05 Janeiro 2026
O pior é que Trump abriu a caixa de Pandora. Ficou claro que as Nações Unidas não significam nada para ele, mas para muitas nações representam o direito internacional, o respeito aos direitos humanos e a garantia da ordem nas relações diplomáticas entre os países.
O artigo é de José Luis Ferrando, teólogo, filósofo e escritor espanhol, publicado por Religión Digital, 04-01-2026.
Eis o artigo.
Desde o início, considero o regime de Maduro na Venezuela absolutamente intolerável sob todos os pontos de vista, mas isso de forma alguma justifica a intervenção militar de Trump. É inaceitável que a Rússia ataque a Ucrânia por diversos interesses estratégicos e territoriais. Mas é igualmente inaceitável que os Estados Unidos iniciem um período de violência contra um país soberano acusando seu presidente de ser um narcotraficante, o que ele provavelmente é, mas me pergunto se isso vai parar por aí, porque há muitos deles na região… A legitimidade do regime é uma questão interna, não algo decidido por um “policial” que o derruba violentamente. A narrativa que Trump venderá aos seus cidadãos e ao mundo é que a intervenção foi tecnicamente impecável, “brutamontes”, limpa e cirúrgica.
No entanto, o pior é que Trump abriu uma caixa de Pandora. Ficou claro que as Nações Unidas não significam nada para ele, mas para muitas nações representam o direito internacional, o respeito aos direitos humanos e a garantia da ordem nas relações diplomáticas entre os países. Após o fiasco das tarifas que abalou a Organização Mundial do Comércio, ele agora culminou sua audácia ao expor a ONU. Em resumo, ele está agindo não como um xerife, mas como um fora da lei que faz o que bem entende, e seu país, responsável por sua eleição, é impotente para impedi-lo. Até onde ele irá? O Canal do Panamá, a Groenlândia, Gaza… e tudo o mais que ele desejar ainda está pendente, contanto que ninguém o impeça.
No âmbito da geopolítica, entramos no Velho Oeste. Parece que Trump adora esse tipo de filme. De qualquer forma, não nos esqueçamos de que Maduro era aliado de Putin: como ele reagirá a essa afronta? Será possível que abandone seu aliado, que provavelmente possui muitas informações perigosas? Poderia retaliar abandonando as negociações com a Ucrânia e concluindo sua conquista de todo o território? Putin se sentiria encorajado a tomar outros territórios europeus? O romance entre Putin e Trump chegará ao fim? E será este o momento para Xi Jinping tomar Taiwan? Quem o impedirá? Qualquer país do mundo com capacidade militar poderia, após o golpe de Trump, ser tentado a conquistar seu vizinho sem hesitar. Tudo dependerá do apoio que receber dos Estados Unidos, da Rússia ou da China. Quando a negociação e a diplomacia desaparecem, entramos no reino da barbárie.
E, embora esperemos que uma fase de transição se inicie na Venezuela, de preferência não violenta, não nos esqueçamos de que o regime estará presente e que o comparecimento de Maduro perante os tribunais americanos não agradará a muitas pessoas na Venezuela.
É verdade que Trump não tem ambições territoriais diretas como Putin ou Xi Jinping, mas aspira a controlar um Estado rico em petróleo e minerais. Enquanto isso, a insignificância da Europa é gritante. Não existe sequer um acordo básico. Neste momento, a Europa, berço da racionalidade humana, não tem qualquer autoridade no cenário mundial; muito pelo contrário.
E é inegável que cabe à Igreja condenar abertamente a violência nas relações internacionais. Provavelmente, neste momento, ela é a única autoridade moral confiável, embora deva agir com cautela, visto que os poderosos veículos de comunicação a serviço do trumpismo podem distorcer a narrativa. E, certamente, a Igreja venezuelana deve estar à altura da situação nessas circunstâncias tão complexas, tanto agora quanto no futuro.
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