02 Abril 2025
"Em contraste com aquele panorama histórico, hoje parece que atravessamos um deserto de lideranças inspiradoras. Em quase todos os âmbitos —política, vida religiosa e até mesmo cultura ou empresas— muitas pessoas percebem a ausência de figuras com o porte moral e a capacidade de inspirar que tinham aqueles líderes do passado", escreve José F. Castillo Tapia, SJ, padre jesuíta. Nasceu em Granada. Atualmente trabalha na Amazônia brasileira apoiando povos indígenas. Graduado em Filosofia e Teologia pela Pontifícia Universidade de Comillas e mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) de Belo Horizonte (Brasil).
O neologismo Anexía combina o prefixo an- (do grego, “ausência”) com eksusía (do grego, “liderança, autoridade”). Assim, anexía descreve um período em que parece ter se esgotado o surgimento de líderes com carisma inspirador. Em outras palavras, vivemos uma crise de liderança inspiradora, uma época marcada pela escassez de figuras verdadeiramente carismáticas capazes de motivar e guiar a sociedade rumo a ideais elevados. Este termo pretende descrever o fenômeno contemporâneo em que tanto na política quanto em outros âmbitos (inclusive o religioso) há uma carência notável de lideranças com magnetismo moral e visão transformadora, aquelas que em outras épocas acendiam a esperança coletiva.
Sem a pretensão de oferecer uma análise sociológica rigorosa nem uma receita mágica, compartilho esta reflexão baseada no que percebo e vou vivenciando. A atual escassez de líderes capazes de inspirar não é um fenômeno espontâneo, mas o resultado de vários fatores. Entre eles, a desmitificação extrema de figuras de autoridade, o medo do compromisso e a falta de visão de longo prazo geraram um ambiente no qual poucos se atrevem a assumir uma liderança autêntica. Além disso, na era da imagem e das redes sociais, a popularidade efêmera substituiu a liderança genuína, enquanto a complexidade e fragmentação do mundo atual dificultam o surgimento de figuras que consigam convocar amplos setores.
Ao longo do século XX, o mundo testemunhou numerosos líderes carismáticos e inspiradores que deixaram uma marca profunda na sociedade. No âmbito político e social, por exemplo, emergiram figuras cuja visão e princípios morais mobilizaram milhões de pessoas: desde Mahatma Gandhi, com sua mensagem de resistência não violenta diante da injustiça colonial, até Martin Luther King Jr., cujo sonho de igualdade racial e justiça social comoveu a consciência dos Estados Unidos e do mundo. Também líderes como Nelson Mandela, que após 27 anos de prisão guiou a África do Sul em uma transição pacífica rumo à democracia multirracial, demonstraram um carisma extraordinário baseado no perdão e na reconciliação. Esses personagens —ao lado de outros, como Winston Churchill, que inspirou os britânicos na adversidade da Segunda Guerra Mundial, ou Malala Yousafzai, jovem ativista que se levantou corajosamente em defesa da educação e dos direitos das meninas— exemplificaram o poder da liderança inspiradora. Eram pessoas capazes de articular uma visão transcendente e ética, de comunicar com paixão e empatia e de serem modelos de coerência entre suas palavras e ações, conquistando assim a confiança de seus povos.
Do mesmo modo, no âmbito da Igreja Católica, despontaram líderes espirituais cujo carisma transcendeu o puramente eclesial, convertendo-se em faróis morais universais. Figuras como Pedro Arrupe, Pedro Casaldáliga, Dom Hélder Câmara, Óscar Romero ou Paulo Evaristo Arns encarnaram uma liderança profética e inspiradora a partir da fé, em profunda sintonia com as lutas sociais de seu tempo. Por exemplo, o padre Pedro Arrupe, superior geral dos jesuítas desde 1965, orientou a Companhia de Jesus para uma missão centrada na justiça social e na defesa dos pobres, renovando a compreensão da fé como motor de mudança social. Suas reformas promoveram a ideia de formar “homens e mulheres para os outros”[1] enfatizando que a autêntica espiritualidade devia estar unida ao compromisso com a justiça.
