26 Outubro 2024
"Por sua seriedade recebeu inúmeros prêmios e títulos de doutor honoris causa. Não dava importância a estes reconhecimentos, pois se colocava sempre no seu lugar de origem, a pobreza e os pobres com os quais compartilhava a vida", escreve Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor.
Eis o artigo.
No dia 22 de outubro do corrente ano, morreu em Lima o iniciador da Teologia da Libertação com a idade de 96 anos, Gustavo Gutiérrez.
Era um entranhável amigo com o qual juntos, a partir dos anos de 1970, colaboramos para fazer uma teologia adequada à situação da América Latina, que é feita de injustiças sociais e de pobreza aviltante. Como para todo teólogo, o centro de sua indagação é Deus. Mas primeiramente Deus como experiência de vida em especial a partir do sofrimento humano e só depois como reflexão reverente.
O tema perturbador que sempre o acompanhou pela vida afora era o sofrimento. Ele mesmo sofreu de poliomelite ficando por anos em cadeira de rodas. Depois, operado, andava com dificuldade. Era pequeno, manco, atacarrudo, cara de índio quéchua e dotado de uma inteligência extraordinária, criativa, cheia de humor e de belas “trouvailles” como esta: "os políticos só pensam numa intenção, isto é, na segunda”.
Sua grande questão, com fundo biográfico, era: como compreender Deus diante do sofrimento do inocente; como compreender Jesus ressuscitado em um mundo onde as pessoas pela opressão morrem antes do tempo; como encontrar o Deus libertador em um mundo onde falta fraternidade e solidariedade?
A teologia não apenas concerne à vida eterna e ao Reino de Deus, mas oferece estímulos para melhorar a vida presente, especialmente a dos pobres e oprimidos, na convicção de que a vida eterna e o Reino de Deus começam já aqui na Terra. De mais a mais, o próprio Jesus histórico foi um pobre e não tinha onde pôr a cabeça. Daí que entende a teologia, segundo Gutiérrez, como “uma reflexão crítica da práxis histórica à luz da Palavra da revelação”.
O livro fundador de 1971 foi Teologia da Libertação: perspectivas. Curiosamente, neste mesmo ano, sem que nos conhecêssemos, eu escrevia Jesus Cristo Libertador; Juan Luis Segundo, no Uruguai, e Segundo Galea, no Chile, trabalhavam também numa perspectiva de libertação. Não nos conhecíamos mas ouvíamos um chamado, creio, que vindo do Espírito (Hegel diria do Weltgeist) e nós éramos apenas os meros microfones que realçavam o som desse chamado.
O eixo estruturador deste tipo de teologia é a opção não excludente pelos pobres, contra a pobreza e a favor da justiça social e da libertação, sempre se apoiando na tradição dos profetas e da prática do Jesus histórico. Bem afirmava Gustavo: ”Os pobres são os prediletos de Deus não porque são cristãos, religiosos ou bons, mas porque Deus, identificando-se com eles, é bom e misericordioso". O Deus vivo opta por aqueles que menos vida têm. Este é o fundamento teológico da opção pelos pobres, por sua vida oprimida e por sua libertação.
Homem profundamente espiritual, viveu com os pobres no bairro periférico Rimac de Lima. Dessa inserção nasceram quase todas as suas obras, especialmente Beber do próprio poço; O Deus da vida; A força histórica dos pobres; Onde dormirão os pobres; Em busca dos pobres de Jesus Cristo: O pensamento de Bartolomeu de Las Casas e outros mais.
Como outros teólogos da libertação sofreu incompreensões e perseguições, especialmente do cardeal de Lima, Cipriani, do Opus Dei, com a acusação de que seria uma teologia marxista. Essa ideia era reforçada pelo maior opositor, diria até, perseguidor da Teologia da Libertação, o cardeal Lopez Trujillo de Medellín. Essa acusação não se sustenta e sempre foi assacada contra todos, como a Dom Hélder Câmara, que colocam a situação dos pobres como vítimas de uma sociedade de injustiças e de exploração que demanda uma transformação histórico-social. Na América Latina se estendeu o conceito de pobre para os indígenas, os negros, as mulheres, pobres econômicos, culturais e de outra opção sexual. Assim surgiram as várias vertentes da Teologia da libertação. Para cada grupo específico, o seu método adequado e sua correspondente libertação.
