Compreender a nova direita para poder combatê-la. Artigo de Raúl Zibechi

Fonte: Wikimedia Commons

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

07 Novembro 2022

“Parece-me errôneo opor democracia a fascismo (ou bolsonarismo, ou trumpismo, ou o adjetivo que preferir), pois a cultura política que essa direita encarna é filha das instituições e do modo de fazer política que chamamos de democrático”, escreve Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, em artigo publicado por La Jornada, 04-11-2022. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

É muito comum enfrentarmos novos desafios com atitudes e ideias nascidas em contextos anteriores que, portanto, não se ajustam às realidades emergentes. Algo semelhante acontece com a nova direita. Nós nos contentamos a classificá-la como fascista ou ultradireita, o que pode soar adequado em alguns aspectos, mas não é suficiente para entender o que ela realmente representa. Portanto, fica mais difícil neutralizá-la ou derrotá-la.

Acreditar que a nova direita pode ser podada com as instituições democráticas realmente existentes é uma utopia que nos desarma, por diversos motivos. O primeiro é que o Estado-nação foi sequestrado pelo 1% que o colocou a seu serviço. O segundo é que as instituições não querem e nem podem combater a nova direita insurgente, como demonstram, nesses dias, o braço armado estatal no Brasil.

Parece-me errôneo opor “democracia” a “fascismo” (ou bolsonarismo, ou trumpismo, ou o adjetivo que preferir), pois a cultura política que essa direita encarna é filha das instituições e do modo de fazer política que chamamos de “democrático”. Porque consiste em substituir a ação coletiva pela gestão de especialistas, substituindo o conflito de classes, cores de pele, sexos, gêneros e idades, por políticas públicas que relegam as pessoas ao papel de beneficiárias, em vez de sujeitos ativos.

A humanidade tem dedicado enormes esforços para canalizar os conflitos (dos político-sociais aos pessoais) pelos mais diversos caminhos, porque se empenhar em negá-los ou suprimi-los leva ao desastre social. Chegamos a acreditar que o conflito é anormal e destrutivo, quando na verdade a negação do conflito pode levar à barbárie, pois o conflito é o fundamento da vida e permite a emergência do novo, como sustentam Miguel Benasayag e Angélique del Rey, em Elogio del conflicto.

Voltemos ao Brasil. Em um artigo recente, sustenta-se que Bolsonaro não é conservador, mas um revolucionário de extrema-direita que articula forças emergentes e insurgentes presentes em nossa sociedade: religiosidade neopentecostal, estética do agronegócio e sociabilidade de perfil (Folha de S.Paulo, 1/11 /22).

Pertencer às igrejas pentecostais influencia o comportamento cotidiano, algo não alcançado pelos católicos, que parecem ignorar a vida concreta de seus fiéis. O partido neopentecostal Republicanos, frente política da Igreja Universal do Reino de Deus, governará a maior parcela da população e o estado mais populoso, São Paulo.

No Brasil, a força emergente da agroindústria, que deslocou econômica e culturalmente a indústria fabril e a centralidade da classe operária, tem uma estética própria, como sustenta Miguel Lago no mencionado artigo. “O rodeio se tornou a maior festa do país, e a música que mais toca nas rádios brasileiras é uma espécie de música country cantada em português.”

Essa cultura é acompanhada pelo porte de armas, é masculina e patriarcal, faz da força e do poder suas marcas de identidade e contrasta vivamente com a cultura operária dos anos 1970, quando nasceu o Partido dos Trabalhadores. Assim como a cultura operária estava ligada à teologia da libertação e às comunidades eclesiais de base, a cultura da pecuária anda de mãos dadas com as igrejas neopentecostais.

O antropólogo Jeofrey Hoelle, autor do livro Caubóis da Floresta, sustenta que na Amazônia a cultura do gado se sobrepõe à cultura da mata, que busca a conservação da floresta e defende os povos originários. Ele pesquisou a cultura do gado para entender a lógica desses produtores que fazem parte das bancadas do Triplo B: boi, bala e Bíblia, que somam uma parcela decisiva nos parlamentos brasileiros, nos últimos anos.

Hoelle conclui que os pecuaristas estão conscientes de que seu negócio é a maior fonte de poluição do país, mas possuem outra visão. Defendem o que chamam de pastagens limpas, que identificam com ordem e controle, ao passo que a floresta é vista como escuridão, natureza selvagem, sem valor, explica em extensa entrevista (Amazonialatitude.com, 17/11/21).

Em cada país e em cada região, a nova direita se apoia em situações particulares, mas tem algumas características comuns: rejeição à proteção do meio ambiente, ataque às mulheres, às diversidades e diferenças, ódio aos migrantes e às populações negras e indígenas.

A ultradireita só pode ser neutralizada colocando o corpo, sem violência. Não pelas instituições. Nesses dias de bloqueios de estradas, as torcidas de futebol mais uma vez demonstraram coragem e determinação, quando em grupos desfizeram bloqueios diante da passividade da polícia. Como sempre, aprendemos com os de baixo.

Leia mais