29 Agosto 2025
O partido Aliança dos Ecologistas do Senegal (ADES) teme não conseguir participar da Conferência da ONU sobre as Mudanças Climáticas em Belém (COP30), de 10 a 21 de novembro, devido aos preços "abusivos" que estão sendo cobrados por hotéis e proprietários de imóveis de aluguel turístico na capital do Pará. Em visita a Paris, o vice-presidente do ADES, Serigne Ababacar Cissé Ba, fez duras críticas a essa situação, em entrevista à RFI.
A reportagem é de Adriana Moysés, publicada por RFI, 28-08-2025.
"Os preços dos alojamentos estão absurdos. Os partidos verdes no mundo, em geral, não têm recursos. Estamos tendo que limpar todo o dinheiro da conta bancária para comprar a passagem. Imagine uma noitada a mais de US$ 1.000,00 ou € 1.000,00 – isso é inacessível", protestou o líder ecologista senegalês.
Serigne conhece bem o Brasil, pois foi professor de administração na Universidade Federal de Catalão, em Goiás, e morou no interior de São Paulo e Minas Gerais. Ao todo, passou 25 anos no país. Ele contou que a aliança ecologista africana está negociando com colegas de universidades para saber se podem acolher a delegação africana em suas casas.
"Nós estamos vendo que até países europeus estão sentindo o absurdo dos preços dos alojamentos para a COP. Acho que é uma coisa que ainda dá para se repensar, se realmente vai ser um evento excludente, que vai excluir os países e os partidos que têm interesse em estar lá, mas as condições financeiras não vão permitir", afirmou Serigne.
Na avaliação do ambientalista, se nada for feito para reverter os preços das habitações, a COP30 pode ser um "fracasso".
"Pode ser um fiasco se as pessoas não conseguirem ir ao Brasil – o que vai ser lamentável. Acho que o presidente [Lula] deve pensar nisso: se ele chamou as pessoas, então deve oferecer condições acessíveis para que possamos participar desse evento, que é nosso também", disse Serigne.
Reforma do Conselho de Segurança da ONU
A convite do partido ecologista francês (Europe Ecologie Les Verts – EELV), a delegação senegalesa, liderada pelo presidente da ADES, Baye Salla Mar, participou nos últimos dias de intensos debates sobre o multilateralismo e a necessidade de colaboração entre países para enfrentar os desafios ambientais globais. Eles querem "trazer a voz da África para o centro das discussões internacionais", especialmente no que diz respeito à reforma das Nações Unidas.
Serigne destaca que os países africanos, como o Senegal, enfrentam diretamente os impactos das mudanças climáticas, como inundações e eventos extremos que afetam a vida cotidiana da população. A falta de infraestrutura, como saneamento básico, agrava ainda mais esses problemas, levando ao deslocamento forçado de comunidades inteiras. Ele alerta que, sem uma preocupação real com o meio ambiente, os investimentos em desenvolvimento acabam sendo redirecionados para lidar com catástrofes ambientais.
Diante desse cenário, o partido verde africano, fundado em 2021, defende uma reforma urgente da ONU, com maior integração de países no Conselho de Segurança e o cumprimento efetivo dos acordos firmados em eventos internacionais. Serigne critica a recorrente falta de concretização das promessas de financiamento feitas nesses encontros, o que exige uma nova postura dos países desenvolvidos: mais abertura, mais compromisso e mais solidariedade.
Cooperação Sul-Sul
Além disso, a ADES acredita na força da cooperação Sul-Sul, principalmente entre países que enfrentam desafios semelhantes. Essa união pode fortalecer a representatividade e a capacidade de ação dessas nações. Durante a visita à RFI, os líderes da sigla enfatizaram a importância de políticas voltadas para a adaptação climática, visando garantir a sobrevivência e a resiliência das populações mais vulneráveis. Afinal, a crise ambiental está diretamente ligada ao aumento das migrações clandestinas, impulsionadas pela falta de condições dignas de vida.
Por fim, defenderam uma abordagem mais humanista, que coloque o ser humano no centro das decisões políticas e ambientais. "Somente com consciência global, solidariedade e ação conjunta será possível enfrentar os desafios climáticos e construir um futuro mais justo e sustentável para todos", concluiu Serigne.
Ouça a entrevista na íntegra aqui.
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