“Fundamentalistas de todos os tipos contra um Brasil laico e pluralista.” Entrevista com Marcelo Barros

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31 Outubro 2022

Para a população que se preocupa com a democracia, o meio ambiente e os direitos – dos pobres, dos trabalhadores, dos indígenas, dos afrodescendentes – a eleição desse domingo é a mais importante da história do país, desde o fim da ditadura. E o resultado, apesar de as pesquisas continuarem colocando Lula como favorito, ainda é bastante incerto.

Nesse contexto, um grupo de bispos, que assinam simplesmente como “bispos do diálogo pelo Reino”, lançou um apelo contra a reeleição de Bolsonaro, convidando o povo brasileiro a se posicionar entre dois projetos de país opostos – “um democrático e outro autoritário; um comprometido com a defesa da vida, a partir dos empobrecidos, outro comprometido com a economia que mata” – e denunciando a manipulação de Deus para fins eleitorais por parte do presidente e de seus seguidores.

E foi justamente sobre a importância do fator religioso, no contexto de uma campanha nunca tão tensa e violenta, que conversamos com o monge beneditino e teólogo da libertação Marcelo Barros, expoente de ponta da teologia do pluralismo religioso.

A reportagem é de Claudia Fanti, publicada em Il Manifesto, 30-10-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Como se explica o peso assumido nestas eleições pela questão religiosa?

Está vindo à tona da maneira cada vez mais clara aquilo que sempre marcou a nossa história desde os tempos da conquista: o caráter colonialista das instituições religiosas e seu apego obsessivo aos sistemas autoritários. Ainda nos anos 1960, a maioria das autoridades eclesiásticas apoiou os regimes militares contra o fantasma do comunismo. Nos nossos dias, não poucos padres e pastores usam os mesmos argumentos para apoiar Bolsonaro. Nada de novo debaixo do sol.

Com a teologia da libertação e o nascimento das comunidades eclesiais de base, foi proposto outro modelo de Igreja, mas foi sufocado pelos pontificados de João Paulo II e de Bento XVI. E agora colhemos os frutos daquilo que o Vaticano semeou. A novidade dessas eleições é que agora há uma disputa entre os católicos e os evangélicos pentecostais – que aumentaram em número e adquiriram uma maior visibilidade – para estabelecer no Brasil um novo regime de cristandade. Bolsonaro é apenas um instrumento dessa luta.

Atualmente, entre os 10 brasileiros mais ricos, estão dois pastores pentecostais: Edir Macedo, bispo-proprietário da Igreja Universal do Reino de Deus, e Silas Malafaia, líder de um ramo da Assembleia de Deus. Mas, entre os muitos ricos, há também alguns padres cantores que cobram mais de 100 mil reais por cada exibição. Está claro em quem eles vão votar. Para todos eles, a única coisa que importa é se o candidato será de utilidade para a Igreja e se apoiará os programas deles. O resto não tem importância.

Diante do imparável rio de fake news, Lula até se sentiu compelido a escrever uma carta ao povo evangélico para garantir seu pleno respeito por todas as religiões...

Em sua carta, Lula afirma, entre outras coisas, que o Brasil é um país laico e plural. Mas os fundamentalistas de todos os tipos não querem ouvir falar nem de laicidade nem de pluralismo. Dentro de muitas comunidades evangélicas e pentecostais, o clima é tão tenso e as pressões são tão fortes que muitas pessoas que pensam em votar em Lula preferem não dizer. São votos quase clandestinos. Mas a situação não é melhor nem mesmo em muitas paróquias e grupos católicos.

Os bolsonaristas que criaram incidentes no santuário de Aparecida e que atacam padres e bispos nas redes sociais digitais não são evangélicos ou pentecostais. São católicos. Nos últimos anos, no Brasil, consolidaram-se grupos como o Centro Dom Bosco, que agridem cotidianamente qualquer pessoa ou iniciativa mais aberta ou ligada ao Papa Francisco, à Conferência Episcopal e às pastorais sociais. O clero e a hierarquia católica não estão preparados para enfrentar essa dissidência. Muitas vezes, em resposta a tais ataques, eles se colocam no mesmo patamar do dogmatismo e da intolerância religiosa, revelando uma visão do cristianismo menos fechado, mas igualmente autoritário, com base em argumentos como “quem critica o papa deveria sair da Igreja” ou “se você não aceita o Vaticano II, você não é católico”.

