Matar de fome é típico dos regimes. Artigo Dacia Maraini

Foto: UNRWA

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06 Agosto 2025

"Matar de fome é típico de regimes que querem a destruição do inimigo. Não se mata diretamente; sempre se poderá dizer que morreram por doença", escreve Dacia Maraini, escritora italiana, em artigo publicado por Corriere della Sera, 05-08-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Muitos pensam que ter fome é como ter apetite. O estômago ronca, se aperta o cinto e seguramos até a próxima refeição. Há quem passe fome para emagrecer ou, como acontece com os anoréxicos, por uma busca de espiritualidade mortificada pela cultura consumista. Mas a fome de quem não tem o que comer por uma intenção de dominação política é outra coisa.

Eu sei o que é a fome e como, dia a dia, leva à aniquilação. A fome que te leva a devorar um rato morto, ou a engolir formigas, como eu fazia quando criança no campo de concentração japonês para antifascistas. A verdadeira fome, aquela que faz com que devore primeiro a si mesmo, consumindo toda a gordura e proteína que o corpo contém. Depois começam as doenças: não desenvolvendo mais energia nem anticorpos, as bactérias crescem e causam doenças mais ou menos graves.

Tendo perdido as defesas, você é atacado por parasitas: vermes brancos e filamentosos, ou pequenos como caracóis escorregadios e cinzentos. E a cabeça, a região pubiana e axilas são atacadas por percevejos e piolhos. Eu passei por tudo isso e sei o que produz a fome. Posso me considerar uma especialista em fome, no sentido mais humilhante e devastador da palavra.

Dessas humilhantes e devastadoras consequências da fome estão sofrendo as crianças em Gaza neste momento e eu me pergunto por que e como não conseguimos impedir esse horror.

Matar de fome é típico de regimes que querem a destruição do inimigo. Não se mata diretamente; sempre se poderá dizer que morreram por doença.

É tolo e racista confundir o povo israelense com o regime que comete essas atrocidades. Seria mais uma atrocidade. Muitos acreditam que um povo que não se rebela contra um regime trucidador é coletivamente culpado. Mas não se dão conta que, quando um governo toma posse e controle da polícia, do exército, dos serviços secretos e da maioria das mídias, é quase impossível reagir.

Não se pode pretender que todos se transformem em heróis como Navalny ou Matteotti, que desafiaram seus governos mesmo sabendo que estavam indo ao encontro da morte.

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