Em Gaza, está em jogo o que somos. A crise de identidade do Ocidente

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26 Janeiro 2024

"O único estado no qual hoje os palestinos podem depositar suas últimas esperanças é um país não-ocidental (na verdade, antiocidental, de acordo com os comentaristas italianos): a África do Sul. Pode ter sucesso Pretória onde os estadunidenses e os europeus até agora falharam? Talvez", escreve Guido Rampoldi, em artigo publicado por Domani, 25-01-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Quais são “os nossos valores”? São conciliáveis com o que está acontecendo com aos civis palestinos? E se não for, a passividade é a única opção viável?
Há cerca de vinte anos, na Itália, “os nossos valores” vem sendo o refrão entoado pelos grandes partidos e pelos grandes jornais sempre que surge a oportunidade. Quais seriam esses valores permanece algo não especificado, mas se assume que tenham a ver com a democracia e com o Ocidente em geral. E já que por “democracia” entendemos “estado de direito liberal”, segue-se que os direitos humanos, que são um fundamento do estado de direito liberal, sejam parte constitutiva da identidade ocidental e italiana.

Mas agora acontece algo que leva o mundo a duvidar dessa geografia. O único estado no qual hoje os palestinos podem depositar suas últimas esperanças é um país não-ocidental (na verdade, antiocidental, de acordo com os comentaristas italianos): a África do Sul. Pode ter sucesso Pretória onde os estadunidenses e os europeus até agora falharam? Talvez.

O processo

A Corte Internacional de Justiça levará algum tempo para decidir sobre a acusação de genocídio levantada contra Israel, mas está ao seu poder ordenar ao governo de Netanyahu que pare a ofensiva. Em tal caso, Israel terá que levar isso em consideração: reconhece aquele tribunal da ONU (e de fato concordou em defender-se) e caso desobedecesse, ou fingisse obedecer, provavelmente colocaria em risco suas chances de uma absolvição.

Quer esse seja o resultado ou não, a iniciativa sul-africana desmentiu a crença que considera o direito humanitário um instrumento neocolonial do Ocidente. Com Pretória se alinharam cerca de cinquenta países, incluindo democracias latino-americanas, quaisquer tenham sido as suas motivações. Ao lado de Israel, os três pesos pesados ocidentais: EUA, Alemanha, Grã-Bretanha. Silenciosos e neutros são os países que têm motivos para temer a justiça humanitária (China, Índia, Rússia), mas também os europeus, Itália incluída.

Segundo a imprensa italiana, a acusação de genocídio é ultrajante, sem fundamento, inspirada por animosidade ideológica, por antissemitismo. De acordo com alguém que fala com conhecimento de causa, o jurista estadunidense Kenneth Roth, é “imperfeita, mas persuasiva”, e poderia vencer, prevê no The Guardian. Filho de judeus europeus que sobreviveram ao Holocausto emigrando para os EUA, Roth foi diretor por muito tempo da ONG de direitos humanos mais respeitada, a Human Rights Watch (HRW).

Ele acompanhou o debate em Haia e está convencido de que as 84 páginas apresentadas pelos sul-africanos contêm erros e exageros, mas não tão graves quanto a incapacidade da defesa em explicar por que Israel bombardeia também áreas para onde atrai a população ao defini-las como “seguras” e por que sabota as tentativas de tentar remediar à crise humanitária na Faixa.

Credibilidade comprometida

Ao não condenarem essas práticas, europeus e estadunidenses correm o risco de se prejudicar. No mínimo poderiam comprometer a sua credibilidade e com isso o seu soft power, ou seja, a capacidade de persuadir, convencer, influenciar as classes dirigentes e as novas gerações. Bem ou mal, o prestígio residual dos ocidentais deve muito à ideia de que eles valorizam os direitos humano, apesar de mil ambiguidades. Se isso parecesse uma ilusão, se beneficiariam apenas aqueles que incitam a odiar o Ocidente e a democracia.

Esse perigo é maior junto às opiniões públicas árabes, já agora ressentidas e decepcionadas, revela um levantamento do Centro Árabe de Pesquisa e Estudos Políticos realizado em 16 países. A maioria dos entrevistados (94 por cento) considera que a política dos EUA tem sido ruim ou péssima; de 75 a 79 por cento que tem sido negativa a política da França, Grã-Bretanha e Alemanha; 92 por cento que a questão palestina deveria envolver todo o mundo árabe (76 por cento em 2022); apenas 13 por cento que a paz com Israel ainda seja possível a esse ponto.

Uma parte da amostra provavelmente aproveitou a oportunidade para expressar sentimentos de outra forma proibidos, ou seja, hostilidades para com seus respectivos regimes, que quase todos mantêm boas relações com os ocidentais e com o estado judeu (agora 68 por cento dos sauditas se opõem à normalização das relações com Israel: eram 38 por cento em 2022) e até agora haviam permanecido imóveis e circunspectos.

Eles estão secretamente felizes que o Hamas pague, mas usam as suas mídias para favorecer a raiva anti-israelense e antiocidental, para evitar tornar-se também um alvo. Em decorrência disso, provavelmente, os inquietantes 64 por cento dos entrevistados que definem o pogrom do Hamas como um ato legítimo de resistência. No entanto, 27 por cento leem nele aspectos criticáveis ou odiosos, uma percentagem notável quando se considera que a informação árabe deixou de relatar as infâmias infligidas a civis indefesos israelenses.

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