O sorriso do pároco idoso

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09 Junho 2023

Com a chegada do verão, muitas vezes teremos a oportunidade de constatar os danos causados ao nosso planeta. É hora de aliar essa confiança no futuro aos nossos esforços pelo planeta, por aqueles que o habitarão amanhã. O amanhã existe mesmo que eu não o habite mais da mesma forma que ontem. O nosso próximo habita o futuro.

O comentário é de Anne Soupa, biblista, escritora e cofundadora do Movimento Reformador da Conferência Católica dos Batizados Franceses, publicado por Garringues et sentiers, 05-06-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o comentário.

Gostaria de compartilhar com vocês esta anedota que nos chega de uma paróquia com um pároco muito idoso. “Um domingo recente”, conta-me a correspondente que a enviou, “durante a missa, o pároco consagrou o pão, depois parou... Vazio total! Imediatamente, sem qualquer concertação, toda a assembleia entoou em coro as palavras da consagração do vinho! O padre sorriu e a celebração retomou seu curso”.

Uma boa história, não é? A minha correspondente concluiu dizendo: "Porque devemos sempre lembrar que somos todos padres, profetas e reis". O que me comove nessa pequena história é o sorriso do idoso pároco. Ele poderia ter achado preocupante e humilhante aquela campainha de alarme do destino: uma frase que repete talvez há 40 ou 50 anos, a frase que está no cerne do seu ministério de padre, e ele a esquece! Poderia se rebelar, culpar a Deus por privá-lo do coração de seu ministério, acreditar que Deus o está perseguindo, que ele é um senhor cruel, como afirma o servo da parábola dos talentos que não fez o capital de seu mestre render frutos. Mas não, aquele homem não amaldiçoa a Deus, provavelmente nem pensa nisso. Pelo contrário, ele vê que Deus o leva a outro lugar. Isso me lembra as palavras de Galileu que tenta desviar seus acusadores para outro lugar sobre o movimento da terra: “Eppur si muove!”, ele lhes dizia. “Ah sim, minha cabeça está falhando!”, parece dizer o nosso pároco. Há momentos em que a evidência se impõe.

E submeter-se a ela não é decair, mas unir-se ao Senhor onde Ele está: na aceitação da realidade, às vezes dura e exigente.

É por isso que os judeus da época de Jesus pensavam que a afasia era o sinal de uma visão?

O evangelista Lucas lembra disso quando narra como Zacarias, o pai de João Batista, perdeu a palavra. O que o nosso pastor vê? É o seu segredo. Mas de uma maneira muito delicada, faz-nos repartir o fruto: sorri. Sim, aquele sorriso é realmente o que eu prefiro nesta pequena história. O pároco sorri às pessoas presentes que, repentinamente se deparando com um silêncio inesperado, rompem o silêncio para entoar as palavras da consagração do vinho.

Ele sorri porque Deus lhe deu paroquianos que podem fazer o trabalho em seu lugar. "Ainda bem, não sou indispensável, eles estão aqui!". A Boa Nova está no sopro dos paroquianos que passa pelas gargantas e ousa dizer palavras.

Pessoas corajosas... Em todo caso, diretas, simples, autônomas, conscientes do seu papel. Em suma, prontas. Já profetas, agora padres, amanhã reis? Ah, se muito mais párocos e paroquianos se parecessem com eles, não seria mais evidente a “transição” da Igreja para o seu futuro?

Obrigado, senhor pároco; obrigado paroquianos que intervêm. Vocês nos recordam, muito simplesmente, o que é a esperança cristã: por um lado, entregar-se com confiança ao futuro, por outro, estar sempre "em trajes de serviço". Essa história nos indica a nossa responsabilidade. Com a chegada do verão, muitas vezes teremos a oportunidade de constatar os danos causados ao nosso planeta. É hora de aliar essa confiança no futuro aos nossos esforços pelo planeta, por aqueles que o habitarão amanhã. O amanhã existe mesmo que eu não o habite mais da mesma forma que ontem. O nosso próximo habita o futuro.

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