Na Brasil, o bispo catalão Pedro Casaldáliga ficou conhecido como “o bispo dos pobres” por sua dedicação às comunidades indígenas e camponesas do Mato Grosso, defendendo suas terras e direitos, ainda que enfrentasse perseguição. Ao lado dele, outros pastores latino-americanos se tornaram consciências vivas de seus povos: o brasileiro Dom Hélder Câmara, arcebispo de Recife, ergueu sua voz contra a miséria e a repressão militar. Câmara expressava claramente a injustiça de sua época com frases memoráveis como “Quando dou de comer aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, me chamam de comunista”, denunciando a hipocrisia de uma sociedade que prefere a caridade acrítica a se fazer perguntas incômodas sobre as causas da pobreza. Do mesmo modo, em El Salvador, o arcebispo Óscar Romero defendeu corajosamente os direitos humanos desde o púlpito: em suas homilias dominicais, denunciava as violações aos direitos do povo e abraçou a “opção preferencial pelos pobres” como missão da Igreja. Seu assassinato em 1980, enquanto celebrava missa, o converteu em mártir e símbolo mundial da luta pela justiça e pela paz. Também no Brasil, o cardeal Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, se destacou por sua valentia e compromisso ético durante a ditadura militar: denunciou publicamente a tortura e os desaparecimentos, apoiou colegas perseguidos (como seu companheiro Hélder Câmara e até a proteção de ativistas como o Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel) e foi coautor do relatório histórico “Brasil: Nunca Mais”[2] que documentou os abusos do regime.
Em contraste com aquele panorama histórico, hoje parece que atravessamos um deserto de lideranças inspiradoras. Em quase todos os âmbitos —política, vida religiosa e até mesmo cultura ou empresas— muitas pessoas percebem a ausência de figuras com o porte moral e a capacidade de inspirar que tinham aqueles líderes do passado. Esse fenômeno é justamente o que denominamos Anexía. Quais são os sintomas dessa situação?
Na política contemporânea, em nível global, nota-se que a maioria dos governantes ou dirigentes carece do apelo idealista e da autoridade moral que mobilizavam as massas décadas atrás. Em vez de líderes visionários com projetos de longo alcance, abundam gestores tecnocratas centrados na administração imediata ou, no outro extremo, populistas que usam o carisma superficialmente para polarizar e obter ganhos imediatos, mas sem uma ética consistente por trás. A confiança cidadã nos políticos se erodiu drasticamente; cresce a sensação de que poucos líderes atuais estão à altura de desafios globais como a desigualdade, a crise climática ou os conflitos sociais, com a integridade e a grandeza de visão que, por exemplo, um Mandela ou um King demonstraram em suas lutas. Em vez de inspirar união e sacrifício pelo bem comum, muitos dirigentes atuais recorrem ao medo, à divisão ou ao interesse pessoal. Essa falta de liderança inspiradora genuína deixa as sociedades órfãs de referências positivas, provocando desencanto, cinismo e apatia na população.
No âmbito da Igreja e da espiritualidade, a anexía também se faz notar. Após a época daqueles bispos e teólogos proféticos de meados do século XX, houve períodos em que a hierarquia eclesial priorizou a disciplina e a uniformidade em detrimento da profecia e da proximidade com o povo. Muitos dos grandes referenciais espirituais mencionados (Arrupe, Casaldáliga, Romero etc.) foram incompreendidos ou até silenciados em seu momento por setores conservadores. Com seus falecimentos (por morte natural ou assassinato) e a falta de sucessores à altura, abriu-se um vazio de liderança carismática na Igreja. Embora o Papa Francisco, recentemente, tenha retomado com força algumas daquelas bandeiras, em nível local são poucas as figuras eclesiais que conseguem inspirar com a mesma intensidade a sociedade para além dos templos. Em muitas comunidades, a religião se tornou para alguns um formalismo ou se politizou de forma estéril, perdendo aquele fogo inspirador que, em décadas passadas, levava jovens e adultos a se envolverem ativamente em causas de justiça social de mãos dadas com a fé. Os jovens, especialmente, sentem falta de exemplos próximos de líderes espirituais autênticos com quem se identificar.
Outros setores da vida pública também não escapam a essa anexía: na cultura, nos movimentos cidadãos, na academia, é frequente ouvir a pergunta “Onde estão os líderes inspiradores de hoje?”. Parece que as grandes figuras referenciais foram se diluindo em um mundo saturado de informação, imediato e fragmentado. A superexposição midiática de qualquer personalidade revela rapidamente suas fraquezas ou contradições, desinflando a aura heroica que antes podiam manter por mais tempo. Do mesmo modo, a complexidade dos problemas atuais pode intimidar eventuais líderes genuínos, que enfrentam um escrutínio implacável e, às vezes, um ambiente cínico ou indiferente. Tudo isso contribui para uma percepção generalizada: estamos vivendo em tempos de orfandade de liderança inspiradora.