Daí a libertação a partir da fé. Marx nunca foi pai nem padrinho da Teologia da Libertação como a acusam, sem fundamento, alguns ainda hoje. Sua inspiração se encontra nas fontes da fé cristã, nas Escrituras e na tradição de figuras como São Francisco de Assis, São Vicente de Paulo e outros que deram centralidade aos pobres.
Por sua seriedade, recebeu inúmeros prêmios e títulos de doutor honoris causa. Não dava importância a estes reconhecimentos, pois se colocava sempre no seu lugar de origem, a pobreza e os pobres com os quais compartilhava a vida.
O Papa Francisco o recebeu em Roma como gesto de reconhecimento de sua reflexão com uma riqueza para toda a Igreja. Ao ser enterrado, o Papa enviou esta curta mensagem: ”Hoy pienso a Gustavo Gutiérrez, un grande, un hombre de Iglesia que supo estar callado cuando tenía que estar callado, supo sufrir cuando le tocó sufrir, supo llevar adelante tanto fruto apostólico y tanta teología rica. Que en paz descanse”.
Nós que o conhecemos no seu trabalho e no seu dia a dia testemunhamos que viveu e morreu com claros sinais de santidade pessoal. E guardaremos muita saudade dele.
Leia mais
- Pai da Teologia da Libertação, um homem pequenino com um legado gigante, morre aos 96. Artigo de John L. Allen Jr
- “O Papa é um 'kairós' que ninguém esperava, um grande dom”. Entrevista com Gustavo Gutiérrez
- Faleceu o pai da Teologia da Libertação, Gustavo Gutiérrez
- Os 95 anos de Gustavo Gutiérrez
- Gustavo Gutierrez: servidor dos pequenos e teólogo da libertação. Artigo de José Oscar Beozzo
- Gustavo Gutiérrez, pai da teologia da libertação
- Congresso Continental de Teologia. Concílio Vaticano II e Teologia da Libertação em debate. Revista IHU On-Line, Nº. 404
- Teologia da Libertação. Revista IHU On-Line, Nº. 214
- Gustavo Gutierrez: servidor dos pequenos e teólogo da libertação. Cadernos Teologia Pública
- A Igreja peruana exalta Gustavo Gutiérrez: “Ensinou-nos a ver a realidade com os olhos dos pobres”
- Taizé: uma parábola de reconciliação para um mundo dilacerado. Artigo de Gabriel Vilardi
- “Pobres são aqueles que não têm o direito de ter direitos”: o Padre Gustavo Gutiérrez em conversa com Andrea Riccardi
- O Vaticano levanta definitivamente o veto a Gustavo Gutiérrez
- Gustavo Gutiérrez defende que se declare São Romero ''doutor da Igreja''
- Aos 90 anos, mais um reconhecimento a Padre Gustavo Gutiérrez
- Duas cartas em favor de Gustavo Gutiérrez
- “O Papa é um ‘kairós’ que ninguém esperava, um grande dom”. Entrevista com Gustavo Gutiérrez
- Gustavo Gutiérrez: “O compromisso com o pobre não pode evitar a denúncia das causas da pobreza”
- Gustavo Gutiérrez: “Apenas quando formos amigos dos pobres, teremos nos comprometido com eles”
- Compreender a pobreza. Artigo de Gustavo Gutiérrez
- Gustavo Gutiérrez avalia atualidade da Teologia da Libertação e o papado de Francisco
- “Teologia da Libertação em Tempos Excepcionais de Crise e Esperança”. Ameríndia apela à reflexão face à pandemia
- Papa enaltece padre pioneiro da Teologia da Libertação argentina
- Teologia da Libertação: o que significa no contexto atual?
- A força dos pequenos: a Teologia da Libertação
- Quarenta anos de "Jesus Cristo Libertador"
- Não basta ser bom, há que ser misericordioso. Artigo de Leonardo Boff
- Enquanto houver pobres, haverá Teologia da Libertação. Entrevista com Pablo Richard
- O êxito das teologias da libertação e as teologias americanas contemporâneas.
- Uma vida em meio ao pobre. Artigo de José Oscar Beozzo
- A "Igreja em saída" de Bergoglio: adesões e resistências do clero brasileiro. Entrevista especial com Oscar Beozzo
- Teologia da Libertação ou da Prosperidade? Artigo de Gianfranco Ravasi
- O futuro da Teologia da Libertação
- Teologia da Libertação e Teologia da Misericórdia