Penitência e Páscoa: uma pequena história de luzes e de sombras. Artigo de Andrea Grillo

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15 Abril 2022

 

Se a dor do pecado se torna “recitar o ato de contrição”; se a confissão de culpa se torna uma “lista dos pecados habituais”; se as obras penitenciais se limitam a “dez Ave-Marias”, o envolvimento laborioso do sujeito, que o sacramento requer na sua essência, se esvazia de toda a relevância (não só antropológica, mas também teológica!).

 

A reflexão é do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em artigo publicado em Come Se Non, 13-04-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

É sabido que pelo menos na Páscoa muitos católicos sentem o dever e também o gosto de se confessar. Uma história muito longa associa a Páscoa à Penitência, muito antes da formulação da obrigação universal da confissão pascal, sancionada pelo IV Concílio de Latrão (1215).

Mas precisamente a associação da penitência com a Páscoa, ligada aos catecúmenos antes que aos penitentes, permite-nos hoje interrogar a tradição com aquela parrésia de que a própria tradição tem uma necessidade constitutiva.

Os dados a partir dos quais devemos partir são três:

a) O perdão do pecado é a grande experiência que se realiza, em cada homem e em cada mulher, na relação com Cristo, que o batismo, a crisma e a eucaristia realizam de modo eficaz. Graças a esse percurso de introdução no “corpo de Cristo”, cada homem e mulher é justificado e salvo, na fé, na esperança e na caridade.

b) Enquanto a eucaristia é para a repetição (anual, semanal ou cotidiana), o batismo e a crisma não se repetem. Esse é um fato evidente e muito antigo.

c) Se o cristão, que já provou a plenitude da justificação, cai em um pecado grave, encontra a possibilidade de recuperar a plenitude da comunhão mediante um procedimento penitencial que assumiu, a partir dos séculos VI-VII, a figura do sacramento que conhecemos hoje. Mas é preciso lembrar que “penitência” não indica apenas o sacramento, mas também a virtude que o cristão vive com base no seu batismo.

Essas três grandes verdades exigem alguns esclarecimentos, para que não se sobreponham. Em particular, acredito que deve ser aprofundada a natureza particular e “diferente” do quarto sacramento, em comparação com os três primeiros. Para evitar aquele que hoje é o risco maior: isto é, a redução do sacramento da penitência à “repetição do batismo”, a um batismo que se repete.

Precisamente sobre esse aspecto, é preciso fixar uma série de princípios, que escapam à percepção comum e às vezes até à prática pastoral:

1. O perdão, que em Cristo recebemos de uma vez por todas no batismo e que nos leva à vida de comunhão eucarística, pode entrar em crise pelos nossos comportamentos, que se tornam experiências amargas de pecado e alteram a nossa relação com Deus, com o próximo e com nós mesmos.

2. O dom gratuito, que já experimentamos na vida de comunhão, pode se renovar novamente, mas somente sob certas condições, que a tradição identificou nos “atos do penitente”, isto é, na resposta do coração, da boca e do corpo do pecador.

3. A diferença entre o batismo e o sacramento da penitência está precisamente nessa resposta necessária e livre que o pecador é chamado a cumprir no sacramento do perdão. No batismo, há uma experiência da graça operante, enquanto no sacramento da penitência há, ao mesmo tempo, graça operante e graça cooperante, ação de Deus e a ação do ser humano, como qualificadores do sacramento.

4. Por isso, uma redução do sacramento da penitência a “receber o perdão” (isto é, à graça operante) constitui um problema, porque tende a anular toda diferença entre batismo e penitência. De fato, corre o risco de transformar o quarto sacramento na repetição do primeiro. Mas esse é um caminho fechado, desde as origens da Igreja.

Os quatro pontos aqui relembrados referem-se, como é evidente, a uma questão delicadíssima, que não é simplesmente teológica (isto é, a definição sistemática do sacramento da confissão), mas pastoral.

Se pensamos que o sacramento da penitência consiste simplesmente na “absolvição de quem se confessou”, caímos em um erro que é facilitado pela “formalização” dos atos do penitente. Quanto mais a “dor pelo pecado”, a “verbalização do pecado” e o “trabalho de mudança de si” são reduzidos, esterilizados e estilizados, maior se torna o problema da justificação teológica do sacramento.

Se a dor do pecado se torna “recitar o ato de contrição”; se a confissão de culpa se torna uma “lista dos pecados habituais”; se as obras penitenciais se limitam a “dez Ave-Marias”, de fato o envolvimento laborioso do sujeito, que o sacramento requer na sua essência, se esvazia de toda a relevância (não só antropológica, mas também teológica!).

No fundo, está a questão profunda e que exige muito cuidado de identificar as “diferenças” entre os sacramentos. Em particular, as diferenças entre os sacramentos da iniciação e todos os outros. Para entender essa diferença, devemos reler bem dois textos da tradição:

a) O terceiro cânone de condenação do Concílio de Trento sobre os “sacramentos em geral” diz abertamente que é incompatível com a comunhão católica sustentar que todos os sacramentos são “da mesma dignidade”, salvaguardando assim a diferença da iniciação cristã de todo o restante da experiência sacramental.

b) A norma do IV Concílio de Latrão, que prescreve não a celebração apressada do sacramento da penitência no Sábado Santo para comungar no Domingo de Páscoa, mas sim o espaço de um caminho de penitência em vista da plenitude da comunhão eucarística pascal.

Se esquecermos o ponto “a” e reduzirmos o ponto “b” a uma norma positiva, corremos o risco de esvaziar a tradição e de perder a diferença entre o sacramento da penitência e o sacramento do batismo. O “preceito pascal” tem em si, na forma mais intensa, esse risco.

Por isso, o “modo” com o qual se propõe o processo penitencial corresponde à verdade daquilo que se apresenta como ato de recuperação de uma iniciação à fé, que é o verdadeiro lugar da experiência do perdão, do fazer penitência e do trabalho sobre si mesmo, sem os quais o sacramento da penitência, segundo as definições clássicas que a tradição deu sobre ele, corre o risco de se reduzir apenas a um flatus vocis.

Uma acurada transformação da “pontualidade do ato de absolvição”, que se repete sempre de modo igual, à “processualidade de um percurso” que toma forma para além de si mesmo na relação entre perdão e resposta, é a tarefa primordial da teologia e da pastoral, para sair de uma visão burocrática e formalista do sacramento da crise e da cura.

Dito em poucas palavras: o sacramento da penitência não pode nem durar poucos minutos, nem se fechar dentro do confessionário (e essas são duas das características clássicas do “preceito pascal” dos últimos séculos). O tempo oportuno e o lugar adequado são os símbolos desafiadores de uma grande oportunidade e de um verdadeiro desconforto: uma acurada revisão dos tempos e dos lugares é o primeiro passo para uma recuperação da grande tradição penitencial, da qual a vida dos homens e das mulheres precisa, contanto que não se reduza à garantia abstrata de uma “máquina de absolvições formais”.

 

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