20 Março 2025
A Inteligência Artificial (IA) está a obrigar-nos a pensar no que é específico em se ser humano. A constatação é do padre jesuíta Afonso Seixas Nunes, professor na Faculdade de Direito da Universidade de Saint Louis, Estados Unidos da América, que participou no sábado, dia 15, em Braga, no Auditório Vita, na iniciativa Praça Central, promovida pela Conferência Nacional das Associações de Apostolado dos Leigos (católicos).
A informação é publicada por 7Margens, 16-03-2025.
Subordinada ao tema “Fia-te nos algoritmos e não vivas… Desafios humanos na era da IA”, a jornada, em que interveio cerca de uma dezena de convidados, ofereceu variadas ilustrações dos contributos da IA em diversas áreas, deixou múltiplas dúvidas, enunciou riscos e desafios daquilo que se apresenta como mais do que uma ferramenta. No final, ficou evidente a ideia de que que não estamos numa época de mudança, mas numa dessas grandes mudanças de época da história da humanidade.
Curiosamente, houve um aplauso fora das ocasiões protocolares para, no período de perguntas e respostas, sublinhar uma afirmação do padre Afonso Seixas Nunes sobre o fato de Portugal estar a atravessar um nível de desautorização educacional sem precedentes, com os pais a discutirem com os professores as notas dos filhos. “Isto é inadmissível”, disse.
Paulo Novais, da Escola de Engenharia da Universidade do Minho, sustentou que “o futuro depende de como nós, humanos, vamos moldar esta tecnologia – se vamos usá-la para ampliar a nossa curiosidade ou se vamos tropeçar em dilemas que ainda nem imaginamos”, defendendo que “a arrogância do ‘mundo novo’” seja “temperada com a sabedoria do ‘mundo velho’”. Para o académico, devemos, em vez de resistir a uma mudança inevitável, “abraçá-la com ‘consciência’ e responsabilidade”, colocando a tecnologia ao serviço das pessoas. A afirmação foi assaz consensual, tendo o juiz desembargador Pedro Vaz Patto, presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, enfatizado, a propósito do uso da IA na Justiça, que não se deve delegar em máquinas o destino das pessoas.
“A IA faz o trabalho bruto, mas somos nós que apontamos o caminho”, disse Paulo Novais. Dito de outro modo: “A IA dá-nos os números, nós damos o coração”. Na sua intervenção, o académico não ignorou o impacto que a IA tem na sociedade e na economia. Ela pode ditar “o fim de muitos empregos e o incremento das desigualdades económicas”, com a “capacidade de automatizar não apenas tarefas manuais e repetitivas, mas também tarefas cognitivas e de tomada de decisão”. A IA também é susceptível de promover “a ilusão do conhecimento”, com a utilização de “artefatos que respondem a ‘tudo e mais alguma coisa’ com uma fluência extraordinária; criando a ilusão de facilidade e simplicidade na obtenção de conhecimento; não discutindo a veracidade associada a esse possível conhecimento, mas ignorando as tarefas associadas ao processo, nomeadamente a compreensão”. A IA é ainda causa de “bolhas de opinião”: “A normalização das opiniões, influenciada pelas redes sociais e pelos algoritmos [de IA], cria bolhas de opinião, limitando a exposição a perspectivas diferentes e dificultando o pensamento crítico”.
Para Paulo Novais, “o futuro é nosso e nós temos de o moldar com mãos firmes”. Afonso Seixas Nunes matizou um pouco: se os humanos são, com Deus, cocriadores, agora estão a criar instrumentos também cocriadores. O padre jesuíta deixou a dúvida sobre se ainda se vai a tempo de ser o humano a controlar a situação.
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