Bênção de casais homossexuais: “O amor de Deus derruba qualquer sistema”. Entrevista com Godehard Brüntrup

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03 Janeiro 2024

O Papa permite a bênção de casais homossexuais fora dos ritos litúrgicos. De onde vem essa mudança de opinião? O jesuíta e professor de filosofia Godehard Brüntrup aponta as motivações.

Godehard Brüntrup, de 66 anos, é professor na Hochschule fur Philosophie, em Munique, com especialização em metafísica, filosofia do espírito e filosofia da linguagem, autor de vários livros, entre os quais Philosophie des Geistes. Eine Einfürung in das Leib-Seele-Problem (Kohlhammer, 2018) e Metaphysik. Eine Einführung, publicado juntamente com Mathias Rugel (Kohlhammer, 2024). Nos EUA foi também confessor do presidente Joe Biden.

A entrevista é de Andreas Öhler, publicada por Zeit Online, 27-12-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Brüntrup, o senhor ensina filosofia nos EUA e na Alemanha e conhece o mundo do pensamento dos jesuítas, dos quais o Papa também faz parte. O mundo católico ficou surpreso com o documento do novo prefeito da Congregação da Fé, Cardeal Víctor Manuel Fernández: em entendimento com o Papa Francisco, “os casais em situação irregular e os casais de pessoas do mesmo sexo” de agora em diante podem ser abençoados pela Igreja. Esperava por isso?

Não posso responder a essa pergunta nem com um claro sim nem com um claro não. Não me surpreendeu completamente, porque essa declaração está totalmente na linha teológica do papa. No entanto, me causou surpresa o fato de que agora tenha sido formulada de forma tão clara e aberta. Não esperava por isso.

Existe uma explicação?

Francisco está sob grande tensão. Por um lado, o pressionam as forças liberais progressistas que buscam uma Igreja à altura do século XXI. Por outro lado, especialmente nos EUA, onde eu vivo, existem correntes até muito fortes que tendem exatamente ao contrário. Para eles o Papa é demasiado liberal. Prefeririam orientar-se para trás, para o antigo rumo do seu antecessor Bento XVI. Durante todo o período do seu pontificado, Francisco tentou estar ao serviço de ambas as partes. E isso muitas vezes levou a um slalom – com impulsos ora para um lado, ora para o outro. Não quero criticá-lo. Realmente não é fácil manter unida uma Igreja que tende para direções opostas.

Slalom? Eu diria mais uma orientação oscilante. Em fevereiro de 2021, o então prefeito do Dicastério para Doutrina da Fé, o Cardeal Luis Ladaria, sempre com o consenso do Papa, havia anunciado que não haveria bênçãos para casais do mesmo sexo ou pessoas não casadas. Então, é o chefe do dicastério quem dá a direção?

Não creio que tais decisões dependam do prefeito. Vejo mais a ambiguidade que reside no próprio Papa e ainda mais fortemente na Igreja. A Igreja Romana caracterizou-se por séculos pelo seu rígido sistema moral racionalista que se baseia em um definido direito natural. Esse sistema funciona sobre uma casuística finamente elaborada, uma filosofia moral que estabelece o justo comportamento para todos os casos da vida prática com base numa rede de proibições. Essa maneira de proceder conhece apenas “Sim” e “Não”, preto ou branco. Contudo, na práxis pastoral são admitidos tons de cinza, essa é a ambiguidade.

Mas não é exatamente isso que a Igreja faz: reconhecer claramente a situação e dar um código de valores confiável e severo, que não se adequa ao espírito do tempo?

Sim, a beleza da Igreja Católica advém certamente também do fato de ela, mais do que outras religiões e confissões, ter construído tal edifício de doutrina. Mas, por outro lado, a sua construção de doutrina racionalista colide cada vez mais com a realidade. Por “racionalista” quero dizer feito de abstrações idealizadas. No âmbito pastoral sempre existiu uma dupla estratégia: distinguia-se entre o "foro interno” e o “foro externo”. No foro interno, ou seja, no âmbito privado, era permitido no caso individual desviar-se da norma ideal, quando a pastoral o exigia.

O que acontecia é que essas contradições internas da Igreja eram evidentemente conhecidas também externamente. Por outro lado, o Vaticano teria preferido um sistema perfeito para usar incondicionalmente. Mas isso não funciona se a Igreja quer tornar visível o amor incondicional de Deus também para aquelas pessoas que correspondem apenas parcialmente às exigências do sistema.

O Papa é seu coirmão. Ele é um jesuíta como o senhor. Há algo de conhecido, de familiar, na maneira como ele pensa e age?

Quanto ao modo de pensar jesuíta, você está no caminho certo. Os jesuítas foram criticados por séculos pela chamada moral jesuíta, que inclui precisamente a liberdade no caso individual de desviar da regra geral para se adaptar à multiplicidade das formas da realidade. Não é laxismo, é sabedoria. Nosso fundador, Santo Inácio de Loyola, desenvolveu nos exercícios três graus de conhecimento espiritual para alcançar um bom resultado em uma questão espiritual difícil. A avaliação racional está no nível mais baixo. Acima está um sentimento intuitivo, quando se imagine plasticamente e visualmente o caso com o coração. A forma mais elevada está no final, quando se recebe uma inspiração direta ou divina, como São Paulo no caminho de Damasco. Pode-se então aqui indicar precisamente a relativização de abstrações que, segundo Karl Rahner, estabelecem “a lógica do conhecimento existencial”.

Onde está o aspecto explosivo do ensinamento?

