A América do Sul se tornou a fornecedora mundial de matérias-primas para a transição energética. As comunidades afetadas se revoltam contra uma atividade que gera desapossamento de terras, poluição, seca e conflitos internos.
A reportagem é de Antònia Crespí Ferrer, publicada por El Diario, 31-03-2025.
Na Puna, região situada no altiplano andino do noroeste argentino, representantes de povos originários de cinco países sul-americanos se reuniram para levantar uma voz comum diante de um inimigo que ameaça devastar seus territórios ancestrais: a exploração massiva do lítio.
A Cúpula Intercultural Andina das Comunidades Afetadas pela Exploração do Lítio, realizada de 16 a 19 de janeiro de 2025 em El Moreno (Jujuy, Argentina), reuniu delegações indígenas da Argentina, Chile, Peru, Equador e Bolívia. O encontro se constituiu como um espaço de troca de experiências, denúncias e estratégias de resistência contra um modelo extrativista que avança a passos acelerados sem levar em conta a vontade dos povos originários em relação às suas terras.
A chegada de empresas de mineração de lítio ao noroeste argentino e à região de Antofagasta no Chile transformou radicalmente a vida de dezenas de comunidades kollas e atacameñas em nome de uma reestruturação global do sistema capitalista — denominada "transição verde" — em um contexto geopolítico multipolar que está transformando a América do Sul na fornecedora mundial de matérias-primas para essa transição.
“O lítio é pão para hoje e fome para amanhã”, denunciam algumas ativistas na cúpula. As dezenas de empresas transnacionais que operam na região estão provocando severas alterações ambientais: escassez de água, diminuição da flora e fauna autóctones, violência institucional e corporativa, desapossamento de recursos básicos e de terras ancestrais. O resultado, segundo os denunciantes, é um “genocídio ambiental e cultural” que passa despercebido pelo resto do mundo.
O que as corporações e governos denominam comercialmente como “triângulo do lítio” — uma extensa área do altiplano andino que abrange partes da Argentina, Chile e Bolívia, onde se concentra entre 60% e 70% das reservas mundiais deste mineral — é um território habitado há 40.000 anos por povos originários.
Esta zona, longe de ser um deserto vazio esperando para ser explorado, é um espaço biocultural rico em biodiversidade, história e comércio, com evidências arqueológicas de intercâmbios entre as costas chilenas do Pacífico e as yungas jujeñas desde os anos 500-1.000 d.C., muito antes da chegada dos europeus.
O modelo de desenvolvimento impõe uma visão simplificada desses territórios, transformando-os em meros “recursos naturais” a serem explorados. Esta concepção comercial colide frontalmente com a cosmovisão andina dos povos originários, onde a relação com o território é essencial para a vida e cada ser forma parte de um ecossistema interconectado.
As empresas multinacionais, dois terços das quais são chinesas ou têm maioria acionária chinesa, se posicionaram estrategicamente em toda a cadeia de valor do lítio; no entanto, hoje em dia o panorama dos investidores na Puna é internacional, entrelaçando uma matriz de indústrias, desde a automotiva até a militar. Globalmente, os atores da indústria de lítio estão crescendo devido ao aumento da demanda esperado nos próximos anos, o que leva a uma transformação radical da paisagem natural e sociocultural da Puna. “Nos tratam como se não existíssemos, como se nossa história não importasse”, lamentou um líder comunitário durante a cúpula.
A extração do lítio envolve desafios ambientais críticos. Existem dois métodos principais para extrair o lítio: o tradicional e a extração direta.
No método tradicional, a salmoura é bombeada para piscinas de evaporação, onde permanece entre dez e 24 meses, enquanto o aquecimento solar e mecânico concentra os minerais. Durante o processo, são aplicados aditivos químicos para isolar o lítio, que finalmente é refinado e exportado. Segundo informações da SQM (Chile) e Abermarle (EUA) referentes a 2022, suas operações no Salar de Atacama consomem 200 milhões de litros de água diários — 73 bilhões anuais — para produzir 70.000 toneladas de lítio. 95% da água utilizada se perde no processo, o que significa que cada quilo de lítio extraído requer 1.000 litros de água.
Com o método de extração direta, o lítio é extraído diretamente da salmoura por meio de processos químicos, permitindo tempos de extração acelerados. Este método, embora teoricamente reduza a perda de água ao reciclar a salmoura, apresenta seus próprios problemas. Segundo estudos científicos, essas plantas consomem mais água do que o método tradicional e, por isso, são necessários análises detalhados dos contextos onde esses projetos serão implementados. Além disso, requerem mais energia elétrica, o que aumenta tanto os custos quanto o impacto ambiental.
“A extração direta consome muita energia, precisa de muita eletricidade para funcionar, e isso não só aumenta os custos, mas também a pegada de carbono do método”, explica Ehsan Vahidi, professor do departamento de Engenharia de Mineração e Metalurgia da Universidade de Reno, Nevada.
