Lutar contra a “doutrina do choque” digital: por uma interrupção dos planos 5G

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24 Julho 2020

“Acreditamos que hoje é mais importante do que nunca se somar às plataformas e movimentos sociais que, apelando ao princípio de precaução, dizem não à extensão do 5G e ao mundo sem contato da Quarta Revolução Industrial. A interrupção desta tecnologia e o desmantelamento parcial de outras já instaladas são cruciais se queremos fazer seriamente um balanço do custos e benefícios e talvez, mais importante ainda, ter o tempo suficiente para poder decidir de maneira democrática o rumo de nossas sociedades”, escrevem Adrián Almazán, pesquisador das relações entre tecnologia e política, na perspectiva das relações socioecológicas contemporâneas, e Jorge Riechmann, professor titular de Filosofia Moral na Universidade Autônoma de Madri, em artigo publicado por El Diario, 21-07-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Já há meses, a ensaísta e pensadora Naomi Klein nos adverte que a crise em que quase todos os países do mundo entraram, após a pandemia mundial da COVID-19, está se tornando a desculpa perfeita para a construção de (em suas palavras) “uma distopia de alta tecnologia”. Klein observa que o Vale do Silício já tinha todos os tipos de planos, antes do coronavírus, imaginando substituir muitas de nossas experiências corporais, inserindo tecnologia no meio do processo, e nos convida a resistir contra o Screen New Deal. Pois, novamente, as elites utilizam a angústia social e a confusão para efetivar de maneira antidemocrática seu projeto particular de mundo.

Se nos anos 1970, o levante das ditaduras militares latino-americanas se tornou a arma de saída de um neoliberalismo que posteriormente infectou o planeta com sua lógica maluca, hoje, as grandes multinacionais do capitalismo tecnológico, com a inestimável cooperação de governos de todo o globo, pretendem nos fazer acreditar que nossa única alternativa é abraçar o projeto de digitalização total do mundo. TINA (There Is No Alternative), o lema de Margaret Thatcher, atualizado.

No Estado de Nova York, o CEO do Google, Eric Schmidt, já lidera uma comissão para imaginar uma nova normalidade que, do seu ponto de vista, terá que ser a de um Screen New Deal que permita aos Estados Unidos se impor no conflito geopolítico em que enfrenta a China, em âmbitos como o controle da infraestrutura 5G. Apesar de agora se esconderem na necessidade de lutar contra a crise sanitária, a lógica é clara: longe de denunciar o que Marta Peirano não hesitou em qualificar como a primeira tecnoditadura do mundo, devemos segui-la – forçando ao máximo o socialmente aceito – para não ficar para trás nos benefícios que provêm da nova economia do dato do capitalismo digital.

A Quarta Revolução Industrial, e seu projeto estrela, a Internet das Coisas, almeja que não possa existir interação social que não venha mediada por uma interface digital conectada e, portanto, se torne fonte de cada vez mais dados, sobretudo, do que fazemos. Estes dados continuarão alimentando algoritmos de inteligência artificial que, como demonstram escândalos como o da Cambridge Analytica ou a crítica ao solucionismo tecnológico de Morozov, estão adquirindo um poder crescente sobre a nossa vida pessoal e política.

Na Europa, esta doutrina do choque digital está tomando forma sobretudo nos planos de recuperação frente à crise da covid-19 e, em particular, no fundo Next Generation EU, mediante a qual a União Europeia planeja colocar 750 bilhões de euros à disposição de seus estados membros. Apesar deste ter sido apresentado como uma oportunidade única para colocar em marcha um Novo Pacto Verde Europeu, de fato, atuará como um acelerador do processo de digitalização total da economia, das instituições e das relações na Europa.

Sua natureza de plano estratégico integrado obrigará a todo Estado que queira ter acesso aos fundos que se oferece, a abraçar uma economia digital que aposte em “tecnologias como a inteligência artificial, a cibersegurança, os dados e a infraestrutura de computação na nuvem, as redes 5G e 6G, os supercomputadores e os computadores quânticos, e as tecnologias de cadeia de blocos”.

O fato de que no plano coexistam a aposta pela digitalização, com a vontade de uma transformação ecológica do território europeu, parte de uma convicção falsa: que a informatização do mundo pode ser ferramenta e catalizadora de uma transição ecológica no continente. A realidade é que, ao contrário, digitalização e transição ecossocial são projetos de natureza antagônica, sob as relações socioeconômicas realmente existentes.

Por um lado, porque a ampliação da internet e das Tecnologias da Informação e Comunicação supõe um aumento exponencial do consumo de energia e materiais críticos, especialmente minerais escassos como as terras raras ou o coltan. A internet não é uma nuvem imaterial, e a economia digital não está desvinculada dos impactos ecológicos. O acesso da Rede de Redes só é possível graças à existência de um emaranhado de servidores (computadores conectados 24 horas por dia e sujeitos a exigentes demandas de refrigeração, concentrados em poucos lugares do mundo e em sua maioria propriedade das grandes empresas tecnológicas) que se amplia cada vez mais, além de que todos os nossos dispositivos precisam utilizar materiais e energias para ser construídos, distribuídos e eventualmente descartados.

A fase digital do capitalismo industrial está supondo um impressionante aprofundamento do extrativismo, um aumento das emissões dos gases do efeito estufa – se a internet fosse um país, seria o sexto maior emissor do mundo e consumiria tanta energia como a Rússia – e uma destruição ecológica ampliada.