Em meio a esse panorama desértico quanto à liderança carismática, a figura do Papa Francisco se destaca como uma exceção. Sua liderança transcendeu o âmbito religioso para se erguer como uma referência ética global. De fato, muitos o consideram uma voz moral cada vez mais solitária no cenário mundial, um líder que antepõe os princípios humanitários e o bem comum às tendências dominantes de nacionalismo, xenofobia ou desinformação do nosso tempo. Sem uma referência como Francisco, o panorama global pareceria ainda mais sombrio, quase uma “distopia hobbesiana” desprovida de guias morais.
Desde sua eleição em 2013, o pontífice argentino Jorge Mario Bergoglio impôs “um novo estilo de liderança” na Igreja Católica. Caracteriza-se por sua simplicidade, proximidade e coragem para abordar temas delicados. Fala sem rodeios sobre problemas que outros líderes evitam —imigração, pobreza, crise ambiental, abusos, violência— e comunica não só com palavras, mas também com gestos simbólicos. Seus atos de humildade e proximidade “romperam moldes” e se tornam mensagens poderosas por si mesmos. Ele renunciou a muitos privilégios do cargo (como viver em palácios ou usar veículos luxuosos) para dar exemplo de modéstia, e não hesita em se misturar com as pessoas comuns, ouvindo-as e demonstrando compaixão de forma direta.
Vários episódios de seu pontificado ilustram essa liderança carismática e moral. Por exemplo, poucos meses depois de assumir, Francisco viajou sob um sol escaldante à ilha italiana de Lampedusa, principal porta de entrada de migrantes e refugiados na Europa. Lá, quis tornar visível o drama dos que fogem por mar: celebrou uma missa em um altar construído com madeiras de barcos de migrantes naufragados. Com esse gesto impactante —um papa rezando diante dos restos de embarcações em que morreram pessoas desesperadas— denunciou a “globalização da indiferença”[3] diante do sofrimento alheio e chamou a atenção do mundo para a tragédia da migração. Do mesmo modo, em inúmeras ocasiões, abraçou enfermos, pobres e marginalizados, enviando a mensagem de que a dignidade humana está acima de qualquer aparência ou condição. Essas demonstrações de empatia genuína lhe conferiram uma autoridade moral difícil de encontrar em outros líderes atuais.
Francisco também levantou a voz com firmeza no plano discursivo, alicerçando seu carisma em princípios claros. As tendências políticas que priorizam a força, a divisão ou a exclusão têm sido constantemente repudiadas por ele. Em uma carta dirigida aos bispos dos Estados Unidos, advertiu que “o que se constrói com base na força… e não sobre a verdade a respeito da dignidade de todo ser humano, começa mal e terminará mal”[4]. Com esse tipo de mensagem, o papa sublinha que a ética e a compaixão devem prevalecer acima da imposição do poder ou do medo. Da mesma forma, ele exortou líderes e cidadãos de todo o mundo a rejeitarem “os cantos de sereia do autoritarismo”[5] e a trabalharem “com um renovado espírito de fraternidade e solidariedade”[6] pelo bem comum. Sua voz se converteu em um farol moral em questões globais como a defesa dos pobres, a acolhida de refugiados, o diálogo inter-religioso e a proteção do meio ambiente.
A popularidade e a admiração que Francisco suscita confirmam sua estatura de líder inspirador em nível mundial. Já em seu primeiro ano de papado, foi designado “Pessoa do Ano” pela revista Time[7], uma honra significativa tratando-se de um líder religioso, e sua imagem ocupou capas de publicações internacionais não religiosas como Vanity Fair e Rolling Stone[8]. Esse protagonismo midiático incomum para um pontífice reflete como seu carisma transcende as fronteiras da Igreja e se conecta com um anseio universal de orientação moral em tempos conturbados. Em um mundo sedento de referências éticas, Francisco se converteu no líder global que inspira confiança, empatia e esperança, inclusive além de seu rebanho.