O esquema preto/branco do pensamento sistêmico agora apresenta falhas. Até agora a alternativa era a perfeição ou o pecado, nada no meio. A sexualidade deveria ser aceita apenas na sua forma perfeita: no casamento de homem e mulher pensado com vista à concepção. Todas as outras formas eram egocêntricas e luxuriosas e, portanto, pecado mortal. Se agora ao lado dos casais “irregulares” também se admitem casais homossexuais, a velha lógica, pelo menos como princípio, é ultrapassada.

Reconhece-se que mesmo nessas relações há algo de bom sobre o qual se invoca a bênção de Deus para que esse bem possa florescer e crescer ainda mais. Dessa forma a redução a sexualidade ao mero aspecto biológico foi superada em favor de uma compreensão dela como relação interpessoal. Uma abordagem construtiva. …que, no entanto, algumas forças conservadoras certamente veem como uma ameaça. Sem dúvida. Esse documento tem para eles consequências de ampla envergadura e de longo prazo. Os conservadores defensores do pensamento binário racionalista subirão nas barricadas. No final, aqui se trata de uma forma um pouco diferente de entender a Igreja, mesmo que o documento queira evitar essa impressão. A mensagem é clara: o amor de Deus derruba todo sistema, e a Igreja deve reconhecê-lo.

No documento há muita atenção para tranquilizar as alas conservadoras: “Essa declaração não admite qualquer tipo de rito litúrgico ou bênçãos semelhantes a um rito litúrgico que possam criar confusão".

Naturalmente, existem limites inseridos nessa declaração. É claro que eu consideraria ingênuo pensar que esse documento seja um deslize liberal do papa. Os hábitos pastorais em nível local e pessoal agora mudarão. Para isso não há necessidade nem de mudanças autorizadas pelas autoridades conferências episcopais.

O que significa?

O texto apresenta a justificativa para a bênção um pouco como se fossem só poucas pessoas quem realmente são envolvidas. Veja o caso: um casal homossexual apaixonado chega mais ou menos por acaso numa igreja pitoresca. Fica impressionado espiritualmente e espontaneamente pede uma bênção. Algo assim poderia muito bem acontecer. Mas o efeito desse texto irá muito mais longe. Desenvolver-se-ão, crescendo de baixo para cima, tradições e ritos nos quais essas bênçãos sejam efetuáveis.

Por que o Vaticano minimiza esse passo?

Talvez tanto o prefeito como o papa não queiram conscientemente fixar uma forma definida, para não cair novamente sob o jugo de generalizações precipitadas, que deixariam bem pouco espaço à ação salvífica individual de Deus com o seu amor incondicional. Foi aberto um espaço de possível desenvolvimento. Essa pequena admissão de bênçãos não é exatamente aquilo que provavelmente muitos esperavam. Mas é a semente de uma mudança de paradigma, que agora pode brotar ou murchar.

Então o balanço do Papa Francisco como reformador não seria tão decepcionante como muitos pensam.

Se eu considerar o pontificado do atual papa jesuíta, também não vejo em nível da dogmática nem transformações grandiosas nem propostas de reforma. Mas o que ele realmente mudou foi o clima na Igreja – no sentido de que, por exemplo, um bispo pode dizer algo crítico sem temer que haja algum dano para ele. Uma defesa do presbiterado para as mulheres não significa mais automaticamente o fim de uma carreira eclesial. Há na Igreja uma nova liberdade do medo que não existia com Joseph Ratzinger. Após a publicação do documento sobre a bênção, os padres podem seguir a sua consciência com mais liberdade. A bola agora passa para o lado daqueles trabalham no campo.

O caminho sinodal alemão na sua sessão de primavera expressou-se com impressionante maioria a favor da nova práxis da bênção. O Vaticano mostrou-se irritado. Sem os alemães, esse documento teria aparecido?

Para quem olha as coisas de fora é difícil dizer. Mas posso imaginar que também seja uma reação ao caminho sinodal alemão. O que é levado muito a sério no Vaticano, caso contrário não se explicariam as reações um tanto exageradas de Roma do ponto de vista dos conteúdos e da retórica.

As constantes cartas inflamadas de estudiosos e dignitários conservadores alertando que se estaria iniciando um novo cisma, destacam a eficácia do caminho sinodal. Falávamos antes de uma linha de slalom ou de oscilações de Roma. Podemos definitivamente supor que essa recente oscilação em sentido liberal também seja uma reação ao processo sinodal na Alemanha e na Igreja universal.

Um novo papa poderia reverter esse passo?

Em linha de princípio, sim. Exceto que um papa vai evitar fazer isso. No Vaticano, não agrada mudar de ideia. Mas justamente esse documento atual muda muito concretamente uma opinião que ainda duas décadas atrás era apresentado de forma ofensiva. É até um pequeno apoio à possibilidade de um maior desenvolvimento e mudança da doutrina. É também por isso que é historicamente importante.

Os bispos que são contrários à abertura sempre evocam a Igreja universal que não irá colaborar. Existe efetivamente algo nesse sentido?

De muitos discursos de padres e bispos católicos africanos que sobre outras questões são até liberais, sei que sobre a questão da homossexualidade estão completamente na linha tradicional. Posso, porém, imaginar que essa nova práxis de bênção em breve se consolidará também na África. O documento abre espaços, nem todos irão utilizá-los.

Que importância assume esse documento na história da Igreja?

Acredito que entrará nos anais não como uma revolução, mas como um desenvolvimento importante. Marca uma abertura. A Igreja certamente precisa do sistema racional como ideal e orientação. Contudo, vemos também que se absolutizarmos o aspecto sistemático com todas as suas abstrações, não podemos acolher a grandiosa plenitude da ação divina, do amor divino. A teologia e até mesmo o magistério são, portanto, sempre também uma crítica de abstrações.

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