O Papa escolhe um homem de diálogo em Hong Kong: entre o martelo e a bigorna

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18 Mai 2021

 

Ao jesuíta Stephen Chow confia uma das dioceses mais “sensíveis” do mundo. Para não irritar Pequim e não ignorar os protestos.

A reportagem é de Marco Lupis, publicada por Huffington Post, 17-05-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

É um jesuíta - tal como ele - o homem que o Papa Francisco colocou hoje à frente daquela que, sem dúvida, é uma das mais "sensíveis" dioceses do mundo, neste período histórico: Hong Kong.

O novo bispo que terá a responsabilidade espiritual da ex-colônia britânica - o nono, desde o nascimento da diocese - teatro dos oceânicos protestos antichineses do verão de 2019, chama-se Stephen Chow Sau-yan, nasceu em Hong Kong, 61 anos atrás, é formado pela University of Minnesota, nos Estados Unidos, e tem uma sólida experiência de vida como educador e pedagogo. E talvez seja por causa de sua assídua presença entre os jovens e acima de todos os estudantes, que o Padre Chow manteve um certo ar juvenil e vagamente impertinente, como um garoto envelhecido. Chow é o atual provincial - o responsável - da província dos jesuítas da China, que inclui toda a China continental, além de Hong Kong, Macau e Taiwan: uma posição que certamente não é de pouca responsabilidade nos dias de hoje.

 

Stephen Chow Sal-yan. | Foto: amdgchinese.org

 

A diocese de Hong Kong era "sede vacante" há mais de dois anos, pois em 3 de janeiro de 2019 faleceu Dom Michael Yeung Ming-Cheung, aos 73 anos, que a dirigiu por apenas 17 meses, sucedendo ao Cardeal John Tong Hon, que se aposentou aos 77 anos de idade, em agosto de 2017.

O novo bispo ostenta um currículo de formação de grande relevância. Depois de se formar em Psicologia da Educação nos Estados Unidos em 1984, no mesmo ano ingressou na Companhia de Jesus na província irlandesa. Depois de se tornar jesuíta, obteve uma especialização em filosofia na Universidade de Dublin, antes de retornar a Hong Kong para continuar seus estudos em teologia. Em 16 de julho de 1994, o então bispo Jean Baptiste Wu o ordenou sacerdote, e logo depois o Padre Chow também obteve o título de mestre em desenvolvimento organizacional na Loyola University em Chicago, trabalhando - novamente em Hong Kong - como professor, capelão e diretor de escola no internato Wah Yan em Kowloon e, ao mesmo tempo, ocupando o cargo de diretor vocacional da diocese de Hong Kong. Em 2000, ele retornou aos Estados Unidos para concluir seu Ph.D. em Harvard. Proferiu os votos solenes para entrar definitivamente na Companhia de Jesus em 2007. Desde 2016 é supervisor do colégio Wah Yan, tanto na sede do centro de Hong Kong como naquele da península de Kowloon, e desde 2017, conforme mencionado, assumiu o cargo de provincial de todos os jesuítas chineses.

A nomeação do novo bispo foi uma surpresa para muitos. Nos últimos dois anos, tem havido muita discussão no Vaticano e em outros lugares sobre quem poderia ser a melhor escolha para um Vaticano que - após os acordos parcialmente secretos com Pequim sobre a liberdade de culto e a nomeação de bispos - parece muito atento para não desagradar de forma alguma o gigante chinês. Nestes dois anos, vários nomes foram mencionados, mas o de Stephen Chow não estava entre eles e, pelo menos em uma ocasião, parecia que o Vaticano havia se decidido. Mas, para a decepção de muitos católicos em Hong Kong, o Papa continuou a adiar, até hoje.

A prudência do Vaticano - e a evidente indecisão - encontram seus bons motivos na delicadeza do encargo. De fato, a Igreja foi imediatamente envolvida nos protestos pela democracia em Hong Kong, através do empenho civil de muitos católicos, mas sobretudo devido ao envolvimento de alguns nomes proeminentes, pacificamente envolvidos no movimento democrático e depois detidos após a entrada em vigor da lei liberticida conhecida como "Segurança Nacional", imposta por Pequim à ex-colônia britânica, que sufocou e efetivamente eliminou todas as formas de dissenso, com uma enxurrada de prisões. Entre os nomes dos católicos mais influentes na organização de protestos em Hong Kong destacam-se os de Martin Lee, um dos líderes do movimento democrático, e o de Jimmy Lai, o magnata da mídia, atualmente preso e objeto de um recente e sensacional sequestro de bens por um valor que ronda os 50 milhões de euros.

Em uma situação tão explosiva - e parcialmente comprometida, dado que muitos dos que se envolveram em protestos e atualmente cumprem penas de detenção são católicos - o Vaticano pareceu estar procurando um candidato que não tivesse se identificado abertamente com os protestos democráticos dos últimos anos e, portanto, não fosse visto por Pequim como um desafio político. Um forte líder espiritual, que conhecesse bem a situação, um homem comprometido com o diálogo, que pudesse ser uma boa liderança para a igreja de Hong Kong e promover a reconciliação nestes tempos difíceis e nos anos vindouros.

