29 Agosto 2025
"O mesmo grupo de Estados — Estados Unidos, Reino Unido e muitas nações europeias — que impôs zonas de exclusão aérea e duras sanções econômicas no Iraque e na Líbia para a proteção dos civis, e que protestou com força e tomou medidas contra as violações do direito internacional pela Rússia na invasão da Ucrânia, não sancionou de nenhuma forma concreta esses crimes de guerra bem documentados, continuando, aliás, a fornecer e apoiar Israel, exceto por expressar ocasionalmente desconforto diante dos crimes de guerra mais flagrantes", escreve Meera Sabaratnam, docente de relações internacionais na Universidade de Oxford, em artigo publicado por il manifesto, 28-08-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Segundo ela, "uma orientação pós-colonial é indispensável para compreender em profundidade como e por que tais esquemas de violência continuam a se reproduzir na atual ordem internacional. Gostaria muito que não fosse assim".
Eis o artigo.
Longe de ser um anacronismo, uma sensibilidade pós-colonial é indispensável para compreender os fundamentos estruturais e a expressão violenta do que está acontecendo na Palestina e em Israel. Há três dinâmicas relevantes a serem examinadas. A central é que Israel se configurou como um projeto colonial de assentamento que não pode ser realizado, porque não tem condições de exterminar nem assimilar, expulsar ou subjugar permanentemente a população nativa que vive dentro das fronteiras por ele autoproclamadas. Essa é a estrutura fundamental dentro da qual esses repetidos episódios de violência ocorrem.
Isso apesar de uma longa ocupação militar, encarceramento em massa e implementação de políticas equivalentes ao apartheid, da excepcional militarização e securitização do Estado e da sociedade, dos amplos esforços diplomáticos e políticos para deslegitimar qualquer objeção, e assim por diante. Nesse sentido, os atuais níveis de violência não podem ser resolvidos nem por meio de uma impiedosa vitória militar em um Estado unitário, como aconteceu no Sri Lanka, nem por meio de uma partição, como aconteceu na Bósnia, nem por uma democracia multiétnica como a da África do Sul. Todas as soluções políticas realistas são de fato impedidas, enquanto o sonho colonial eliminacionista continua a ser perseguido com violência.
Essa primeira e central dinâmica colonial interna ao território é possibilitada por uma segunda estrutura imperial, inscrita na ordem internacional. Nesse caso, específicos Estados de grande poder designam regiões distantes como centrais para seus interesses e se arrogam o direito de organizá-las de acordo, ignorando seletivamente outras normas e regras políticas que, ao contrário, para si mesmos tratariam de proteger. O mesmo grupo de Estados — Estados Unidos, Reino Unido e muitas nações europeias — que impôs zonas de exclusão aérea e duras sanções econômicas no Iraque e na Líbia para a proteção dos civis, e que protestou com força e tomou medidas contra as violações do direito internacional pela Rússia na invasão da Ucrânia, não sancionou de nenhuma forma concreta esses crimes de guerra bem documentados, continuando, aliás, a fornecer e apoiar Israel, exceto por expressar ocasionalmente desconforto diante dos crimes de guerra mais flagrantes. Sem essa moldura imperial de tolerância e apoio, esse projeto colonial não poderia ser tão ambicioso e implacável.
As duas primeiras dinâmicas também se entrelaçam com um terceiro elemento: o ordenamento racializado da população mundial. A racialização consiste em uma hierarquia presumida de prioridade e valor atribuída às pessoas com base em sua suposta descendência, codificada por meio de tropos de avanço civilizacional e de desenvolvimento, especificidades culturais e características biológicas. Em um mundo que se proclama empenhado com os direitos humanos e a igualdade, fica claro que alguns são considerados muito mais humanos do que outros, ou pelo menos que a humanidade de alguns é vista como uma condição contingente, não presumida.
Nesse caso, a sistemática desumanização racializada dos palestinos foi um elemento crônico e fundamental de sua opressão. E isso é necessário para que as duas primeiras dinâmicas funcionem. É francamente difícil imaginar que as coisas que aconteceram com eles — incluindo vê-los deliberadamente serem deixados morrer de fome diante dos olhos do mundo, em tempo real — poderiam ser toleradas se fossem considerados brancos. Embora algumas formas de política racializada tenham se tornado objeto de fortes contestações no último século, outras continuam a moldar orientações e comportamentos.
Obviamente existem outras camadas, lógicas e dinâmicas a serem analisadas, entre as quais o senso de dívida moral da Europa para com Israel após o Holocausto, os mudados equilíbrios geopolíticos dos Estados Árabes e do Golfo, o complexo global de segurança-indústria da vigilância que se desenvolveu após a "Guerra ao Terror" e a relação mais ampla desse conflito com as lutas entre direita e esquerda no Norte global. No entanto, de uma perspectiva analítica, uma orientação pós-colonial é indispensável para compreender em profundidade como e por que tais esquemas de violência continuam a se reproduzir na atual ordem internacional. Gostaria muito que não fosse assim.
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