Cardeal Scola: “Ataques insolentes de homens da Igreja contra o Papa. Agora chega, estão errados”

Foto: Vatican Media

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16 Junho 2020

O pontífice é o pontífice. E a pessoa de fé "lhe deve afeto, respeito e obediência como sinal visível e garantia da unidade da Igreja". É por isso os ataques "cada vez mais insolentes contra o Papa Francisco", especialmente "aqueles que nascem dentro da Igreja, estão errados". Palavras duras dirigidas à frente hostil a Bergoglio. O emissor é o cardeal Angelo Scola, que as escreve nas primeiras páginas da edição atualizada da autobiografia, "Ho scommesso sulla Libertà", realizada com Luigi Geninazzi (Solferino, 304 p., 12 euros). O livro, nas livrarias nos próximos dias, é introduzido por "um novo ensaio sobre o ‘futuro do cristianismo’", no qual o arcebispo emérito de Milão diz que não está preocupado com as ameaças de um cisma eclesiástico, mas expressa sua tristeza porque reacendeu-se a "luta entre conservadores e progressistas" nos Palácios Sagrados e entre os católicos: é um "caminho para trás", afirma ele com amargura.

A reportagem é de Domenico Agasso Jr., publicada por Vatican Insider, 13-06-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Ho scommesso sulla libertà
Angelo Scola e Luigi Geninazzi

Scola se pergunta "em que ponto está a Igreja Católica na tempestade que parece atravessar?". De uma perspectiva numérica, é inegável a erosão do catolicismo e, de maneira mais geral, dos crentes na Europa e na América, onde parece estar crescendo a categoria dos nones, ou seja, aqueles que respondem none, nenhuma, à pergunta sobre a religião a que pertencem, a ponto de alguns observadores começarem a se perguntar se o agnosticismo declarado não acabará se tornando a ‘primeira religião’ do mundo ocidental". Daqui a dez anos, prevê-se que "os nones possam atingir um número entre 25 e 30% e em tal caso, se tornariam a maioria relativa, superando, assim, o grupo de católicos e de protestantes, ambos em 22%." O Cardeal observa que "de acordo com o juízo mais aceito, trata-se de uma crise séria e profunda, aquelas que, segundo alguns observadores, apresenta-se na história da Igreja a cada quinhentos anos". "O abalo atual" afirma, por exemplo, o estudioso das religiões Jean François Colosimo "lembra por seu caráter sistêmico a crise das heresias do século IV, das investiduras do século XI, das indulgências do século XV. Toda vez foram acompanhados por uma desordem moral. Toda vez a catástrofe não veio de fora, mas de dentro. Toda vez a crise atingiu duramente a instituição e, desta vez, concentra-se mais do que nunca na Cúria e no clero”.

A ideia do caráter cíclico das crises, "no modelo das convulsões geofísicas", no entanto, parece a Scola "algo forçado que não leva em consideração a grande diversidade dos eventos citados". De fato, na situação atual, trata-se de uma "mundanização". Aqui reside a "raiz profunda de escândalos, crimes, comportamento aberrante, como os abusos sexuais contra menores, também cometido por pessoas consagradas. Se, de fato, se perde a referência à graça e se vive ‘como se Deus não existisse’, lentamente mas inexoravelmente se desintegra e se perde também a moralidade pessoal”.

É também por isso que o Papa Francisco hoje visa "sacudir as consciências colocando em discussão hábitos e comportamentos consolidados na Igreja, cada vez mais elevando, por assim dizer, a marca a ser superada. O que pode gerar alguma desorientação e até perturbação”, reconhece Scola. Mas isso não justifica "os ataques cada vez mais duros e insolentes contra ele, especialmente aqueles que nascem dentro da Igreja". Para o cardeal, "estão errados. Desde criança, aprendi que ‘o papa é o papa’ a quem o crente católico deve afeto, respeito e obediência como sinal visível e garantia segura da unidade da Igreja no seguimento de Cristo. A comunhão com o sucessor de Pedro não é uma questão de afinidade cultural, de simpatia humana ou de feeling sentimental, mas diz respeito à própria natureza da Igreja".

Scola costuma dizer que "todo Papa deve ser ‘aprendido’ em seu estilo e em sua lógica mais profunda". E ele considera "admirável e comovente a extraordinária capacidade de Francisco de se aproximar de todos, em particular dos excluídos, daqueles que mais sofrem a ‘cultura do descarte’, como muitas vezes nos lembra em sua ânsia de comunicar o Evangelho ao mundo".

Há quem preveja divisões e "cenários sombrios para a Igreja que seria ameaçada por um cisma", observa o ex-patriarca de Veneza. As polêmicas e as divisões que estão se tornando "cada vez mais severas, mesmo à custa da verdade e da caridade, me preocupam". Contudo, Scola não vê o risco de um cisma, mas teme "um caminho para trás. Para aqueles que acreditam que a Igreja está muito atrasada - ele explica - digo antes que estamos voltando e precisamente à época do debate pós-conciliar entre conservadores e progressistas. Vejo renascer uma contraposição com tons exagerados entre os guardiões da Tradição rigidamente entendida e os defensores daquilo que se entendia como uma adaptação da praxe, mas também da doutrina a instâncias mundanas”.

Para os primeiros, as inovações "implementadas após o Concílio que estavam provocando a evasão dos fiéis, enquanto para os últimos, era a resposta insuficiente às expectativas da sociedade a principal causa do distanciamento da Igreja". Segundo Scola, dessas duas visões contrapostas que estão "voltando a explodir em termos mais radicais, deriva em grande parte o estado de confusão em que muitos católicos vivem hoje e não apenas os simples fiéis". E isso o entristece, porque nos anos "do meu ministério episcopal parecia-me notar uma superação daquela contraposição estéril, uma vontade sincera de conversar, mas acima de tudo uma capacidade renovada de trabalhar juntos nos diversos âmbitos da comunidade eclesial e do empenho social, para além de rótulos partidários considerados velhos e desgastados”. Hoje, observa o cardeal, "infelizmente esse caminho não só foi interrompido, mas está sendo percorrido rapidamente em sentido inverso". Aqui está uma situação que Scola considera emblemática: "O ‘percurso sinodal’ iniciado na Igreja Católica Alemã me parece o exemplo mais evidente e desconcertante desse salto para trás, com a tentativa de discutir e aprovar de maneira vinculante em sede local decisões, inclusive de caráter doutrinário, que podem ser tomadas apenas no nível da Igreja universal". A maneira de superar essas tensões é confiar no “Espírito”, que "não se deixa enredar pelas lógicas partidárias".

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