29 Março 2025
Alerta de spoiler: O artigo a seguir discute uma reviravolta crítica na trama do filme Conclave.
A reportagem é de Ariell Watson Simon, publicada por New Ways Ministry, 28-03-2025.
“Este silêncio em torno das vidas intersexuais reflete o segredo em lugares de poder – como o Vaticano”, escreve o cineasta intersexo Pidgeon Pagonis discutindo os temas queer do filme vencedor do Oscar Conclave em um ensaio da revista Atitude.
Pagonis era uma adolescente, frequentando uma escola católica só para meninas em Chicago, quando a disgnosticasram com Síndrome de Insensibilidade Androgênica e passou por cirurgias extensas quando era bebê. “Essas descobertas abalaram meu mundo – e não de um jeito bom”, lembra Pagonis. “Assim como aquela reviravolta em Conclave abalou o público”.
Em um momento culminante do filme, o papa recém-eleito, Cardeal Benítez, revela ser intersexo. Pagonis diz: “É incrível como algo tão natural e prevalente como pessoas intersexo – cerca de 2% da população nasce intersexo a cada ano — ainda é mantido em segredo a ponto de provocar suspiros audíveis no cinema. É como se nossa compreensão do desenvolvimento sexual nunca tivesse tido permissão para se formar no ensino fundamental”.
Pagonis ressalta que as intervenções médicas para crianças intersexo são frequentemente cercadas por um ar de segredo, uma espécie de "conclave":
“Assim como os cardeais tomam decisões que alteram a vida de mais de um bilhão de católicos a portas fechadas, também os cirurgiões e médicos tomam decisões irreversíveis sobre crianças intersexo – sem consentimento, envoltas em segredo, motivadas pelo medo e pela instabilidade”.
Intervenções médicas como aquelas praticadas em Pagonis na infância estão “forçando [um corpo intersexo] a uma única categoria em vez de permitir que ele exista no meio”, eles dizem.
Os temas do Conclave enfatizam a necessidade de espaço no meio termo, especialmente com relação ao gênero. Em um discurso poderoso, o personagem Cardeal Thomas Lawrence (interpretado por Ralph Fiennes) admoesta seus irmãos cardeais sobre o pecado da certeza. “A certeza é o inimigo mortal da tolerância”, ele diz. “Nem Cristo tinha certeza no fim”.
Pagonis convida os espectadores a confrontarem suas certezas sobre gênero. Escreve: “A fé cristã está enraizada na incerteza, confiando na crença no que não pode ser visto. Gênero não é muito parecido?” E sugerem que o personagem intersexo Benítez representa Cristo no filme. A ambiguidade de gênero de Benítez é uma parte importante desse retrato, remontando às primeiras representações cristãs de Cristo “como masculino e feminino”.
Apesar desses temas e pontos de enredo abertamente queer, a palavra "intersexo" nunca é realmente falada diante das câmeras em Conclave. Pagonis vê o filme como "uma oportunidade perdida" para aumentar a visibilidade intersexo. Escreve:
"Finalmente chegamos à tela grande, mas nosso nome nem sequer é falado. É uma oportunidade perdida. O mundo precisa saber sobre as injustiças que as pessoas intersexo enfrentam. E, pela primeira vez, tivemos o palco. Mas, em vez de abrir as portas, o Conclave as deixou trancadas".