28 Novembro 2025
Após cinco anos de luta para ser recebida em audiência por autoridades do Vaticano, a jornalista e escritora gaúcha Iara Lemos terá uma reunião nesta quinta-feira (27) com o secretário do Dicastério para Cultura, Educação e Comunicação do pontificado de Leão XIV, monsenhor Paul Tighe. Autora do livro “A Cruz Haitiana – Como a Igreja Católica Usou seu Poder para Esconder Religiosos Pedófilos no Haiti”, ela finalmente poderá dialogar sobre sua investigação, que revelou um sistema de deslocamento e ocultação de religiosos envolvidos em abusos contra crianças e adolescentes em situação de extrema vulnerabilidade no Haiti.
A entrevista é de Adriana Moysés, publicada por Rfi, 27-11-2025.
A brasileira tem divulgado em capitais europeias a recém-lançada tradução da obra para o francês (La Croix Haitienne, editora In-Finita) e seu novo livro, "O Silêncio das Gaiolas" (Mizuno), um ensaio feminista profundo e visceral, que denuncia as diversas formas de violência contra mulheres – desde tentativa de feminicídio a violência patrimonial, familiar e religiosa. Ela analisa como a estrutura patriarcal sufoca o feminino no Brasil e no mundo.
Durante uma pausa na tarde de quarta-feira, em Roma, ela falou à RFI.
Eis a entrevista.
Como você avalia o impacto do seu trabalho?
Olha, é uma longa caminhada. "A Cruz Haitiana" já faz cinco anos, todo mês mandando e-mail para o Vaticano. Quanto a "O Silêncio das Gaiolas", que ficou pronto no início desse ano, a editora Mizuno, de São Paulo, começou as divulgações em agosto na pré-venda. Em setembro, nós começamos a turnê de lançamento: nós fizemos Porto Alegre, São Paulo, Brasília, Recife. Era para ele estar no Salão do Livro em Paris, mas houve uma divergência entre a minha ex-editora com a atual. O livro acabou não chegando, mas nós fizemos um café com escritores e com amigos em Paris para poder conversar sobre ele.
Em Paris, eu estive na Embaixada do Brasil, que foi muito receptiva, sobretudo pelo trabalho que eu desenvolvo nessa linha de direitos humanos em defesa de mulheres e crianças, no combate à violência. Eu estou fazendo um financiamento via um banco europeu para a construção de um aplicativo que vai auxiliar mulheres em situação de vulnerabilidade social em Portugal. Devemos estender esse projeto ainda no ano que vem para a Espanha e, se tudo der certo, para a França e também aqui na Itália, porque as reuniões aqui também versaram sobre isso e as perspectivas são bem positivas.
Como você lidou com a resistência do Vaticano em responder às suas mensagens?
Essa resistência era até esperada. Eu digo que, hoje, já há uma aceitação maior. Quando a Igreja, ainda nas pesquisas, permitiu que eu tivesse um acesso curto e temporário aos arquivos do Vaticano para que eu pudesse investigar os religiosos que eu trato no livro, eu já considero que foi uma resposta positiva. Na sequência, teve o julgamento do Douglas Perlitz, que é um religioso que eu acompanhei nos Estados Unidos, responsável pela violação de 111 crianças haitianas. Ele foi julgado e condenado nos Estados Unidos.
Depois do julgamento dele, a Igreja Católica pagou, pela primeira vez na história, uma indenização para vítimas de pedofilia em solo haitiano, no valor de US$ 60 milhões. Então, essas duas respostas, ainda que não tenham sido uma resposta direta ao trabalho, vêm ao encontro do que nós buscamos, seja eu como pesquisadora e jornalista nessa área, seja quanto às vítimas. A Igreja mostra que está fazendo um movimento de mudança.
Nós demoramos quase 40 anos para que houvesse uma pequena alteração no código canônico. Desde o ano retrasado, ele determina que quando um religioso ficar sabendo de uma denúncia ou identificar alguma suspeita, ele já tem que comunicar ao clérigo para que eles possam tomar as providências de afastamento temporário desse religioso, e outras questões de investigações internas. Então são resistências que já estão sendo amenizadas. Ao longo desses anos, eu consegui muitos apoios de cardeais que me receberam: o cardeal em Coimbra, cardeais no Brasil, que foram fundamentais para que hoje eu estivesse aqui no Vaticano. Eu sei que, como pesquisadora, a dor de uma pessoa violada nunca vai ser apagada.
"A Cruz Haitiana: Como a Igreja Católica usou de seu poder para esconder religiosos pedófilos no Haiti", de Iara Lemos (Tagore Editora, 2020).
Quais são suas expectativas em relação ao encontro com o secretário do Dicastério para Cultura, Educação e Comunicação do Vaticano?
A expectativa é de que a Igreja vá trabalhar para uma formação melhor dos religiosos. Que eles tenham uma educação sexual que é algo que também temos que ter nas escolas. Uma criança que é educada nesse sentido é uma criança que sabe se proteger. Isso não é sexualização antecipada, não é esse o caso, mas é uma questão de proteção. Então, se nós tivermos esse ensinamento na formação religiosa dos clérigos, teremos talvez menos casos [de violência]. Assim como se nós tivermos esse tipo de formação dentro das escolas católicas, as crianças vão saber se proteger de uma forma melhor.
O que aconteceu na França também serviu de exemplo para a comissão independente que trabalhou em Portugal. São os dois únicos países que desenvolveram comissões independentes, com o apoio da Igreja Católica, para investigar casos de pedofilia que estavam relacionados à Igreja, a escolas comandadas por religiosos. É algo que mexe com a memória. São vítimas de 40, 50 anos atrás, e que talvez os abusadores delas já tenham morrido e a punição não vai acontecer.
No caso da de Portugal, que eu acompanhei de perto, a comissão independente tem todos os relatos. Dezenas de religiosos já morreram; outros nem se sabia onde eles estavam, por conta desse sistema de colocação e recolocação na Igreja Católica, do mesmo jeito que aconteceu na França e no Haiti.
O núncio do Haiti e da República Dominicana foi preso por pedofilia. Ele dava detalhes para o padre, que era o namorado dele, de como ele queria as crianças, qual era o tamanho, a altura dos meninos, como é que ele queria que os lábios desses meninos fossem, e o padre ia para as ruas do Haiti e escolhia aquelas crianças. E sabe como que eles levavam para o núncio? Como passeio escolar no fim de semana. As crianças iam para a casa do núncio, que é a casa da Igreja Católica no Haiti, para serem violadas.
Você se sente recompensada pelos avanços que o seu trabalho permitiu, de alguma forma, alcançar, mesmo diante de tanto sofrimento das vítimas?
Eu acho que me recompensa, não pessoalmente falando, porque não é esse o caso. Mas me recompensa saber que alguma criança que estiver hoje dentro de um espaço religioso desses, ela vai estar sendo alertada, seja por uma educação que ela tenha, ou por um familiar dela que aprendeu a ficar um pouco mais alerta.
Me recompensa saber que eu posso estar ajudando para que isso não venha a se repetir. Se numa centena de crianças, eu consegui auxiliar na proteção de uma delas, eu creio que a minha recompensa está aí. É poder saber que estou fazendo algo para auxiliar crianças dessas novas gerações para que elas possam se proteger, para que elas não sejam as próximas vítimas.
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