O coronavírus reacendeu uma necessidade de sagrado e fraternidade que não deve ser subestimada

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21 Setembro 2020

Em 19 de setembro, a Igreja Católica celebra a festa de San Gennaro. Em Nápoles, onde o santo é o padroeiro principal, haverá uma festa à espera da renovação do prodígio da liquefação do sangue do bispo de Benevento que foi martirizado em 305 d.C. em Pozzuoli. Todos os anos o relicário que contém as duas ampolas com o sangue de San Gennaro é venerado por milhares de fiéis que o tocam, beijam e colocam na testa.

A reportagem é de Francesco Antonio Grana, publicada por Il Fatto Quotidiano, 19-09-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Este ano, por causa do coronavírus, não será possível fazer tudo isso e a devoção popular a San Gennaro, que sempre foi muito forte, ficará privada de um ato importante, aliás, fundamental: o contato físico com a relíquia mais preciosa do padroeiro de Nápoles. Um contato que, ao mesmo tempo, expressa afeto e fé. Mas que, é preciso admitir, às vezes também é interpretado, em boa ou má fé, como supersticioso.

Portanto, será uma festa de San Gennaro sem um momento muito importante, como foram muitas outras celebrações dos padroeiros nos últimos meses, na Itália e no mundo. E também tantas liturgias desde março passado. Basta pensar na Páscoa 2020 vivida em total lockdown e com celebrações apenas em streaming. Modalidades às quais também teve que se ater o Papa Francisco.

Além disso, muitos meses após o fim do lockdown, as restrições às celebrações e às atividades pastorais ainda são muito fortes e não há indícios de que possamos, ainda que lentamente, voltar aos velhos hábitos. De várias partes, bispos e párocos ressaltam a necessidade de repartir, obviamente em segurança. Neste longo período de abstinência das celebrações físicas, da participação aos sacramentos e das atividades pastorais, despontou uma necessidade de sagrado que talvez na Itália estivesse se perdendo, ou pelo menos subestimando.

Essa necessidade não deve ser encarada levianamente por aqueles que estão nos vértices, chamados a liderar a Igreja. A imagem que entrou nos corações de todo o mundo e que realmente parou o planeta é aquela do dia 27 de março passado: o Papa Francisco sozinho e na chuva atravessando a Praça de São Pedro, onde orou pelo fim da pandemia. É a imagem mais forte do pontificado de Bergoglio até o momento.

Imagens e palavras que pararam o tempo fazendo com que o mundo inteiro, de qualquer crença religiosa, percebesse a gravidade do momento vivido e a fragilidade de uma humanidade que na época da globalização não só se descobriu desamparada, mas necessitada da fraternidade para sair da crise mais assustadora desde a Segunda Guerra Mundial até hoje. Portanto, não é por acaso que, precisamente naquela oração veemente, comovente, mas longe de ser solitária do Papa pelo fim da pandemia, Francisco enfatizou o tema da fraternidade humana: “Não somos autossuficientes, sozinhos; sozinho afundamos”.

Um tema, o da fraternidade humana, sobre o qual Bergoglio concentrou grande parte de seu pontificado, especialmente em sentido ecumênico. Em Abu Dhabi, em 4 de fevereiro de 2019, junto com o Grande Imã de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb, Francisco assinou o documento sobre a Fraternidade humana em prol da paz mundial e da convivência comum. Naquele texto, de fundamental importância para as relações com o mundo islâmico, mas não só, ressoa o convite dos dois líderes religiosos “à reconciliação e à fraternidade entre todos os crentes, mais ainda, entre os crentes e os não crentes, e entre todas as pessoas de boa vontade". Mas também “um apelo a toda consciência viva que repudia a violência aberrante e o extremismo cego; um apelo a quem ama os valores da tolerância e da fraternidade, promovidos e incentivados pelas religiões”.

Temas que voltarão na nova, terceira encíclica de Bergoglio intitulada Fratelli tutti. Um documento “sobre fraternidade e amizade social”, como especifica o subtítulo. Simbolicamente, o Papa o assinará em Assis, no túmulo de São Francisco, depois de celebrar ali a missa em privado, por causa do coronavírus, na tarde de 3 de outubro. Dia em que, em 1226, o frade morreu, mesmo que a Igreja Católica o celebre no dia 4 de outubro. Até mesmo esse documento, apesar do que muitos acreditam erroneamente, será muito focado no tema do ecumenismo e não no pós-pandemia.

E será a continuação natural, com um olhar global, da declaração assinada em Abu Dhabi. Bergoglio, que do famoso Cântico das criaturas tirou o título de sua segunda encíclica, aquela social, Laudato si', volta a desenvolver um tema franciscano, justamente o da fraternidade. É conhecida a maravilhosa página da biografia do frade poverello que, em 1219, foi ao Egito para se encontrar com o sultão Al-Malik al-Kamel.

É significativo que, exatamente oitocentos anos depois, o Papa que escolheu chamar a si mesmo de Francisco tenha assinado o documento sobre a fraternidade humana com o Grande Imã de Al-Azhar. Sinal eloquente de uma continuidade, na Igreja Católica, que rejeita as absolutizações dos torcedores que se renovam a cada pontificado, colocando os Papas uns contra os outros, mas que têm, ao contrário, como único objetivo transmitir com fidelidade a mensagem do Evangelho. Uma mensagem incômoda ontem como hoje. Mas de paz e fraternidade universal.

 

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