O sonho do Vale do Silício acabou? Entrevista com Luciano Floridi

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29 Junho 2021

 

“The dream is over”, cantava John Lennon em um de seus discos de 1970. Título da música? God, nada menos do que isso. Um deus morto e enterrado junto com todas as suas manifestações terrenas – de Cristo a Elvis com Kennedy e Hitler no meio –, gritava o mais desiludido entre os barões da Rainha, depois de se despedir dos Beatles e de uma vida que nunca deixou de ser celebrada como ingênua, bela e fechada.

A reportagem é de Emilio Cozzi, publicada por Wired, 26-06-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Se ele ainda estivesse entre nós hoje, não se descarta que Lennon intitularia os mesmos versos – “The dream is over, o sonho acabou” – de “Internet”, justamente para ficar ao lado das divindades e seus substitutos. Longe das dicotomias – bênção do mundo ou fonte de todas as suas distorções? – é mais sensato entender o que resta, hoje, da terra prometida do Vale do Silício, aquele nirvana do ciberlibertarianismo que evoluiu, também, na mais refinada máquina de persuasão jamais vista, um Leviatã que engordou com “curtidas”, “influenciadores”, notícias mais ou menos falsas e desenvoltas invasões de privacidade.

 

Visão aérea do Vale do Silício (Foto: Patrick Nouhailler/Flickr)

 

É justamente isso que investiga o novo número da Wired nas bancas [italianas] a partir do dia 24 de junho: acabado o sonho e tendo se manifestado o grande engano, realmente ficamos só com as redes sociais entre as mãos? Realmente não se entreviu pelo menos uma alternativa ao paraíso prometido?

“Acho que o mito do Vale do Silício era justificado”, responde ele. Não Lennon, mas Luciano Floridi, professor de Filosofia e Ética da Informação na Universidade de Oxford e professor de Sociologia da Cultura e da Comunicação na Universidade de Bolonha.

“O Vale do Silício foi capaz de atrair curiosidades, talentos, financiamentos que pouco a pouco se especializaram em setores de alta qualidade tecnológica, com uma sinergia invejável. Foi um polo que reuniu algumas das melhores mentes do planeta. Porém, é ilusório acreditar que esse modelo seja repetível, o que não exclui que existam possibilidades de concorrência alternativa. Penso no Texas, ao qual hoje há um constante fluxo migratório de empresas e de pessoal ‘digital’, na região de Nova York, em Boston, mas também em Singapura ou naquilo que estamos tentando fazer hoje em Bolonha: estamos conseguindo ver sistemas mais distribuídos, nos quais é provável que não será mais verdade que uma região vencedora vence tudo.”

 

Eis a entrevista.

 

Um paradigma emergente, como uma fênix pronta para renascer das cinzas de inteligências brilhantes a serviço do clickbait.

Bastaria lembrar que, nos últimos anos muitos, são muitíssimos os setore s nos quais a inovação tecnológica deu passos gigantescos. Um contraexemplo, embora banal, para a publicidade na internet? O blockchain: nesse caso, a inovação foi de tipo matemático. Viu e está vendo aplicações extraordinárias não tanto no lado do Bitcoin, mas no dos smart contracts. Uma plataforma como a Ethereum é a prova de inteligência a serviço de uma inovação desvinculada da publicidade.

 

No entanto, não há dúvida de que o nosso modo de pensar, de agir e de nos relacionarmos com os outros é afetado pela cultura irradiada a partir da Califórnia.

Sabe-se lá como seria o mundo se o digital tivesse chegado apenas de Chicago e de Nova York em vez de Los Angeles ou de San Francisco. Que cultura diferente teríamos da nossa interação se a revolução digital tivesse iniciado em Moscou, em Seul ou em Tóquio? Nunca saberemos, mas parte da questão filosófica, uma parte mínima mas importante, está em escavar os pressupostos conceituais que nunca questionamos. Afinal, imergimos aí, e um pouco como um peixe que nunca se pergunta como é a água, é raro nos perguntarmos qual cultura digital absorvemos e estamos absorvendo com a internet, com as mídias sociais e com as possibilidades que nos deram, ou retiraram, dependendo do design das plataformas. Basta pensar nos primeiros tempos do Facebook, quando a única interação possível era colocar dar uma “curtida”. Essa simplificação, a de um único gesto permitido, também é cultura. Ou consideremos as vinganças que gerariam a visualização das pessoas que removem a nossa amizade. O design do nosso ambiente digital envolve, dia após dia, que nos habituemos aos modos de agir e de operar, de fazer as coisas, de as entender, de as conceituar. O design das nossas interações é fundamental para entender como o pensamento está se moldando.

