Padres para uma Igreja em saída

Sacerdócio (Foto: Sebbi Strauch | Unsplash)

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22 Agosto 2023

"A mudança de época que estamos vivenciando, lembra o Padre Enrico, 'exige que a Igreja repense profundamente suas práticas e estruturas. Até o ministério ordenado é chamado a se redefinir de maneira descontínua em relação ao modelo tridentino secular, que traçou muitos e importantes caminhos de reforma no século XVI", escreve Emanuele Tupputi, sacerdote da arquidiocese de Trani-Barletta-Bisceglie e doutor em direito canônico pela Pontifícia Universidade Urbaniana. Na diocese é vigário jurídico do Tribunal Eclesiástico, chefe do serviço de acolhimento de fiéis separados e membro do Conselho Presbiteral, além de juiz do Tribunal Eclesiástico Regional de Puglia, em artigo publicado por Settimana News, 20-08-2023.

Eis o artigo.

O livro Preti per una Chiesa in uscita: ripensare il ministero nel contesto attuale (Messaggero Padova, 2023) procura aprofundar a mudança de época capturada há alguns anos pelo Papa Francisco.

Preti per una Chiesa in uscita: ripensare il ministero nel contesto attuale (Messaggero Padova, 2023) (Foto: Divulgação)

Este ensaio do Pe. Enrico Brancozzi, por meio de uma análise crítica e ousada, busca estimular uma reflexão adequada sobre a revisão do ministério ordenado e seu exercício, a partir das intuições apresentadas pelo Papa Francisco na exortação apostólica Evangelii Gaudium. Além disso, propõe um novo estilo e novas formas de missão para a Igreja atual.

A mudança de época que estamos vivenciando, lembra Enrico, "exige que a Igreja repense profundamente suas práticas e estruturas. Até o ministério ordenado é chamado a se redefinir de maneira descontínua em relação ao modelo tridentino secular, que traçou muitos e importantes caminhos de reforma no século XVI. O padre do século XXI enfrenta novos desafios: a necessidade de uma presença significativa em um mundo predominantemente secularizado e indiferente, uma nova concepção da relação entre natureza e cultura, um novo senso de pertencimento à comunidade cristã baseado em relacionamentos e não mais em critérios geográficos. Daqui surge o convite para adotar o paradigma missionário da Igreja em saída como referência para o nosso tempo".

Preti per una Chiesa in uscita é dividido em seis capítulos:

  • 1-. O ministério católico na longa tradição e nos desafios atuais

  • 2-. A sacramentalidade da Igreja como fundamento para recomeçar

  • 3-. Sinais de esperança para um novo começo

  • 4-. Novas figuras ministeriais seguindo o modelo da comunidade primitiva

  • 5-. Formação permanente dos padres, encorajar a vida comunitária, incentivar uma presença pastoral mais colegiada e compartilhada

  • 6-. Unidades pastorais - uma realidade em desenvolvimento.

A reflexão proposta é realmente estimulante e ajuda a compreender a mudança de época e a crise dos padres de maneira concreta, sugerindo concretude no estilo evangélico dentro de cada comunidade cristã, envolvendo novos ministérios. Nesse sentido, Enrico escreve: "A crise numérica dos padres não deve levar apenas a reduzir as presenças de forma racional, mas deve, em vez disso, incentivar a criatividade das pessoas, multiplicar os responsáveis, despertar um novo protagonismo dos leigos, especialmente das mulheres".

Com este texto esclarecedor e valioso, seu autor convida todos a se envolverem na ação pastoral, assim como no novo contexto cultural em que, como crentes, somos chamados a anunciar o Evangelho, a adotar essa eficácia evangélica, sendo provocados pelas vivências das pessoas a ter a coragem de mudar o que foi considerado ultrapassado e, assim, dar vida a uma comunidade renovada pela alegria de anunciar um Evangelho que pode ser inovador, desde que abandonemos o cômodo critério pastoral do "sempre foi feito assim".

Tudo isso requer coragem real para ousar, para mudar a mentalidade pastoral e ministerial, a fim de conectar melhor o sacramento da ordem, especialmente o presbiterado, ao restante da comunidade. Assim como também recuperar a dimensão da fraternidade e do presbitério dentro da Igreja local em uma dimensão missionária e corresponsável.

Um capítulo muito interessante é aquele em que Enrico dedica à importância da formação permanente do padre, vista como um lugar por excelência onde o padre pode expressar sua humanidade, suas ansiedades, suas preocupações, mas também suas alegrias e satisfações. Um lugar onde pode interagir com colegas de sua idade, mas também com diferentes gerações e até com leigos, a fim de evitar o perigo de uma formação setorizada ou voltada apenas para o intelectual e desconectada da realidade. Nesse contexto, é significativa a tentativa oferecida no ensaio de propor perspectivas (sem pretensão de ser exaustivo) para criar novas formas de integração entre pastores e comunidades batismal e eucarística.

O texto conclui com o capítulo dedicado às unidades pastorais como uma tentativa de formar comunidades presbiterais capazes de cuidar de um território mais amplo e fazê-lo de uma maneira nova, seguindo um caminho adotado por muitas igrejas europeias, e ao mesmo tempo, iniciar um processo de revisão da Igreja em um sentido mais sinodal e ministerial. Como observa o Pe. Enrico: "a unidade pastoral, longe de ser uma fórmula mágica para resolver todos os problemas, requer antes de tudo uma mudança de mentalidade, um caminho comum de colaboração e corresponsabilidade, uma nova comunhão entre padres, diáconos, religiosos e leigos... um novo modo de tornar a comunidade cristã mais impactante e evangelizadora em seu contexto".

Em conclusão, permito-me destacar como, em poucas páginas, o Pe. Brancozzi soube oferecer insights para reflexão, nos quais, com coragem, paciência e coração, proporcionou ideias instrutivas e esclarecedoras para uma nova concepção do sacerdote nesta mudança de época.

Através da leitura deste texto, compreende-se como a Igreja hoje necessita de padres adequados, dispostos a serem moldados pela Palavra de Deus, não paralisados pelo sagrado, mas impulsionados pela fé. Testemunhas de um amor que sempre inflama e transforma. Padres que não sejam guardiões de cinzas, mas de um fogo vivo que é a fé em Deus Pai, que deseja torná-los facilitadores de relacionamentos fraternos, capazes de gerar e não se entristecer com as expectativas terrenas. Capazes, enfim, de habitar este mundo, esta Igreja, e de serem "artesãos de comunidades missionárias, abertas, que... trilham os caminhos do nosso tempo" (cf. Papa Francisco, Discurso de 30-01-2021). Capazes de redescobrir os traços essenciais do nosso ser Igreja, daquela Igreja bela sonhada pelo Concílio, capaz de gerar discípulos-missionários e de ser sacramento de luz e esperança para o mundo. Uma Igreja que "habita na alegria, não esquece o amor que a criou e, superando a tentação do autorreferencialismo e da polarização, é apaixonada pelo seu Senhor e por todos os homens, amados por Ele; uma Igreja que é rica em Jesus e pobre em recursos; uma Igreja que é livre e libertadora" (cf. Papa Francisco, Homilia de 11-10-2022).

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