Contágio, doentes e culpados: a fraternidade no hospital de campanha. Artigo de Andrea Grillo

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

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22 Outubro 2020

 “Sendo o hospital de campanha uma 'metáfora eclesial' particularmente eficaz, a justa luta contra a irresponsabilidade social nunca deve descambar na culpabilização do doente. Cuidar uns dos outros, também por meio de 'dispositivos anticontágio', não é para erguer o muro do julgamento entre positivos e negativos, mas para ampliar o espaço de fraternidade entre os enfermos”, escreve Andrea Grillo, teólogo italiano, em artigo publicado por Come se non, 19-10-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Entre as dimensões mais delicadas e profundas do contágio que estamos combatendo está a relação entre comportamento e doença. Em geral, aplica-se o princípio de que o comportamento irresponsável - falta de higiene, de distanciamento e de uso correto da máscara - torna mais fácil o contágio de si mesmo e dos outros. Qualquer subestimação do "protocolo", qualquer descuido, pode causar danos até consideráveis.

Essa “atenção social” constrói uma espécie de barreira entre o contágio e os sujeitos e pode dar origem à ideia – que não é nova em toda a dinâmica patológica e clínica - de que a relação com o contágio seja simplesmente “controlada pelo comportamento dos sujeitos”. E que, de alguma forma, todo contágio, diante dessa deontologia social, é considerado mais ou menos conscientemente como resultado de um erro. E que, portanto, todo contágio pode ser reduzido à culpa de quem está contagiado, ou de quem causou o contágio, ou de ambos.

É inevitável que as “medidas de segurança” acentuem essa tendência geral de “imunização do vírus por honestidade de vida”. Por outro lado, isso corresponde a uma tendência comum, compreensível, mas também muito insidiosa: consiste em defender-se das doenças por acreditar que toda doença vem "por culpa". No inconsciente de muitas reações, até por doenças muito menos graves do que a que hoje nos preocupa, a ideia demasiado simples que habita o nosso coração é esta: o resfriado pega você se não se abrigar. Portanto, se você se abrigar, não ficará resfriado. Portanto, quem está resfriado, está doente "por sua culpa". Essa forma de pensar - humanamente compreensível, mas logicamente cheia de erros - constitui um formidável antídoto subjetivo e arbitrário contra qualquer doença. É uma forma de "salvar-se" que, no entanto, provoca uma grande distorção na maneira de considerar a doença como tal. Moralizar a doença - o que é normal - tende a suscitar um sistema de autojustificação retórica, mas raramente garante uma compreensão verdadeira do que realmente está acontecendo.

Obviamente, é igualmente errado pensar que a doença seja uma "invenção" do poder político ou que qualquer meio para a combater está fadado ao fracasso. Não é assim. No entanto, é preciso resistir à tentação de deixar cair a luta moral contra o contágio no moralismo que culpabiliza os contagiados. Isso acontece hoje em diferentes ambientes: escola, trabalho, esporte, discurso político. É fácil culpar os infectados por seu próprio contágio. Às vezes, pode ser justificado. Como critério geral, é muito arriscado.

Na realidade, a passagem do comportamento ao contágio, e do plano patológico ao moral nunca é direta, mas requer mediações delicadas e não pode ser gerida de forma simplista. É óbvio que quem é irresponsável não adota nenhuma das medidas de cuidado solicitadas, expõe a si mesmo e aos outros a um maior risco. Mas é igualmente óbvio que mesmo aquele que adota escrupulosamente todos os sistemas de proteção não está completamente protegido do contágio. O que é justo dizer em geral, como uma tendência bem clara, é bastante injusto atribuí-lo a todo sujeito que está em condição de contágio/doença.

Também nesse caso, o cuidado da pessoa infectada/doente, que exige também o respeito da liberdade e da igualdade, só floresce na fraternidade. Todas as melhores estruturas sanitárias e todas as disposições administrativas mais adequadas encontram seu êxito decisivo no "respeito pelo diferente". De modo particular, deveríamos considerar, precisamente nesta situação tão delicada, a estratégia diferente com que a Igreja historicamente reagiu às "crises" de fé, que podem ser devidas a culpa ou doença.

Cair no pecado e cair na doença são formas da crise que têm diferentes causas, diferentes manifestações e diferentes procedimentos de reabilitação. Mesmo com as especificidades de um contágio de proporções pandêmicas, o recurso fundamental da relação com o doente - sem desconsiderar a administração de medicamentos adequados - permanece sendo o tato. Mesmo no caso do "distanciamento", o tato com que tratamos os "positivos", os "infectados" e os "doentes" constitui uma forma qualificadora da resposta que a cidade e a comunidade cristã podem dar à difícil contingência que estamos atravessando. Sendo o hospital de campanha uma "metáfora eclesial" particularmente eficaz, a justa luta contra a irresponsabilidade social nunca deve descambar na culpabilização do doente. Cuidar uns dos outros, também por meio de “dispositivos anticontágio”, não é para erguer o muro do julgamento entre positivos e negativos, mas para ampliar o espaço de fraternidade entre os enfermos.

 

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