Papa Francisco, quem será o próximo papa?

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01 Junho 2022

 

“Poderia Zuppi, portanto, ser candidato ao Papa Francisco? Dificilmente. Assim como o cardeal Luis Antonio Tagle, que o Papa chamou para ser prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, não é mais candidato a Papa. Assim como, afinal, não há candidatos latino-americanos que tenham genuína estima por parte do Papa Francisco, que também se sente traído pela forma como os casos de abuso no Chile foram tratados e pela forma como sentiu que os episcopados foram mornos em seus compromissos com ele em outros lugares”, escreve Andrea Gagliarducci, jornalista italiano, em artigo publicado por Monday Vatican, 30-05-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

Embora o Papa Francisco demonstre de toda maneira que ele ainda está firme no governo da Igreja, mesmo com seu declínio físico inevitável, há muito já se fala sobre o fim do pontificado, e nós estamos começando a procurar pelo seu sucessor. Nada novo, porque essa sempre foi uma prática padrão, e algo como isso já começou bem antes dos problemas de saúde de Francisco. No entanto, a questão parece estar sendo mais pressionada hoje, o que se certifica por artigos em jornais de grande reputação, como o francês Le Figaro.

 

Nós procuramos pelo pós-Francisco, portanto. Mas quem Francisco procura para assumir o pós-Francisco? Essa questão é menos trivial do que podemos imaginar. Muitos cardeais são considerados prováveis sucessores favoritos pelo papa, e todos têm sido regularmente descartados. Ao ditado “quem entra no conclave como possível papa sai certamente como cardeal” pode se adaptar “quem parece ascender com o Papa Francisco em breve cairá”.

 

Em anos recentes, as simpatias e antipatias do Papa tem flutuado. Alguns cardeais que eram particularmente influentes no começo do pontificado, deixaram de ser, repentinamente. O papado de Francisco não parece ter uma direção de governo, é sempre e somente o Papa quem decide. Os próprios secretários do Papa mudam, e ele se vê sem os chamados porteiros. As pessoas de confiança mudam, revezando-se em Santa Marta recebendo, afinal, apenas aquilo que o Papa dá. Ninguém tem autonomia genuína porque o Papa Francisco entra em todos os assuntos. O papado é administrado de maneira personalista, com súbitos colapsos de confiança.

 

Esta imagem leva a um evento chave da semana passada, ou seja, a nomeação do presidente da Conferência Episcopal Italiana. O Papa escolhe o presidente com base na proposta dos bispos, que apresentam uma lista tríplice ao pontífice. Na realidade, o Papa tem a liberdade de escolher mesmo fora dos três da lista.

 

Parecia evidente que o presidente in pectore do Papa era o cardeal Matteo Zuppi. A possibilidade de selecionar o arcebispo de Bolonha acabou sendo mais uma preferência da mídia do que papal. Porque o Papa, a certa altura, mudou decisivamente suas simpatias pelo cardeal Paolo Lojudice, ex-auxiliar da diocese de Roma e já em vias de se tornar o vigário do Papa para Roma.

 

Assim, Lojudice se viu duas vezes excluído da preferência papal. Quando se tratou de nomear seu vigário para a diocese de Roma, Francisco queria que houvesse um referendo entre todos os párocos responsáveis pelas unidades pastorais, os chamados prefeitos paroquiais. Todos sabiam que o Papa queria Lojudice. No entanto, 80% votaram no cardeal Angelo de Donatis, e o Papa não podia ignorar essa preferência.

 

Agora, o Papa Francisco deixou claro que teria preferido o cardeal Lojudice como presidente da CEI. Os bispos votaram com grande maioria no cardeal Zuppi, nomeação que já não era tida como certa há algum tempo, especialmente porque o arcebispo de Bolonha foi rapidamente incluído na lista de supostos “resistentes” pela atitude benevolente que teve para com os grupos que celebram a missa no rito antigo. Maliciosamente, rumores foram feitos para chegar ao Papa Francisco de que Zuppi era “um carreirista”, uma questão sobre a qual o Papa é sempre muito sensível.

 

No entanto, mesmo neste caso, o Papa teve que considerar a maioria dos bispos. Eles respeitaram formalmente as instruções do Papa (um cardeal autoritário), mas simplesmente sem fazer exatamente o que o Papa queria.

 

Poderia Zuppi, portanto, ser candidato ao Papa Francisco? Dificilmente. Assim como o cardeal Luis Antonio Tagle, que o Papa chamou para ser prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, não é mais candidato a Papa. Assim como, afinal, não há candidatos latino-americanos que tenham genuína estima por parte do Papa Francisco, que também se sente traído pela forma como os casos de abuso no Chile foram tratados e pela forma como sentiu que os episcopados foram mornos em seus compromissos com ele em outros lugares.

 

Afinal, não há candidato para o Papa Francisco, e não há mais regras estabelecidas. Os bispos residenciais têm as mesmas oportunidades que os bispos da Cúria. Não há critérios de idade. Não existe mais a tradição de que um presidente da CEI dificilmente se tornará Papa, assim como a maior possibilidade é para o prefeito de Propaganda Fide.

 

É um novo pontificado que não hesita em cancelar instituições milenares como a Câmara Apostólica e promulgar uma reforma da Cúria, que precisará de mais mudanças. Não há nada tradicional porque toda a programação está fortemente sujeita às decisões do Papa.

 

A verdadeira questão, então, é: os cardeais respeitarão as indicações de Francisco no conclave ou se considerarão livres? É uma questão que o Papa também vê desde Santa Marta, tanto que convocou um consistório para a criação de novos cardeais. O Papa criou 16 cardeais eleitores, temporariamente aumentando o número de cardeais eleitores (por poucos meses, haveria cerca de dez cardeais acima do teto de 120 estabelecido por Paulo VI) e, ao mesmo tempo, aumentaria em um conclave o peso dos cardeais que ele criou.

 

Mas a questão que fica é, em um conclave, o papa pode ter morrido, e ninguém mais estaria preso por laços. Então, quem será o papa que virá? É aí que as previsões se tornam problemáticas porque será difícil entender as prioridades dos cardeais para o futuro da Igreja.

 

De fato, a eleição do cardeal Zuppi para a presidência da CEI não será um fator prejudicial para sua consideração. Os cardeais vão olhar para quem eles conhecem, tentando avaliar se querem outro pontificado de natureza tão personalista.

 

Quer o Papa goste ou não, isso está sendo discutido em Roma. E assim, o pontificado do Papa Francisco está fortemente sob escrutínio. As consequências podem ser imprevisíveis.

 

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