Um dado revelador: até o momento, a maioria das minas de lítio tradicionais e de extração direta operando no chamado Triângulo do Lítio utiliza energia fóssil, o que contradiz a narrativa de sustentabilidade promovida pela indústria. Luciano Prieti, engenheiro químico da província de Salta, afirma que “é necessário um balanço rigoroso das emissões de CO2 para determinar se a produção de baterias de lítio realmente contribui para mitigar o aquecimento global, especialmente quando se fala de extração direta. Os projetos de extração direta, na verdade, requerem mais energia, questionando o modelo do lítio como uma alternativa com menor pegada de carbono”.
Atualmente, é difícil elaborar uma conclusão sobre os impactos da extração direta, pois todos os projetos que a implementam são novos e não há dados acessíveis para realizar uma análise independente. O que se vê é que nenhuma autoridade está implementando o princípio da precaução diante da incerteza sobre as potenciais consequências desse tipo de extração.
Karen Luza, líder indígena da comunidade de San Pedro de Atacama, defende a água há mais de duas décadas, um recurso essencial para a vida e a cultura de seu povo.
“Não estamos lutando por qualquer recurso, estamos defendendo a própria vida”, afirma Luza. No Chile, o mercado do lítio é dominado pela SQM, empresa nacional com 25,96% de suas ações nas mãos da chinesa Tianqi Lithium, que se posicionou como uma das maiores produtoras mundiais.
O impacto da SQM e de outras empresas sobre os recursos hídricos é devastador em um país onde a água está privatizada desde a ditadura de Pinochet. A extração de uma tonelada de lítio requer entre 100 e 800 metros cúbicos de água, algo que afeta 70% das reservas de água doce da região.
Isso contribuiu para uma situação de crise na área de San Pedro de Atacama, onde 70% da água é utilizada para fins minerários. Luza também denuncia irregularidades no controle da água potável em sua comunidade, que é realizado trimestralmente, em vez de semanalmente, como estabelece a legislação. “Apesar dos milhões investidos em projetos de acesso à água, os resultados são inexistentes”, aponta.
Além disso, o processo de extração mistura a água hipersalina dos aquíferos com água doce, contaminando as fontes potáveis. Segundo testemunhos recolhidos na região, a escassez de água piorou desde a chegada das mineradoras, com o nível do salar diminuindo nove ou dez metros, provocando um êxodo de flamingos que costumavam se reproduzir no salar.
Desde 2023, o governo de Gabriel Boric está implementando a Estratégia Nacional do Lítio, que além de querer nacionalizar os recursos e maximizar os lucros estatais, abre caminho para projetos de extração direta, estendendo as concessões minerárias até 2060. Isso gerou oposição da sociedade civil, que apresentou uma carta assinada por 85 organizações sociais criticando os planos em vários pontos. Entre esses, figura a abertura à exploração de salares até agora protegidos, assim como a denúncia da falta de consulta das comunidades. Isso pode agravar os impactos ambientais e sociais, que hoje já geram corrupção e divisões comunitárias. Segundo Gerardo Ramos, ativista local, as grandes somas investidas pelas multinacionais beneficiam poucos privilegiados sem gerar desenvolvimento sustentável. “O acesso à água continua sendo um luxo enquanto alguns líderes desfrutam de veículos novos todo ano”, denuncia.
As empresas também cooptam líderes por meio de benefícios diretos, como bolsas de estudo ou atendimento médico, criando dependências que enfraquecem a resistência. “No fim das contas, não podemos esquecer que a mineração é feita por pessoas de fora que entram na sua casa, cavam um buraco e vão embora... mas o que acontece com o buraco quando eles se vão?”, questiona Gerardo.
Jujuy se transformou em um cenário para a batalha geopolítica por recursos, com uma série de multinacionais disputando o lítio. Segundo dados da Secretaria de Mineração da Nação, há 50 projetos de lítio pertencentes a 33 empresas: 33 em operação, seis em construção e onze em etapas preliminares, em Jujuy, Salta, Catamarca, Río Negro e San Juan. Em Jujuy, há duas empresas operacionais que ilustram esse cenário: Arcadium Lithium (EUA-australiana) no Salar de Olaroz, e Minera Exar (Ganfeng Lithium 46,7%, Lithium Americas Corp. 44,8% e JEMSE 8,5%) em Cauchari Olaroz. Com uma presença ocidental indelével — 23 empresas operacionais —, a China marcou fortemente sua presença, contando com dez empresas operacionais e investimentos estratégicos no desenvolvimento da infraestrutura energética renovável de Jujuy.
Esta disputa geopolítica acelerou os processos de exploração e extração de maneira irregular. Desde 2010, mineradoras têm construído estradas e assentamentos em território indígena de maneira ilegal, bloqueando o acesso a terras, poços de água e caminhos utilizados pelas comunidades para sua economia local. Além disso, a água de poços de comunidades em resistência é transportada ilegalmente para assentamentos mineradores, provocando secas artificiais. Em 2015, quando 33 comunidades locais descobriram que fases exploratórias encobertas haviam sido realizadas sem consulta prévia, responderam criando uma associação chamada Mesa da Bacia de Salinas Grandes para garantir processos de consulta prévia por meio de um manifesto-protocolo intitulado Kachi Yupi (Pegadas no sal).
