29 Agosto 2025
Se ele tivesse xingado, acusado ou gritado palavras de ódio, ninguém poderia ter se oposto. Porque a dor de um homem cuja filha foi morta é inquestionável. Mas Riyad Mohammed Abu Dagga, pai de Mariam, jornalista assassinada com outros quatro colegas no bombardeio israelense ao hospital Khan Younis três dias após o ataque que mudou o destino de sua família, prefere falar de paz e se dirige ao povo israelense.
A entrevista é de Greta Privitera, publicada por Corriere della Sera, 28-08-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis a entrevista.
O que gostaria de dizer?
O que está acontecendo em Gaza é uma tragédia. Peço ao povo israelense que protesta que nos ajude a parar a guerra. Peço também aos estadunidenses e à comunidade internacional. Gostaria que os mediadores, o presidente egípcio al-Sisi, o emir do Catar e Benjamin Netanyahu me ouvissem: chega de bombas que matam os nossos filhos. Queremos viver como todos. Amamos a paz e a vida. Somos instruídos, sabemos que nos conflitos se perde e basta. A paz é o nosso desejo.
Fale-nos sobre Mariam.
Sou pai de 11 filhos. Seis rapazes e cinco garotas, tenho cinquenta netos. Mariam era a minha garota especial; quando criança, sempre queria estar comigo e me fazia muitas perguntas: sonhava em ser jornalista. Era uma mulher sensível e doce como o mel; gostava de estudar e frequentou a universidade. Deus tenha piedade dela. Era afetuosa e, após a morte da mãe, tomou conta de mim. Todos em Gaza a amavam, a conheciam pelo seu trabalho tão respeitoso e, hoje, aqueles que me encontram na rua compartilham memórias que guardarei para sempre. Nesta guerra, já havia perdido outro filho e um neto.
O senhor tinha medo da profissão de Mariam?
O jornalismo era a sua paixão. Quando veio me contar que tinha escolhido ser repórter, eu disse para ela confiar em Deus. Se esse era o seu desejo, o que eu poderia fazer? Ela estudou seriamente até conseguir, também trabalhava para jornais internacionais. Era corajosa e determinada. Já era mãe quando começou a faculdade e, quando ia para a aula ou para o trabalho, eu era quem cuidava do seu filho, Ghaith.
Como está seu neto?
Não está bem, mas é um garoto forte. Está nos Emirados com o pai. Assim que a guerra começou, Mariam queria que eles saíssem do país; não queria se separar dele porque ele era a coisa mais preciosa que ela tinha, mas fez isso para o bem dele. Em Abu Dhabi, há muitas pessoas que o amam e ele vive em paz.
Como ficou sabendo da morte da mãe?
É grande, tem 13 anos e lê as notícias nas redes sociais. Na segunda-feira, viu que o Hospital Nasser foi atingido. Sabia que a mãe dormia lá. Ligou para ela e conseguiram conversar. Depois, ela correu para filmar o local da explosão. Ghaith ligou de volta, mas a ligação não foi atendida: havia ocorrido o segundo ataque, aquele que a matou. Conversamos e eu disse a ele que Mariam estava desaparecida. Coube a mim avisá-lo que ela estava morta.
No passado, sua filha doou-lhe um rim.
Eu não estava bem, e ela me obrigou a ir ao hospital para me consultar: não gosto de hospitais. Naquele dia, descobrimos que eu tinha um problema renal grave. Inicialmente, o doador deveria ser um dos meus filhos mais velhos, mas não era compatível. Então ela se ofereceu. Eu não queria, mas ela insistiu. Sempre foi altruísta. Sinto muita falta dela; sinto tristeza, mas também muito orgulho.
Por quê?
Vejo suas belíssimas fotos publicadas nos jornais do mundo todo. Escrevem que era uma jornalista talentosa, um exemplo. É uma honra para a nossa família e para a Palestina. Eu gostaria muito que também Mariam soubesse o que dizem sobre ela.
Leia mais
- "Mariam nunca desistia de mostrar essa guerra: não podemos parar". Entrevista com Ruwaida Kamal Amer
- O testamento de Mariam, jornalista assassinada em Gaza: "Filho, não chore, viva sempre de cabeça erguida"
- Indignação mundial pelo novo ataque. "Um horror intolerável, parem!"
- Ataque israelense ao Hospital Nasser em Khan Yunis: quem são os cinco jornalistas mortos?
- Dois ataques israelenses ao Hospital Nasser em Gaza matam pelo menos 20 pessoas, incluindo cinco jornalistas
- Com a morte do jornalista Al Koumi, o número de repórteres mortos em Gaza agora chega a 239
- ‘Célula de Legitimação’: a unidade israelense encarregada de conectar jornalistas de Gaza ao Hamas
- Israel mata cinco jornalistas da Al Jazeera, incluindo Anas al-Sharif, em um bombardeio em Gaza
- O massacre de Gaza, contado por três repórteres assassinados. Entrevista com Robert Greenwald
- 'É preciso continuar trabalhando para que o mundo saiba o que vivemos', diz jornalista de Gaza à RFI
- ‘Nossos últimos repórteres em Gaza vão morrer de fome’, afirma agência AFP
- Jornalistas sem-teto em Gaza: "Quantos mais precisam ser mortos antes que o mundo reaja?"
- Por que Gaza é um local mortal para jornalistas
- “Confio a vocês a Palestina e seu povo, suas crianças que nunca tiveram tempo de sonhar”. Testamento de Anas Al-Sharif, jornalista palestino assassinado
- Israel mata cinco jornalistas da Al Jazeera, incluindo Anas al-Sharif, em um bombardeio em Gaza