No entanto, para nós, cristãos, a verdadeira pergunta é: será que perdemos de vista o único verdadeiro líder? Jesus Cristo é o modelo definitivo de liderança, aquele que não apenas ensinou com palavras, mas entregou sua vida como dom absoluto para a humanidade. Ao longo da história, homens e mulheres refletiram algo de sua luz e foram testemunhas da Boa Notícia com sua vida e seu compromisso com os mais pobres. Figuras como Pedro Arrupe, Dom Hélder Câmara ou Pedro Casaldáliga não foram líderes por mérito próprio, mas porque viveram em comunhão com o Cristo que dá sentido a toda missão. Se hoje não encontramos lideranças como as de outrora, talvez a pergunta que devêssemos fazer não seja apenas “onde estão os líderes inspiradores?”, mas sim “onde estamos nós em relação a Jesus?”.
A autoridade (eksusía) de Jesus - Mt 7,28-29: “Quando Jesus acabou de proferir estas palavras, estavam as multidões maravilhadas da sua doutrina; porque ele as ensinava como quem tem autoridade [eksusía] e não como os escribas”- impressionou as multidões porque Ele ensinava com um poder genuíno, distinto da autoridade derivada dos escribas. Estudos exegéticos apontam que eksusía nesse contexto indica uma “capacidade especial” concedida por Deus, evidenciada pelo fato de que Jesus proclamava a vontade divina com clareza e com autoridade própria, sem depender de tradições humanas[9]. Diferente dos mestres da Lei, que legitimavam seus ensinamentos citando rabinos anteriores, Jesus ensinava com voz própria, “sem precisar recorrer a terceiros; baseando seu ensino em sua própria autoridade”. Suas palavras eram como um manancial de água viva, capaz de saciar a sede da alma, contrastando com a “água envelhecida de cisternas fechadas” da mera repetição tradicional. Isso acontecia porque sua autoridade provinha da profunda comunhão com o Pai — “o que o Pai … lhe comunicava, isso Jesus ensinava” (Jo 15,15) —, de modo que muitos O reconheciam como um mestre enviado por Deus (cf. Jo 3,2). No contexto da liderança autêntica, a eksusía de Jesus exemplifica uma autoridade legítima que não se impõe pelo autoritarismo, mas pela coerência de vida e pelo serviço humilde; é um modelo de liderança com verdadeira legitimidade espiritual, em contraste com a anexía (ausência de autoridade genuína), pois compreende o poder como uma missão para servir aos outros, e não como meio de autoexaltação. Dessa forma, fica evidente que nenhuma liderança cristã genuína é possível sem recorrer a Jesus, pois é Nele que encontramos o modelo perfeito de autoridade que inspira, edifica e transforma[10].
Nos Exercícios Espirituais, Santo Inácio de Loyola convida o exercitante a buscar um “conhecimento interno de Cristo” (EE, 104), não como um simples acúmulo de informações teológicas, mas como uma experiência pessoal e transformadora. Esse conhecimento interno não é fruto apenas do estudo das Escrituras, mas de um envolvimento profundo com a pessoa de Jesus, de forma que possamos “amá-lo e segui-lo mais de perto” (EE, 104). A fé cristã não se reduz a uma adesão intelectual a doutrinas ou a uma prática moral isolada; exige que nos configuremos a Cristo, permitindo que sua vida, seus sentimentos e sua missão moldem nossa existência. Como diz Santo Inácio, não basta saber sobre Cristo: é necessário “sentir e saborear as coisas internamente” (EE, 2), pois só assim a verdade do Evangelho deixa de ser um conceito abstrato e se torna uma força viva que orienta cada decisão e ação. Sem essa experiência de intimidade com Deus, a fé se esvazia, tornando-se um formalismo estéril ou uma repetição automática de preceitos. Por isso, o verdadeiro líder cristão não se forma apenas pelo conhecimento teórico, mas pelo encontro real e contínuo com Cristo, onde sua autoridade se torna não uma imposição externa, mas uma força que inspira e transforma a partir de dentro.
É vital compreender que a responsabilidade não é só “deles” (dos líderes ausentes), mas nossa também. Como cidadãos, como comunidade de fiéis, como membros de diversos grupos, temos o dever de exigir, sim, mas também de incentivar nossos líderes, e até mesmo de nos tornarmos líderes em nossas próprias esferas. Se deixarmos de lado o cinismo paralisante e recuperarmos a confiança em Jesus e no Evangelho, poderemos identificar e apoiar os líderes inspiradores em potencial que hoje talvez estejam atuando silenciosamente.
[1] aqui.
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[6] aqui.
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