Cristianismo versus espiritualidade? Artigo de Andrea Grillo

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12 Agosto 2024

"Um dado é incontornável: pensar que cristianismo e espiritualidade seriam grandezas inversamente proporcionais parece-me muito arriscado, assim como pensar que a 'fé determinada' seria violenta, enquanto uma 'fé indeterminada' seria pacífica", escreve Andrea Grillo, teólogo italiano, em artigo publicado em sua página no Facebook, 08-08-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Certamente, o debate dos últimos dois séculos, envolvendo todas as famílias cristãs (ocidentais e orientais), tem em seu âmago uma grande correlação entre doutrina, disciplina e vida espiritual. Não há dúvida de que as diversas "escolas" (os beneditinos, os franciscanos, os jesuítas ou os salesianos) tenham interpretado essa relação de forma diferente. O mesmo se aplica à história da teologia protestante ou ortodoxa: as tendências "liberais" e as "dogmáticas" se entrelaçaram de muitas maneiras e com muitas perspectivas diferentes. É o que aconteceu por muitos séculos na história da Igreja, e praticamente desde o início.

Obviamente, a novidade nos últimos dois séculos foi o surgimento de uma "forma liberal de estado", que tende a pensar o sujeito apenas "universalmente". Essa grande novidade deu vazão a leituras "universalistas" (católicas?) da tradição, que tendem a tornar irrelevante toda mediação. Uma leitura estritamente "liberal" corre o risco de se basear apenas na relação imediata com Deus, ignorando toda mediação: da Igreja e também de Cristo. O desafio foi e continua sendo grande. Mas um dado é incontornável: pensar que cristianismo e espiritualidade seriam grandezas inversamente proporcionais parece-me muito arriscado, assim como pensar que a "fé determinada" seria violenta, enquanto uma "fé indeterminada" seria pacífica. Pode-se dizer também o exato contrário: que é justamente o ser humano, que confia apenas na consciência, que está pronto a tudo.

O confronto entre modernismo e antimodernismo no campo católico, e entre liberalismo e dogmática eclesial no campo protestante, deveria ter nos ensinado a compreender a necessidade de equilíbrio entre Palavra e experiência, sem jogar uma contra a outra de forma extrínseca. A referência a Jesus Cristo, que toda tradição cristã não pode evitar, impõe uma "espiritualidade cristã" e um "cristianismo espiritual", não a escolha entre espiritualidade e cristianismo. A referência ao "único nome" diante do qual se dobra o joelho não é um princípio de exclusão (mesmo que historicamente pôde se tornar), mas uma possibilidade real de resistir a falsas autoridades, diante das quais ficar rigorosamente de pé. A profecia é uma parte constitutiva de toda consciência espiritual. Caso contrário, corre o risco de ser um retrocesso burguês às evidências imediatas de um mundo pequeno demais. Pensar que a fé em Cristo gere violência, enquanto a meditação espiritual geraria paz, decorre de uma consideração abstrata da história.

Na história, cada linha de relação com a consciência, seja monoteísta, politeísta ou ateísta, gerou violência e promoveu reconciliações. A diferença entre monoteísmo e doutrina trinitária pode sugerir uma boa composição, de modo a não perder o plural nem mesmo em Deus. Mas isso exige uma reflexão interna à tradição cristã e dogmática, e não simplesmente um juízo externo, extrínseco e inevitavelmente aproximado. No entanto, é normal e inevitável que todos confundam como "conteúdo dogmático" um "dado cultural" e construam sobre ele uma teoria totalizante do ser humano. Talvez a doutrina trinitária, e sua forma moral e ritual, sirva justamente para evitar essa aceleração do juízo, que muitas vezes gera monstros, seja em sua versão dogmática como na sua versão liberal.

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