Poluição pelo descarte incorreto de máscaras pode causar impacto nos oceanos

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03 Setembro 2020

Segundo Alexander Turra, a ingestão dos resíduos provenientes desse descarte pelos animais marinhos provoca sensação de saciedade, levando-os a um processo de inanição e à morte.

A reportagem é de Kaynã de Oliveira, publicada por Jornal/Rádio USP e reproduzida por EcoDebate, 01-09-2020.

A utilização de máscaras e luvas tem sido um dos principais meios de proteção contra o novo coronavírus, mas o descarte incorreto dos itens caracteriza um novo tipo de poluição. Os EPIs têm sido encontrados em oceanos ao redor do mundo, como em Hong Kong, na França, na Inglaterra e no Brasil. Segundo especialista, o descarte incorreto das máscaras e luvas pode levar a contaminações pela covid-19, além de impactar diretamente a vida marinha, podendo causar a morte de animais que porventura ingiram os itens.

O professor Alexander Turra, docente do Departamento de Oceanografia Biológica do Instituto Oceanográfico da USP e coordenador da cátedra Unesco para Sustentabilidade do Oceano, alerta que há graves riscos quanto ao impacto do descarte incorreto dos EPIs nos oceanos, uma vez que os organismos marinhos têm o potencial de ingerir esses materiais. A longo prazo, a degradação desses itens gera fragmentos chamados de microplásticos e, por serem menores, são facilmente ingeridos pelos variados animais marinhos: “A ingestão desses resíduos leva, normalmente, a uma falsa sensação de que o organismo está saciado em termos de alimentação e isso leva os animais a um processo de inanição que acaba, muitas vezes, levando à morte”.

As máscaras e luvas devem ser descartadas em lixeiras, preferencialmente as que possuem tampa, de modo a evitar contato humano posterior e que esses materiais vão parar nas ruas e, consequentemente, oceanos, como informa o professor Turra: “É fundamental que as pessoas utilizem o material apropriadamente e descartem de forma correta. O descarte é simples: basicamente colocar o produto numa lixeira fechada”, e alerta: “Temos que lembrar que o vírus tem uma duração que pode variar em função da superfície na qual ele está, então é importantíssimo que essa máscara, ao ser jogada no lixo, não volte a ter contato com nenhum pessoa. Com isso, a gente tem uma medida simples e que leva a uma proteção, não só das pessoas, mas também do ambiente, considerando que esse material vai para um aterro”.

Para o especialista, a chegada de lixo no mar é fruto de problemas estruturais da sociedade, como a pobreza, a má distribuição de renda e a dificuldade de acesso aos serviços públicos: “A gente tem uma série de outros elementos que tem o esgoto como via de chegada no mar, como a poluição difusa, o lixo jogado nas ruas ou mesmo o descarte inadequado de resíduos sólidos nos corpos d’água, enfim, é uma série de processos que tem suas raízes na pobreza, na má distribuição de renda, falta de acesso aos serviços públicos, no consumo não consciente e no descarte inadequado. É uma série de processos sistêmicos que acabam, dada a complexidade do problema e as mais variadas falhas nesse sistema, levando ao fenômeno do lixo no mar”.

Turra acredita que as máscaras de pano são uma solução para garantir o reuso e evitar o descarte incorreto: “As máscaras de pano correspondem a uma boa estratégia para se proteger do vírus e proteger a sociedade da contaminação, reduzindo essa contaminação. Obviamente, elas sendo laváveis, podem ser utilizadas várias vezes, então elas não vão acabar parando no ambiente”, finaliza.

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