Afinal, uma das virtudes mais celebradas da digitalização do capitalismo é sua capacidade em acelerar o crescimento. Da automação dos intercâmbios financeiros, hoje em grande medida nas mãos das inteligências artificiais, ao tipo de consumo compulsivo característico dos portais digitais, a Quarta Revolução Industrial parece ser o único modo de manter em vigor algumas dinâmicas de acumulação que há décadas estão funcionando aos tropeços.

Além do fato que o crescimento que processo acarreta supõe uma deterioração das condições de trabalho e de vida para milhões de pessoas que cada vez mais se veem sujeitas à precarização extrema de novos modelos de negócio como Deliveroo e Uber, não podemos esquecer que a ideia de uma desvinculação entre crescimento e impacto ecológico é ilusória. Para descarbonizar, precisamos desdigitalizar e descomputadorizar, como argumenta Ben Tarnoff, em um artigo muito sólido.

Hoje, quando a confluência de uma crise climática cada vez mais acelerada, uma perda massiva de biodiversidade e um esgotamento cada vez mais rápido de combustíveis fósseis e minerais escassos apresenta um claro cenário de colapso ecossocial, o que é necessário é frear, parar e repensar quase tudo.

Não precisamos de um crescimento supostamente “verde” e “inteligente”, mas decrescer com critérios de justiça, igualdade, autonomia e autêntica sustentabilidade. E a crise atual, em vez de estar sendo aproveitada para desenvolver esse processo de reflexão coletiva, está supondo o pretexto perfeito para dar carta branca (ainda mais se possível) a desregulamentações massivas que, novamente, não hesitarão em continuar ampliando a destruição ecológica, se com isso podem manter em vigor alguns anos mais a suicida armadilha do crescimento capitalista.

O alarmante é que esta investida tecnológica, cujo símbolo e pedra angular é o 5G, não só promete gerar efeitos sociais e políticos de todo indesejáveis, mas que se realiza desconsiderando as advertências de centenas de cientistas e médicos que, unindo-se a organismos como a Agência Europeia de Meio Ambiente, estão solicitando a aplicação do princípio de precaução frente ao desdobramento do 5G, alertando sobre seus riscos, tanto para a saúde humana como para a vida em geral.

Apesar de uma esmagadora máquina de propaganda continuar insistindo em que as radiações não ionizantes não podem gerar efeitos biológicos, há tempo, a pesquisa científica a desmentiu. Ao longo dos últimos vinte anos, tornou-se extremamente forte a evidência de que os CEM (Campos Eletromagnéticos) fracos podem modificar os processos biológicos em todas as faixas de frequências, de ondas estáticas a milimétricas, alertam Frank Barnes e Ben Greenebaum.

Em um artigo intitulado “Planetary electromagnetic pollution: it is time to assess its impact”, publicado na The Lancet, em dezembro de 2018, cientistas do grupo de pesquisa australiano ORSAA constatam que, de 2266 estudos sobre CEM, não menos que 68% encontraram “significativos efeitos biológicos ou efeitos para a saúde”.

Longe de atender a estas advertências, que, no entanto, as seguradoras de todo o mundo observam, negando-se já a dar cobertura ao desdobramento atual desta tecnologia sem fio, nossas sociedades e instituições as ignoram gritando forte: “fake news!”, e associam com má-fé a oposição ao 5G às outras reivindicações falsas (antivacinas, por exemplo) para as desacreditar. E não se presta atenção ao enorme assunto da “captura” dos corpos reguladores por parte dos “vested interests” (atente-se ao recente relatório de dois eurodeputados, Klaus Buchner e Michèle Rivasi, de Bruxelas).

Especialmente preocupante, nesse sentido, são as conclusões do Conselho da União Europeia, celebrado no dia 9 de junho de 2020. No artigo 36 das mesmas, e amparando-se na necessidade (que compartilhamos) de acabar com as teorias que relacionam a ampliação do 5G com a pandemia da Covid-19, rotulam a priori como falsa qualquer posição que defenda que tais “redes supõem uma ameaça para a saúde”. Com isso, não só desconsideram a evidência científica, como também deixam o caminho livre para o aprofundamento de práticas de censura sobre os grupos opositores ao 5G, que plataformas como o Facebook e Youtube já estão realizando há meses.

Por isso, acreditamos que hoje é mais importante do que nunca se somar às plataformas e movimentos sociais que, apelando ao princípio de precaução, dizem não à extensão do 5G e ao mundo sem contato da Quarta Revolução Industrial. A interrupção desta tecnologia e o desmantelamento parcial de outras já instaladas (algoritmos de inteligência artificial, tecnologias sem fio, etc.) são cruciais se queremos fazer seriamente um balanço do custos e benefícios e talvez, mais importante ainda, ter o tempo suficiente para poder decidir de maneira democrática o rumo de nossas sociedades.

O projeto de digitalização do mundo tem como meta alcançar até o último rincão da terra e do céu, que não demorará a ser visto inundado por milhares de satélites privados, que garantam a instalação da nova Internet das Coisas. No entanto, não é por acaso uma loucura apostar todas as cartas em algumas tecnologias com demandas de energia e materiais que excedem o que o planeta Terra dá de si? Não fragilizaremos ainda mais nossas possibilidades de reorientar nossas sociedades em uma via ecologicamente consciente e que coloca a vida no centro, caso abracemos de maneira acrítica a instalação de um mundo sem contato?

 

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