Nicarágua. A repressão continua: relato de dois casos

Foto: Jon Skilling | Flickr

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

09 Julho 2019

Compartilhamos um texto inédito de um nicaraguense anônimo que toma a voz de muitos para denunciar a repressão do regime de Ortega.

São muitas as mães de presos políticos que ao analisar a conjuntura nacional, vão sabiamente ao problema central e dizem: “Quando este homem entenderá que já não o queremos”. Talvez falem assim por sua própria história pessoal. Sabem por experiência que Ortega, como muitos homens violentos, não aceitam que sua mulher tenha deixado de querê-los e decida abandoná-los.

“Minha ou de ninguém”, dizem esses homens machistas sobre suas mulheres. Ainda que os protestos multitudinários de 2018 e a firme resistência de 2019 tenham demonstrado a Ortega que o povo da Nicarágua já não o quer, ele não entende, rebate com balas e a retórica de que Nicarágua é “sua ou de ninguém” e não para de reprimir...

A etapa das centenas de assassinatos já passou. Passou também a etapa das capturas e encarceramentos massivos. Porém cada dia se traz uma nova história de repressão que destrói vidas e famílias.

Os relatos são publicados por CPAL Social, 06-07-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Relato de dois casos:

No norte do país, em Jinotega, Jeisy Lagos, trabalhou durante oito anos para a Polícia. Em 2015 saiu da instituição para dedicar mais tempo à sua família. Em abril de 2018, quando estourou a rebelião cívica, a chamaram de volta para que participasse da repressão à rebelião. Jeisy se negou. Convencida da justiça dos protestos, se uniu à luta cívica participando em mobilizações e na defesa de bloqueios e barricadas. Ao final de julho de 2018, Jeisy relatou “uns 40 policiais e uns 20 paramilitares armados rodearam a casa onde eu estava e me capturaram. Um me perguntou em tom de piada o que era melhor: 'que te coloquemos as algemas ou tu as coloca'. E eu lhes disse: se a causa é justa, é bom que me ponha as algemas. E igual, essa causa é justa, é bom que me coloquem. Me prenda, porque esta causa é justa”. Jeisy foi presa e torturada, primeiro nos calabouços policiais de Jinotega e depois na prisão de mulheres de Manágua. Esteve presa até 20 de maio de 2019, quando foi solta no programa de “libertações” da ditadura. Porém, de volta a Jinotega, as ameaças contra ela foram tantas, que em menos de um mês, em 18 de junho se viu forçada a sair do país. “A ordem é desaparecer contigo”, advertiu uma fonte confiável a Jeisy.

Hoje são 80 mil nicaraguenses na Costa Rica, forçados ao exílio por ameaças similares.

Um desses nicaraguenses era Diomedes Reyes, de 21 anos. Fugiu à Costa Rica ao final de 2018 porque estava sendo perseguido por paramilitares por ter participado dos protestos e das marchas campesinas contra Ortega, em Quilalí, na zona de Nueva Segovia.

No país vizinho, Diomedes escutou que o governo dava segurança a quem voltava. E decidiu regressar à sua terra. “Em 27 de maio, chegaram várias camionetas com polícias e paramilitares, às 8h da noite, e assaltaram a casa do meu sobrinho com golpes e o levaram sem sabermos para onde, porque não nos disseram. Eu digo, a todos os que já foram, que não voltem, porque esses malditos vão lhes matar ou sequestrar”, relatou Elias, tio de Diomedes.

Essa é a realidade. Os papeis dizem outra coisa. Dizem que o “programa de reconciliação” da ditadura garante a “libertação” de todos os presos políticos e o “retorno seguro” de todos os exilados. Porém nenhum preso solto se sente livre, porque as ameaças e o assédio a seus lares e a suas famílias são contínuas. E nenhum exilado quer regressar... e se regressar os paramilitares o esperam.

Leia mais