A Moreneta brasileira: escultura doada por João Goulart a Paulo VI tornou-se presença constante nas celebrações pontifícias

Momento da entrega da escultura de Montserrat por João Goulart a um cardeal da Cúria. Roma, julho de 1963 | Foto: Arquivo pessoal João Goulart, CPDOC / Fundação Getúlio Vargas

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06 Setembro 2025

Uma relíquia da arte sacra brasileira, pouco conhecida no Brasil e na Catalunha, tornou-se peça central das liturgias papais no Vaticano. Trata-se de uma escultura de madeira de Nossa Senhora de Montserrat, do século XVIII, esculpida no Brasil e doada em 1963 pelo presidente João Goulart ao Paulo VI, por ocasião de sua entronização.

A reportagem é de Paolo Ondarza, publicada por CNBB, 02-09-2025.

A peça foi entregue pessoalmente por Goulart a membros da Cúria Romana, durante um almoço na embaixada brasileira junto à Santa , em julho de 1963. Desde então, a imagem integra o acervo do Vaticano, sob a responsabilidade do Ofício das Celebrações Litúrgicas Pontifícias.

Da antessala ao altar de São Pedro

Paulo VI, grande apreciador de esculturas em madeira, mandou colocar a imagem na antessala pontifícia. Já em 2011, Bento XVI determinou que ela acompanhasse regularmente as principais celebrações na Basílica Vaticana e na Praça São Pedro. Assim, a Virgem brasileira de Montserrat esteve presente inclusive na missa inaugural do pontificado do Papa Francisco, em 2013.

A estátua na época em que estava nos aposentos pontifícios (Foto: Arquivos/CNBB).

A diferença da cor

A “Moreneta” original, padroeira da Catalunha, é conhecida pela pele escura. Mas o exemplar brasileiro possui pele clara, uma peculiaridade que surpreende muitos fiéis. A explicação está na história da devoção: quando a tradição mariana de Montserrat chegou ao Brasil, no fim do século XVI, a imagem espanhola ainda era representada com rosto claro. Somente a partir do século XVII, com o acúmulo de fuligem das velas no santuário catalão, a imagem foi escurecendo lentamente, consolidando-se como “Virgem Negra”.

Por isso, nas igrejas brasileiras dedicadas a Nossa Senhora de Montserrat – cuja devoção foi incentivada pelo governador-geral Francisco de Sousa (1591-1602) -, a Virgem costuma ser retratada como branca.

Arte e conservação

A escultura do Vaticano é ricamente ornamentada com a técnica do “estofado de ouro”, que combina preparação em gesso e cola, folha dourada e pintura em têmpera. O manto apresenta decoração floral, originalmente em tons de verde-esmeralda com reflexos dourados. Nos braços, Maria segura o Menino Jesus, que abençoa com a mão direita e sustenta um globo com a esquerda.

Desde 2011, a peça recebe manutenção periódica nos Museus Vaticanos, sob os cuidados da restauradora Stefania Colesanti. Além de técnicas tradicionais, foram utilizados métodos sustentáveis, como o uso da planta marinha posidonia para reintegração da madeira.

Um elo entre Brasil, Catalunha e Vaticano

Apesar de sua origem pouco conhecida, a imagem ocupa um espaço único na vida litúrgica da Igreja universal. Ela simboliza o encontro de culturas e a devoção a Maria além-fronteiras: uma “Morenetabrasileira, com pele clara, presente no coração da cristandade, como testemunho do laço histórico entre o Brasil, a Catalunha e a Sé de Pedro.

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