 

Resta saber se o processo é irreversível.

Acredito que parte da cultura contemporânea, aquela para a qual um é igual a um, e a liberdade de expressão é intocável e jamais negociável na necessidade de se reconciliar com outros direitos fundamentais, como a segurança pessoal por exemplo, pois bem, acredito que tais fenômenos também derivam do modo como absorvemos a filosofia do Vale do Silício, uma filosofia por trás da filosofia, respirável nas ruas, nos corredores das empresas. Ela me agrada? É impossível julgar sem saber o que seria se… Mas acho que algo está mudando. Percebi isso na Netflix.

 

Netflix?

Refiro-me às políticas de produção da plataforma, na qual vi por acaso um filme de aventura turco. Belíssimo, com atores locais, filmado de um modo completamente diferente de como Hollywood ou o Vale do Silício fariam. Essa distribuição muito mais capilar ao redor do mundo faz bem. Porque mesmo quem cresceu como eu nos anos 1960, em uma cultura muito positiva, do pós-guerra, dos Estados Unidos, deveria reconhecer que o monoculturalismo faz mal a todos. Faz mal também aos Estados Unidos, porque revela a incapacidade de ver além de si mesmo, de reconhecer os próprios limites e, portanto, de geri-los, senão até de superá-los. O monoculturalismo é uma prisão mental que muitas vezes gera intolerância em relação ao outro.

 

Da Netflix à sua negação: afinal, a contracultura também nasceu dos paradigmas dominantes dos Estados Unidos.

Esse é o motivo pelo qual acredito que hoje também poderiam surgir fenômenos semelhantes e emergir de uma forma muito mais significativa quando houver mais incentivos para que isso ocorra. O monoculturalismo não nasce por acaso, mas porque não há resistências a uma força mais preponderante do que as outras. É um pouco como uma planta que cresce bem em um determinado ambiente, onde, depois, acaba matando todas as outras, dominando. Combate-se a monocultura mudando as suas condições de possibilidade hegemônica, e não a extirpando. Caso contrário, o risco é de que ela renasça. Com um Vale do Silício que fosse realmente mais aberto ao mundo, mais consciente e diversificado, veríamos narrativas alternativas se difundindo. Espero que isso ocorra.

 

Ainda é uma questão de cultura, de pensamento, muito além das fronteiras do digital.

Penso na questão ambiental: nesta navezinha espacial chamada “Planeta Terra”, ainda há muitíssimo a ser feito. Ainda podemos corrigir a situação e precisamente graças à tecnologia e à riqueza acumulada ao longo de todos esses anos. Os extraordinários recursos de inteligência, ciência e de riqueza financeira de que dispomos devem ser colocados na direção certa. No entanto, devemos começar a pensar no nosso desembarque na Normandia, ou seja, no esforço final em que tudo é posto em jogo para derrotar o mal. Fico feliz em notar uma nova consciência, cada vez mais difundida. Por isso, tenho a esperança de que talvez vejamos a alternativa a um paraíso apenas prometido. Hoje, depende de nós realizar o paraíso. Temos os meios e as competências, mas faltam a boa vontade e a política certa. Por isso, não sou pessimista, mas frustrado, frustrado com a nossa incapacidade de sair de um inferno autoinfligido. Temos um grande projeto humano para realizar para o nosso século: o casamento entre o verde de todos os nossos ambientes – biológicos, urbanos, sociais, econômicos, políticos – e o azul de todas as nossas tecnologias digitais, das internet às redes sociais, da telefonia móvel à supercomputação, da inteligência artificial aos grandes bancos de dados. É nesse projeto humano “Verde & Azul” para o século XXI que devemos apostar tudo, para salvar cabras e repolhos, nós mesmos e o planeta que habitamos. Podemos e devemos fazer isso.

Não, “the dream is not over”, John.

 

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