Kachi Yupi fornece um quadro protocolar para o consentimento e negociação com as comunidades, compatível com os valores comunitários andinos. No entanto, desde então, o aumento da demanda por lítio, assim como uma crise econômica prolongada, levou a reformas constitucionais, decretos de emergência e violência estatal que enfraquecem os direitos humanos e ambientais em favor do lítio.
Ainda com um marco legislativo pró-mineração, essas empresas implementam uma infinidade de estratégias para obter a licença social das comunidades, desde acordos ilícitos com líderes comunitários até promessas de empregos fixos que geralmente não são cumpridas. Em 2024, as comunidades viram como as mineradoras se apropriaram do repertório cultural ritualista para convencê-las, utilizando cerimônias tradicionais para a extração de lítio. Como aponta Don Calixto, um líder comunitário: "Os salares, montanhas, rios, são nossa família, é nosso dever protegê-los. Isso é um esvaziamento da nossa cultura, destrói a natureza e nossas vidas. O dinheiro vem e vai, a natureza sempre estará. Não trabalharemos com elas até que nossos valores e território sejam respeitados".
T’allupa, uma representante camponesa, falando sobre a revogação presidencial de uma das únicas leis que protegem as comunidades do despejo de suas terras ancestrais (26.160), expôs um sentimento compartilhado: "Nos tratam como um rebanho, temos que ser vigilantes, se não agirmos agora, perderemos tudo". Essa impotência coletiva é fruto da violência institucional, especialmente desde os protestos contra a reforma constitucional de 2022, nos quais a violência policial contra idosos, crianças, adolescentes e adultos causou lesões faciais e corporais pelo simples fato de defenderem seu direito de existir.
Embora na Puna o medo tenha reduzido as ações diretas, a opressão catalisou uma fraternidade inédita entre povos originários, organizações e pessoas, que transcende fronteiras socioculturais e físicas. Jornalistas, acadêmicos, advogados, artistas, ONGs e sindicatos se uniram a uma luta que recentemente levou a uma conquista histórica para as comunidades da Puna Argentina.
Recentemente, o Banco Mundial reconheceu os direitos das populações indígenas de Salinas Grandes (Argentina), colocando em pausa todos os projetos de exploração ativos, até que seja estabelecido um diálogo com todas as comunidades afetadas, e se garanta que as decisões relacionadas ao uso do território sejam tomadas em conjunto. “O Banco Mundial, que concede financiamento a projetos extrativos em troca do respeito a padrões mínimos ambientais e sociais, tem grande poder de pressão sobre as empresas e foi capaz de interrompê-las temporariamente”, menciona a nota de imprensa do FARN.
Essas declarações evocaram sentimentos contrários nas comunidades em resistência. Os povos originários da Puna de Jujuy têm uma experiência trigeneracional com multinacionais mineradoras. Embora as mineradoras tenham oferecido oportunidades de emprego, foram participantes da violência estatal durante a ditadura e catalisaram uma mudança radical no meio ambiente e nas economias tradicionais, resultando em movimentos migratórios para as cidades.
Nas comunidades, esse tema é debatido com intensidade. Por um lado, algumas temem que, se não fizerem acordos com as mineradoras, perderão ofertas de trabalho temporário necessário para os tempos precários que vivem ou, ainda pior, a perda total de seu território devido a despejos. Por outro lado, estão cientes de que, se conseguirem acordos, suas comunidades deixarão de existir, transformando a Puna em um habitat inabitável.
Celestina, artista e ativista da Puna, se declara "cética" sobre as declarações do Banco Mundial. "Eles não vão parar as mineradoras. Esta declaração é uma tática para colocar a balança a favor das multinacionais ocidentais, promovendo um discurso de direitos humanos que nunca se materializa. Já estamos há mais de três gerações convivendo com multinacionais mineradoras, e não importa de onde venham, todas são iguais. Queremos viver em paz e harmonia com a Pachamama. Já são mais de 500 anos de colonialismo, quando vai parar?"
Do Chile, algumas comunidades acreditam que este conflito geopolítico pode ser fortuito, criando uma oportunidade para implementar estratégias sugeridas por algumas comunidades durante a cúpula. "Se não houver opção de defender o território, é preciso pressionar as empresas para obter uma porcentagem da receita do lítio para uma 'unidade patrimonial' que gerencie nosso legado cultural e territorial, além de facilitar formação em antropologia, arqueologia, geologia, agronomia, direito e história. Essas soluções fortalecem nossa autonomia epistemológica e legal, reduzindo as assimetrias entre comunidades e atores externos", explicou uma representante chilena. "Quando se cuida do território e da cultura, se valoriza o que se tem e de onde se vem".
Ao finalizar a cúpula, os participantes assinaram uma declaração conjunta exigindo moratória sobre novos projetos mineradores, respeito ao consentimento livre, prévio e informado, e reconhecimento efetivo da propriedade comunal das terras ancestrais. A batalha pelo lítio, concluíram, é uma luta pela sobrevivência cultural e física de comunidades que habitam esses territórios desde tempos imemoriais.