19 Junho 2024
A reportagem é de Paola Calderón, publicada por Religión Digital, 18-06-2024.
Quatro dias de debates, assembleias, ação cultural, iniciativas de ação, eventos autogeridos, um tribunal de mulheres e visitas tanto às comunidades indígenas quanto ribeirinhas testemunham a vitalidade de um processo que nasceu há 22 anos para impulsionar as lutas dos povos amazônicos.
"Nesses quatro dias convivemos, aprendemos e desenvolvemos um processo de discussão coletiva", afirmam. O resultado está registrado no mandato do XI Fórum Social Panamazônico.
Um documento de 14 páginas que apresenta as resoluções aprovadas pelas assembleias temáticas de acordo com os eixos propostos para reflexão: povos indígenas e amazônicos, a Amazônia e a Mãe Terra, alternativas aos extrativismos, comunicação para a vida na Amazônia e resistência das mulheres.
As demandas dos participantes incluem a ratificação e implementação do Acordo de Escazú, que faz parte do esforço de proteger a casa comum dos invasores e manter a luta por um mundo onde os territórios dos povos se autogovernem, guiados por uma democracia comunitária fundamentada no acesso à informação, participação e busca por justiça.
É a necessidade de um mundo onde a Amazônia e toda a natureza sejam reconhecidas como sujeitos de direitos e onde a desigualdade entre homens e mulheres seja eliminada. Da mesma forma, falam da necessidade de que a população LGBTQI+ goze de plena cidadania e que os povos possam exercer livremente suas culturas, espiritualidades ancestrais e identidades étnicas.
"Nenhum governo pode arrogar-se o direito de falar em nosso nome", alertam. Assim, diante do fracasso das negociações climáticas, o XI Fórum Social Panamazônico defende a construção de um acordo pela vida, que permita enfrentar o colapso climático e ecológico que o planeta enfrenta.
"Desde a Panamazônia, fortalecemos nosso compromisso de lutar pela humanidade e pelo planeta", garantindo nossa adesão aos que sofrem os efeitos do momento ameaçador que o planeta vive. "Estamos ombro a ombro com a luta dos povos indígenas, quilombolas, negros raizais, afrodescendentes, povos tradicionais e camponeses da Amazônia, dos Andes e do mundo inteiro", declaram.
Esta edição do Fórum Social Panamazônico, realizada em Rurrenabaque - Bolívia, reuniu mais de 1200 pessoas das delegações do Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela e do país anfitrião.
Um esforço ao qual se uniram representantes de organizações e movimentos nascidos ou não na Panamazônia, que se identificam com as lutas dos povos e as apoiam permanentemente além de religiões e tendências políticas.
Conscientes da sombria situação atual, os participantes do fórum social alertam sobre as implicações das "guerras, fome e desastres climáticos", que consideram ser "processos que se alimentam mutuamente, ampliando a crise sistêmica do capitalismo".
Da mesma forma, criticam a geração de "soluções falsas conhecidas como projetos verdes", que, em sua opinião, "alimentam uma nova onda de exploração predatória da natureza e desapropriação dos povos". Do ponto de vista político, estão preocupados com fenômenos como o recrudescimento da extrema direita, o fascismo, o patriarcado, o racismo e os fundamentalismos.
Nesse sentido, referem-se aos regimes democráticos da América Latina que apresentam tendências que se pensava estarem superadas e se expressam em ações criminosas como ataques aos direitos humanos, perseguição, assassinato de seus defensores ou criminalização.
Dramas que são próprios de nosso continente, mas que também ocorrem em outras partes do mundo por diferentes motivos, causando as mesmas dores na população civil. "Um mundo onde a cultura seja a principal promotora da harmonia e solidariedade" é o desejo dos participantes do XI Fórum Social Panamazônico, algo que os impulsiona a se mostrarem solidários com outras realidades do mundo. "Manifestamos nossa total solidariedade ao povo da Palestina, exigimos o fim do genocídio e lançamos nosso grito de Palestina Livre!".
Da mesma forma, expressaram sua solidariedade com os povos que ainda sofrem os efeitos de um colonialismo que lhes impede cultivar e transmitir suas raízes. "Somos solidários com todos os povos que lutam contra a dominação colonial, especialmente com o povo canaco no Pacífico Sul, o povo Saharaui na África; e na Amazônia, exigimos que a Organização das Nações Unidas (ONU) coloque novamente a Guiana Francesa na lista de territórios a serem descolonizados, reconhecendo os povos indígenas e suas autonomias".
Para o XI Fórum Social Panamazônico, "não há soluções se os povos não forem consultados", insistindo que é essencial que em espaços como conferências mundiais sobre mudança climática e biodiversidade, os movimentos e povos tenham livre acesso às deliberações e capacidade de apresentar suas propostas e alternativas para que sejam devidamente consideradas.
"Estamos certos de que estas palavras e o sentimento que vivemos aqui iluminarão nosso caminho e serão mandatos para impulsionar as iniciativas e lutas de nossos povos", afirma o mandato que abre caminho para as prioridades emergentes em cada tema e que merecem uma nova análise.