06 Janeiro 2026
O escritório onde trabalhava ficava no alto, bem embaixo do telhado, na antiga casa paroquial suábia onde morava. Isso significava ter que subir vários lances de escada todos os dias. Até a velhice, manteve-se em forma fazendo exercícios e até pulando corda. Peter Hünermann nunca se esquivou da necessidade de se esforçar; e trabalhou até suas últimas semanas. Ele foi um dos "grandes anciãos" da teologia católica. Agora, Peter Hünermann, com quase 97 anos, faleceu, deixando para trás o fruto de uma imensa obra de vida.
A reportagem é publicada por Publik Forum e reproduzida por Settimana News, 02-01-2026.
Nos últimos tempos, Hünermann, como dogmático e pesquisador do Concílio, esteve imerso em um projeto monumental: em contato com mais de uma centena de outros teólogos ao redor do mundo, ele desenvolvia e coordenava "Ereignis und Auftrag" (Evento e Tarefa) — um dos doze volumes da planejada história do Concílio Vaticano II. De fato, tratava-se da primeira história abrangente da Igreja Católica escrita em nível intercontinental no século XX.
Nos processos conciliares ou sinodais participativos, Hünermann sempre enxergou uma forma de organização/direção da Igreja muito mais em conformidade com o Evangelho do que o centralismo romano ou a concepção dogmática imposta autoritariamente, que ele considerava características dos mais de trinta anos do Papa João Paulo II e de Joseph Ratzinger/Bento XVI.
Francisco, que destravou a situação e quis reorganizar a Igreja segundo linhas sinodais, era o seu papa! Hünermann já o conhecia de suas viagens pela América Latina, de seus encontros com a teologia da libertação e da compreensão compartilhada das novas formas de ser-Igreja que se tornavam possíveis justamente nas comunidades de base. Ele o apreciava e amava muito, mas isso não o impediu de escrever uma carta aberta ao Papa Francisco, instando-o a se empenhar mais e a tomar medidas mais decisivas.
Em sua visão, a Igreja deve confrontar abertamente o "pecado estrutural" de seu "problema de abuso" e tomá-lo como um ponto de partida concreto para buscar vigorosamente o aprofundamento sinodal. Para Hünermann, que nunca se deixou silenciar, isso é um pré-requisito também para o futuro.
Somente Joseph Ratzinger poderia ter chegado à conclusão de que Peter Hünermann, sacerdote e professor de dogmática em Münster (1971-1982) e depois em Tübingen até se tornar emérito em 1997, tinha algo contra a Igreja e o papado. Quando, em 2018, o Vaticano pediu ao então Papa emérito Bento XVI que escrevesse um prefácio para uma pequena série teológica sobre a teologia de seu sucessor, Francisco, Ratzinger recusou, argumentando que Hünermann também era um dos autores.
Segundo Ratzinger, esse homem havia liderado iniciativas maliciosas contra o Papa e o Magistério durante seu pontificado, porque Hünermann, assim como muitos outros teólogos reformistas, havia assinado a "Declaração de Colônia por uma Catolicidade Aberta contra uma Catolicidade Tutelar". Isso aconteceu em 1988! Mas Ratzinger ainda jogava essa acusação na cara de Hünermann vinte anos depois.
Talvez também porque Hünermann foi um dos primeiros grandes teólogos a se manifestar publicamente e com muita clareza a favor da ordenação de mulheres como diaconisas. Ele rejeitou contra-argumentos extraídos da história do dogma e da Igreja; ele conhecia o assunto melhor do que muitos hierarcas do Vaticano, que se baseavam na negação pura e simples e — a seu próprio critério — descartavam levianamente até mesmo as conclusões de comissões de estudo.
A avaliação de Hünermann sobre os métodos de trabalho do Vaticano foi ao mesmo tempo lacônica e reveladora: "A maioria dos membros da comissão não tinha ideia dos resultados da pesquisa histórica; nem mesmo o cardeal italiano e presidente da comissão sabia de nada." Então surgiu um único clérigo "que afirmou que tal consagração estava fora de questão." Esse padre contrariou as regras da comissão — segundo as quais um homem e uma mulher deveriam discutir questões individuais de cada vez — e o presidente concordou com ele. "E ele disse: se não for possível, devemos simplesmente escrever assim."
O que a Igreja estabeleceu e rejeitou como magistério ao longo de seus dois mil anos de história, Peter Hünermann, por meio de décadas de trabalho, compilou, distinguiu, reorganizou e — pela primeira vez — traduziu do latim para o alemão, uma língua mais acessível: o "Kompendium der Glaubensbekenntnisse und kirchlichen Lehrentscheidungen" (Compêndio das Profissões de Fé e Decisões Doutrinárias da Igreja) é a principal obra de referência mundial. "O Denzinger" era o nome de seu primeiro autor; posteriormente, em círculos específicos, ao longo das muitas edições, passou a ser chamado de "Denzinger-Hünermann" (a tradução italiana da obra foi editada e publicada pela Edizioni Dehoniane Bologna e ainda consta no catálogo).
Há apenas quatro semanas, Hünermann deixou a redação e a entregou ao teólogo dogmático Michael Seewald, de Münster. Foi uma transição significativa entre duas gerações de teólogos, considerando as faixas etárias: o dogmático alemão mais velho passou o bastão para o mais jovem.
Apesar de seu trabalho silencioso e incessante com textos e documentos, Hünermann não era um acadêmico fechado ou distante. Ele se dedicava a incentivar novos pesquisadores e foi presidente do KAAD (Serviço Acadêmico Católico no Exterior), que apoia (com bolsas de estudo) jovens acadêmicos talentosos em todo o mundo.
Hünermann viajou muito e valorizava a cooperação e os relacionamentos. Seus olhos sempre permaneceram vivos e brilhantes, expressando uma alegria que era ao mesmo tempo humilde e cativante. Ele tinha senso de humor. Sabia não apenas sorrir, mas também dar boas gargalhadas. Faleceu no quarto domingo do Advento em um lar de idosos perto de Ludwigsburg.
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