07 Janeiro 2026
“Precisamos de uma Cúria Romana cada vez mais missionária, onde as instituições, os gabinetes e as tarefas sejam concebidos para abordar os grandes desafios eclesiais, pastorais e sociais da atualidade, e não apenas para garantir a administração ordinária.”
A reportagem é de Jesús Bastante, publicada por Religión Digital, 22-12-2025.
Ele não é Francisco, mas por vezes Leão XIV exala a essência mais pura do pontífice argentino. Oito meses após a sua morte, Prevost prestou uma homenagem sincera ao Papa durante o seu discurso à Cúria, uma plataforma tradicionalmente usada por Bergoglio para abordar os problemas de uma Igreja demasiado enraizada na burocracia. Leão XIV repetiu a homenagem hoje, com palavras firmes e um gesto gentil, encorajando os funcionários da Cúria a promoverem “missão e comunhão”, lembrando-lhes que “as estruturas não devem dificultar ou travar o progresso do Evangelho nem impedir o dinamismo da evangelização”.
Após uma saudação inicial do Decano do Colégio Cardinalício, Giovanni Battista Re, que recordou os primeiros meses do pontificado de Prevost, o Papa quis "lembrar meu querido predecessor, o Papa Francisco" e seu "rico ensinamento", que "marcou o caminho da Igreja nestes anos, encorajando-nos, antes de tudo, a colocar a misericórdia de Deus de volta ao centro, a dar maior impulso à evangelização, a ser uma Igreja alegre e jovial, acolhedora para todos, atenta aos mais pobres".
Missão e comunhão
Baseando-se precisamente na Evangelii Gaudium de Bergoglio, Leão XIV elaborou sobre dois aspectos: “missão e comunhão”. Primeiro, o Papa enfatizou que “a Igreja é, por natureza, extrovertida, aberta ao mundo, missionária” e “existe para convidar, chamar e reunir para o banquete festivo que o Senhor prepara para nós, para que cada um se descubra como um filho amado, um irmão ou irmã do seu próximo, um novo homem à imagem de Cristo e, portanto, uma testemunha da verdade, da justiça e da paz”.
“Todos somos chamados a esta nova missão”, declarou Prevost, alertando a Cúria, como Francisco já fez em tantas ocasiões, que “as estruturas não devem dificultar ou interromper o progresso do Evangelho nem impedir o dinamismo da evangelização”. Portanto, “todos somos chamados a participar da missão de Cristo”.
“Precisamos de uma Cúria Romana cada vez mais missionária, onde as instituições, os gabinetes e as tarefas sejam concebidos para abordar os grandes desafios eclesiais, pastorais e sociais da atualidade, e não apenas para garantir a administração ordinária”, insistiu ele.
O Papa também abordou a importância da “comunhão”. “O Natal nos lembra que Jesus veio revelar-nos a verdadeira face de Deus como Pai, para que todos pudéssemos ser seus filhos e, portanto, irmãos e irmãs uns dos outros”, recordou o pontífice, insistindo que a Igreja “deve ser um sinal de uma nova humanidade, não fundada na lógica do egoísmo e do individualismo, mas no amor mútuo e na solidariedade recíproca”.
Os fantasmas da divisão
“Esta é uma tarefa mais urgente do que nunca, tanto interna quanto externamente”, argumentou ele. Internamente, porque “às vezes, por trás de uma aparente tranquilidade, os fantasmas da divisão se agitam”, o que “nos leva à tentação de oscilar entre dois extremos opostos: padronizar tudo sem valorizar as diferenças ou, ao contrário, exacerbar as diversidades e os pontos de vista em vez de buscar a comunhão”.
“Assim, nas relações interpessoais, na dinâmica interna dos cargos e funções, ou ao lidar com questões relacionadas à fé, liturgia, moral e outras, corre-se o risco de cair na rigidez e na ideologia, com as contradições que isso implica”, enfatizou Leão XIV.
Uma Igreja sinodal
Em contraste, há o "todos, todos, todos" de Francisco, "embora sejam muitos e diferentes". "Somos também chamados, e especialmente aqui na Cúria, a ser construtores da comunhão de Cristo, o que exige que nos configuremos como uma Igreja sinodal, onde todos colaboram e cooperam na mesma missão, cada um segundo o seu carisma e o papel que recebeu. Mas isto se constrói, mais do que com palavras e documentos, através de gestos e atitudes concretas que devem ser manifestadas na vida diária, inclusive no local de trabalho."
Assim, Prevost admitiu a “amargura” que “às vezes se instala entre nós quando, talvez depois de muitos anos a serviço da Cúria, notamos com decepção que algumas dinâmicas ligadas ao exercício do poder, o desejo de se destacar, a preocupação com os próprios interesses, são difíceis de mudar”.
“E é preciso perguntar: é possível ser amigo na Cúria Romana, ter relações fraternas e amistosas?”, enfatizou. “Há uma conversão pessoal que devemos desejar e buscar, para que o amor de Cristo, que nos torna irmãos e irmãs, transpareça em nossos relacionamentos”, insistiu.
Fraternidade universal
E, olhando para o exterior, “num mundo ferido pela discórdia, violência e conflito, no qual também vemos um aumento da agressão e da raiva, frequentemente exploradas pelo mundo digital e pela política”. Neste ponto, o Papa insistiu que “não somos pequenos jardineiros cuidando do nosso próprio jardim, mas sim discípulos e testemunhas do Reino de Deus, chamados a ser em Cristo fermento de fraternidade universal, entre diferentes povos, diferentes religiões, entre mulheres e homens de todas as línguas e culturas”.
“Queridos irmãos e irmãs, a missão e a comunhão são possíveis se colocarmos Cristo no centro”, concluiu o Papa, recordando como o Ano Santo trouxe eventos como o Concílio de Niceia e o Vaticano II, que fortaleceram a Igreja “e a impulsionaram a ir ao encontro do mundo, a ouvir as alegrias e esperanças, as tristezas e ansiedades das pessoas de hoje”.
“Lembremo-nos também disto no nosso serviço na Cúria: o trabalho de cada um é importante para o todo, e o testemunho de uma vida cristã, que se expressa na comunhão, é o primeiro e maior serviço que podemos oferecer”, concluiu o pontífice, antes de desejar à Cúria um Feliz Natal.
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