O pluralismo cultural e religioso é algo desconhecido tanto aos bolsonaristas quanto a muitos dos nossos... No Brasil, quase todos os dias, alguma comunidade religiosa afrodescendente ou algum templo de candomblé ou umbanda são atacados. Os responsáveis são cristãos que praticam o racismo religioso e, além disso, em nome de Jesus.

De fato, nada menos do que a metade dos católicos votou em Bolsonaro há quatro anos. E pouco menos de 40% votarão nele novamente. Como isso pode ocorrer em um país onde a teologia da libertação e as comunidades eclesiais de base tiveram tanta importância?

A violação das reivindicações mais abertas e progressistas realizada pelo Vaticano desde os anos 1980 foi muito intensa. Por outro lado, em toda a América Latina, as realidades ligadas à teologia da libertação tentaram se inserir na Igreja tal como ela era, tornando-se assim dependentes das mudanças dentro da hierarquia eclesiástica. Dizia-se na época que, enquanto na Europa as comunidades de base levavam em frente sua crítica à instituição hierárquica como poder sagrado, na América Latina lutavam, sim, contra o sistema social e político, mas não contra a hierarquia eclesiástica.

Isso se explica pelo fato de que as comunidades podiam contar com grandes figuras de bispos proféticos. Mas, quando estes faleceram, as comunidades foram ignoradas ou até mesmo combatidas. E não estavam suficientemente educadas à transgressão evangélica.

Assim, do ponto de vista teológico, a superação das estruturas conservadoras e autoritárias da velha cristandade ainda está por vir. E, enquanto essas estruturas permanecerem, não será possível viver a fé como espiritualidade de libertação. Isso explica por que hoje no Brasil há padres e bispos que fazem propaganda a favor de Bolsonaro contra o comunismo e que negam a comunhão a um fiel que, por acaso, usa um broche vermelho do PT na camisa.

Quanto o fator ambiental realmente afeta o voto diante da devastação dos ecossistemas do país por parte de Bolsonaro?

Nestas eleições, a questão ecológica tem um peso eleitoral apenas para uma pequena minoria de brasileiros. A grande maioria das pessoas ainda não se deu conta da gravidade da situação. Não sei quantos padres e bispos realmente levaram a sério a encíclica Laudato si’. Muitas dioceses promovem a pastoral ambiental, mas esta permanece completamente marginal em relação à pastoral diocesana como um todo. A imensa população pobre tem um acesso limitado à discussão dos problemas ambientais. E a grande mídia não ajuda.

Se Lula vencer, encontrará um país fortemente polarizado. Ele será forçado a se deslocar para o centro?

A partir do momento em que Lula lançou sua candidatura, ele assumiu uma linha que poderia ser definida como de centro. Sua posição, aliás, sempre se inspirou no neodesenvolvimentismo, orientado essencialmente a elevar as condições de vida do povo, mas evitando qualquer conflito com as oligarquias e, portanto, incapaz de responder aos problemas estruturais do país. A população mais pobre envolvida todos os dias na luta pela sobrevivência custa a achar que votar neste ou naquele candidato pode fazer a diferença. A multidão de pessoas que passam fome, jogadas pelas calçadas das cidades ou tratadas como escravas no campo, estão distantes das discussões políticas. A maioria delas nem vota.

O Brasil que, em caso de vitória, Lula seria chamado a governar é mais conservador, mais desigual, mais elitista e mais dividido do que aquele com o qual ele se deparou quando, pela primeira vez, em janeiro de 2003, assumiu a presidência. A nossa esperança, nesse contexto, é que Lula vença, obtenha um mandato que lhe permita revogar os decretos e as medidas adotadas pelos governos de Temer e Bolsonaro contra os trabalhadores, os aposentados, os indígenas etc. e iniciar a discussão sobre uma reforma política que nos permita criar um novo pacto social.

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