Hong Kong tem uma população de 7,5 milhões de habitantes, e o Bispo eleito Chow se verá liderando uma diocese de 626.000 católicos, com 71 padres diocesanos e 214 outros padres residentes, membros de várias ordens religiosas, que administram 52 paróquias, 100 igrejas e 253 instituições educacionais (escolas, faculdades, etc.). Há também 336 membros de institutos religiosos masculinos e 441 membros de institutos religiosos femininos. A diocese tem um bispo auxiliar: Dom Joseph Ha Chi-shing. O novo bispo deixará sua posição atual como provincial de todos os jesuítas chineses assim que for oficialmente ordenado bispo de Hong Kong, talvez até antes. O processo de busca de seu sucessor como provincial parece já ter começado há algum tempo.

Comentando a sua nomeação, o Padre Arturo Sosa, superior geral jesuíta desde 2016, disse num comunicado: “Estou muito feliz que o Padre Stephen possa continuar a servir e desejo-lhe todas as bênçãos neste novo ministério. Os Jesuítas se orgulham de nossos vínculos com o povo chinês, que remontam ao grande missionário Matteo Ricci, que tinha um grande respeito pela cultura chinesa”.

Muitos se perguntaram se o atraso na nomeação de um novo bispo estava relacionado ao fato de que o Vaticano estivesse em dificuldades com Pequim a respeito do nome. Mas fontes do Vaticano, justamente neste momento, o negam, confirmando que a Santa Sé não consultou Pequim sobre a nomeação do bispo de Hong Kong. Embora a Santa Sé tenha uma "política para uma só China", não consulta Pequim sobre a nomeação de bispos para Macau, Hong Kong ou Taiwan, uma vez que, afirmam fontes do Vaticano, estas três jurisdições eclesiásticas não fazem parte do acordo provisório e secreto que o Vaticano assinou com o governo chinês em setembro de 2018 e renovado em outubro de 2020.

Certamente a inércia do Vaticano em face do movimento pela democracia em Hong Kong foi notada - e criticada - por muitos. Parece evidente que a Santa Sé não quer de forma alguma irritar Pequim, colocando-se abertamente ao lado dos jovens que reivindicam democracia e direitos em Hong Kong, pondo assim em risco os acordos. Em suma, o povo de Hong Kong sofre de uma aparente deficiência numérica insuperável: alguns milhões de habitantes de Hong Kong - mesmo que fossem todos católicos, mas não o são - evidentemente na estratégia pastoral da Santa Sé não valem um e meio bilhões de potenciais novos fiéis chineses.

Tendo em vista as férias do último verão, em plena pandemia, o Padre Chow havia enviado uma mensagem de vídeo aos seus alunos, imediatamente após os confrontos entre o movimento pela democracia e aa forças da ordem em Hong Kong, nos quais emergia aquela que deve ter sido o aspecto do seu caráter decisivo para a atual nomeação, a prudência e a adaptabilidade. “Não devemos ser levados por emoções negativas, como frustração, desespero, ressentimento”, disse o ainda não bispo, “mas permanecer na esperança. Uma coisa que aprendi é que não posso controlar muitas coisas: especialmente quando faço planos, gostaria de vê-los realizados, mas a Covid-19 mudou muitos planos, atrasou-os. O que devo fazer então? Embora eu não possa realizar meus planos, ainda tenho a liberdade, a liberdade interior de escolher o melhor. O que é melhor? Para que Deus está me chamando? Acho que Deus está me chamando para ser mais flexível, mais criativo, mais ousado”.

No entanto, as relações entre a Santa Sé e Pequim permanecem complexas e extremamente delicadas. Isso é demonstrado por uma notícia que chegou hoje às mídias internacionais e em grande parte ofuscada pela nomeação do novo bispo em Hong Kong. Um bispo católico no norte da China ordenou três sacerdotes para uma diocese não reconhecida pelo Vaticano, em uma manobra que parece ser um desafio aberto ao acordo Vaticano-China sobre a administração da Igreja no país comunista.

O bispo Joseph Guo Jincai, da diocese de Chengde, na província de Hebei, ordenou os sacerdotes para a diocese de Zhangjiakou em 11 de maio, segundo a Conferência Episcopal da Igreja Católica na China (BCCCC), controlada pelo Estado. Um gesto que vai contra o mandato papal que lhe foi conferido como bispo de Chengde. Dom Guo já havia sido excomungado após ser ordenado sem mandato papal em 2010 pela igreja controlada pelo Estado, chamada Associação Patriótica Católica Chinesa. O Papa Francisco depois havia retirado a excomunhão - e aquela de seis outros bispos chineses - em setembro de 2018 após a assinatura do acordo Vaticano-China, que também diz respeito à nomeação de bispos, criando, ao mesmo tempo, a diocese de Chengde, justamente para permitir ao bispo Guo ter sua própria diocese sem compartilhar o poder pastoral com o Estado chinês.

A diocese para a qual Guo ordenou os novos sacerdotes, a de Zhangjiakou, está no centro de um confronto-embate de longa data entre Pequim e o Vaticano. O governo chinês a instituiu em 1980, em um território pertencente a duas dioceses reconhecidas pelo Vaticano - Xuanhua e Xiwanzi - ambas na região de Hebei. Em 2013, o Vaticano nomeou o bispo Augustine Cui Tai como chefe da diocese de Xuanhua, mas a polícia chinesa o prendeu em 7 de abril de 2013, logo após sua ordenação. Sua localização e destino ainda hoje são desconhecidos.

 

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