01 Abril 2025
Estamos tão acostumados a eles, a ponto de sua presença passar quase despercebida, mas estão por todos os lados. Movendo-se de um lado para o outro, em alta velocidade. Ocupando o espaço público. Emitindo gases que envenenam o ar. Os carros, que outrora simbolizaram o status e o progresso como nenhum outro bem de consumo na sociedade capitalista, tornaram-se um problema que não se resolve trocando os veículos a combustão por outros elétricos. Há dados que falam por si.
A reportagem é de Dani Cabezas, publicada por La Marea-Climática, 31-03-2025. A tradução é do Cepat.
A cada ano, por exemplo, ocorrem 11.000 atropelamentos na Espanha. Destes, a grande maioria (cerca de 10.000) acontece em ambientes urbanos, cujas ruas e avenidas são destinadas majoritariamente a veículos particulares. Estima-se que um carro passe 95% de sua vida útil parado, geralmente em vias públicas. E a poluição do ar é diretamente responsável por 3.300 mortes prematuras a cada ano no país.
Tudo isso é reunido, analisado e criticado em Autocalipsis (publicado por Capitán Swing), tradução que se fez ao espanhol do igualmente apropriado Carmaggedon, nome utilizado pelo britânico Daniel Knowles, jornalista do The Economist, para um livro que acaba de ser publicado e que convida a uma reflexão coletiva sobre a nossa maneira de nos deslocarmos de um lugar para outro.
“Estamos em um ponto de inflexão em todo o mundo”, explica Knowles em conversa com Climática. “Isto se deve, em parte, às novas tecnologias: a transição para carros elétricos e a ascensão lenta, mas real, da direção autônoma oferecem a oportunidade de tornar o transporte muito mais ecológico. Mas, ao mesmo tempo, corremos o risco de nos tornarmos mais dependentes dos carros do que nunca. É fácil imaginar a ascensão de veículos elétricos baratos, fazendo com que as pessoas comecem a usá-los para deslocamentos que antes fariam a pé. O resultado será mais congestionamento, mais poluição e, em última instância, um transporte menos eficaz”.
Na opinião de Knowles, “se não implementarmos as políticas adequadas agora, as pessoas comprarão carros novos e, então, será muito mais difícil mudar. Além disso, em cidades de países em desenvolvimento, como Mumbai e Lagos, o aumento do número de carros já está paralisando tudo e poluindo o ar, pois nelas as elites cometem exatamente os mesmos erros centrados no carro que os europeus e estadunidenses cometeram há um século”.
Em Autocalipsis, Knowles analisa fundamentalmente as políticas de mobilidade de quatro cidades: Amsterdã, Copenhague, Tóquio e Nova York. A escolha não é aleatória. “Das duas primeiras, aprendemos que as bicicletas podem ser uma tecnologia verdadeiramente transformadora”, aponta. “Quanto a Nova York, a recente introdução da taxa de congestionamento e seus efeitos extraordinariamente positivos demonstram como até mesmo as cidades estadunidenses podem mudar”.
“Por último, Tóquio me pareceu o lugar mais interessante de todos: é uma cidade construída quase inteiramente após a Segunda Guerra Mundial e, no entanto, nunca cometeu os erros das outras, ou ao menos não na mesma escala. A grande lição que podemos aprender da capital japonesa é que quando não se subsidia os carros, não se oferece estacionamento gratuito às pessoas e não se permite acesso total às vias públicas, as pessoas vão utilizá-los muito menos”.
Para o jornalista do The Economist, a saída está no bolso dos cidadãos. “Somos animais econômicos: as pessoas dirigem distâncias curtas porque é barato, ainda que, em última instância, seja muito caro para a sociedade. Se você cobrar um preço justo pelo estacionamento, o uso das estradas e a poluição emitida pela gasolina, as pessoas dirigirão menos. Há muitas formas de fazer isto. Em termos individuais, as pessoas também podem romper hábitos: parar de dirigir pode ser muito gratificante”.
Essa mensagem colide frontalmente com a imagem que se oferece acerca da direção nos anúncios: estar ao volante é sexy, prazeroso, relaxante e cool. Uma ideia que nos foi transmitida durante décadas por um lobby, o do motor, que continua tendo uma imensa capacidade de influência.
Para Knowles, esse poder “diminuiu, embora ainda exista”. E dá um exemplo: “Existe tecnologia para obrigar os carros a obedecer automaticamente o limite de velocidade, mas uma lei da União Europeia que estabelecia esse modo como preestabelecido para os carros novos foi dissolvida, após a pressão da indústria. Agora, precisa ser ativado. E quem decide que o seu carro seja mais lento? Bem poucos motoristas”, lamenta.
Dito isso, é possível imaginar um futuro sem carros ou, ao menos, com bem menos nas ruas? “Não acredito que nos livraremos completamente do carro. De fato, é uma invenção muito útil – lembra Knowles –, mas acredito que podemos chegar a uma situação em que a maioria das pessoas não tenha a posse de um carro e alugue um quando realmente precisar: para transportar algo grande e pesado ou para fazer uma viagem”.
“Quanto a reduzir o número deles... Penso que é algo que já está acontecendo em algumas cidades europeias, onde a presença dos carros diminuiu. O resultado é que as pessoas podem se deslocar mais rápido e melhor do que antes; o ar fica mais limpo e as pessoas mais saudáveis. O desafio é transferir esse tipo de planejamento urbano das grandes cidades para as redondezas e outros lugares onde o carro continua sendo o rei. Devo dizer que sou bastante otimista a esse respeito”.
Essa sensação de ver o copo meio cheio é talvez a que permanece após fechar o livro. Finalmente, estamos a tempo de repensar a forma como nos deslocamos e, em última instância, determos o autocalipse.