana e o bombardeio das instalações subterrâneas no Irã são práticas que vêm se tornando comuns, contrárias aos preceitos do Direito Internacional e aos poderes do Congresso norte-americano.
Há ainda falta de coerência. Maduro foi aprisionado dois meses após Trump perdoar Juan Hernandez, ex-presidente e chefe do narcotráfico de Honduras, condenado a 45 anos por júri americano. O indulto de Trump gerou imediata ação junto à Interpol por procuradores de Honduras inconformados com a falta de justiça.
O non-sense das ações de Trump e os golpes contra a ordem internacional ferem a institucionalização praticada no mundo do multilateralismo e do Direito Internacional. Independentemente das razões históricas que não socorrem a Nícolas Maduro, o que aconteceu em Caracas abriu perigoso precedente, com o sequestro de um chefe de Estado, em uma nação soberana. O Le Monde concluiu em editorial que “aqueles que querem encontrar virtudes no martelo americano, enquanto negligenciam seus perigos, lamentarão amargamente sua complacência quando seus próprios interesses, por sua vez, e de forma igualmente arbitrária, forem reduzidos a pó”.
Sobretudo, é imprescindível compreender o que representam tais fatos para a estabilidade geopolítica global. A segurança e a paz são essenciais para se manter o foco nos acordos e financiamentos que visam a proteção da sociedade humana, dos ecossistemas e da biosfera, como esforços para conter o aquecimento global.
O efeito mais imediato do intervencionismo trumpiano é a insegurança, gerando estado de alerta e cautela, que leva as nações a se voltarem umbilicalmente para sua segurança, seja energética, econômica ou de defesa. Acordos multilaterais essenciais à salubridade planetária, como climáticos, passam imediatamente para segundo plano.
Também sinaliza corrida por petróleo para a obtenção de maior controle do mercado internacional e visando financiar maior crescimento econômico – não desenvolvimento limpo, tanto para a Venezuela como para setores produtivos norte-americanos. Estes se veem ameaçados pela produção de baixo custo energético da China, alimentada em parte por carvão, altamente poluente e cujo consumo aumentará ainda mais a partir do corte de suprimento de petróleo venezuelano.
O negacionismo climático alimentado por interesses de uma economia imediatista pouco inteligente constitui perigo para a humanidade. Mais grave ainda é protagonizar a corrida em direção aos fósseis. É acelerar rumo ao precipício.
Enfrentar a estultícia climática representará a necessidade de novos esforços. Será preciso muita inteligência e estratégia dos países mais progressistas para enfrentar esse período crucial do mandato de Donald Trump. Sob sua liderança, a maior potência econômica-militar do planeta deverá protagonizar mais ações antiambientais. Como se percebe, essas ações irão além das questões domésticas como o desmantelamento das próprias instituições científico-meteorológicas, como NOAA.
A rejeição às salvaguardas climáticas e aos dispositivos da ordem internacional ferem o conjunto de regras que foram construídas a partir das guerras mundiais que devastaram o século XX. O legado do multilateralismo global está sendo minado com a negação dos preceitos e conquistas humanitárias, da ONU e de seus braços supranacionais, em áreas como direitos humanos, Conselho de Segurança, organizações para regramento econômico como FMI e OMC; saúde, como a OMS; educação e cultura como Unesco; de ambiente e desenvolvimento, como Pnuma e Pnud; e de proteção à infância, como a Unicef.
Todos sabemos que estes mecanismos necessitam de aprimoramento, mas não há nada mais desastroso do que jogar a criança com a água suja do banho, como afirmou Scott Morrison, primeiro-ministro da Austrália, diante do anúncio da saída dos EUA da OMS.
A mera visão mercantilista passou a desconsiderar todo arcabouço institucional multissetorial que seja contrário aos imediatos interesses econômicos norte-americanos. Para piorar, Trump afirmou, em entrevista neste domingo, que “nós precisamos da Groelândia”, abrindo nova frente de instabilidade junto à Dinamarca, da qual a Groenlândia é Estado semiautônomo.
As estratégias adotadas pelo Make America Great Again representam mais que um projeto de poder. Revelam a fraqueza de um estado pré-falimentar, como que “abraço de afogado”, protagonizado pela gestão de Trump contra o inexorável avanço científico e social que vem nivelando, mais e mais, a consciência global. Para além da efêmera e pontual crise dólar-yuan que se iniciou no fim do século XX, há um processo civilizatório em curso que abrange valores éticos estruturantes para a humanidade.
O abandono do multilateralismo confere aos tempos atuais um desafio humanitário. Superar fases de incongruência e autoritarismo não são novidade na história global. A diferença é que a devastação causada pelo aquecimento global traz riscos ecossistêmicos intransponíveis – e as ações de Trump estão, de várias formas, trazendo múltiplos riscos para dentro de nosso quintal.
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