23 Março 2026
Enquanto Israel busca a mudança de regime no Irã, os EUA alteram seus objetivos diariamente e buscam uma “estratégia de saída”, especialmente em relação ao preço do petróleo. O risco agora é que a divergência de visões leve a uma intensificação dos conflitos em nível regional.
A informação é de Elena Molinari em, publicada por Avvenire, 21-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
O conflito no Oriente Médio assemelha-se cada vez mais a duas guerras paralelas, onde, em suas escaladas contra o Irã, os Estados Unidos e Israel perseguem objetivos diferentes e nem sempre conciliáveis.
Washington oficialmente continua a afirmar que impedir o Irã de ter armas nucleares é uma prioridade estratégica. “A mudança de regime não é a questão principal”, esclareceu Donald Trump. Mas é evidente que a segurança energética e os preços do petróleo desempenham um papel cada vez maior nos esforços estadunidenses para encontrar uma “estratégia de saída”.
Israel, por seu lado, almeja desde o início, e continua a almejar, desmantelar completamente o regime iraniano e redesenhar os equilíbrios de poder na região. Para Israel, o Irã representa uma ameaça direta e permanente, que deve ser neutralizada mesmo ao custo de desestabilizar toda a região. Para os Estados Unidos, ao contrário, neutralizar as ambições nucleares da República Islâmica deve coincidir com a segurança de seus aliados no Golfo, a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz e o equilíbrio dos mercados de energia, por razões estratégicas, mas também econômicas e internas.
As ações militares dos dois países demonstram isso. Enquanto nas duas primeiras semanas os ataques conjuntos visaram infraestruturas estratégicas iranianas, com o tempo suas escolhas foram divergindo.
Washington concentrou grande parte de seus esforços nas capacidades missilísticas, navais e nos sistemas que ameaçam o Golfo e as rotas de energia. Israel, por outro lado, ampliou seu raio de ação para incluir alvos domésticos, aparatos de segurança e até mesmo infraestruturas civis estratégicas, como campos de gás. E aqui se destacou a divergência mais evidente.
O ataque israelense ao gigantesco campo de petróleo de South Pars — seguido pela retaliação iraniana contra instalações de energia no Catar e na Arábia Saudita — forçou Trump a questionar Benjamin Netanyahu, declarando que os Estados Unidos "não sabiam de nada" sobre a operação. Nos últimos dias, de fato, Trump parece ter perdido gradualmente o controle do conflito. O preço do petróleo, a estabilidade dos mercados e o apoio eleitoral são intimamente interligados, mas Israel parece pressionar de forma cada vez mais decisiva na direção oposta.
Por ora, Trump vem tentado conter a situação do ponto de vista da imagem, declarando uma pluralidade de objetivos — destruição das capacidades militares, contenção nuclear, pressão sobre o regime — para poder reivindicar todos os dias sucessos parciais. Mas sua convicção, tão frequentemente ostentada, de que pode parar quando considerar oportuno, parece cada vez mais duvidosa. O risco é que a divergência entre os dois aliados possa levar a escaladas regionais, destruição de infraestruturas energéticas e instabilidade generalizada, tornando a guerra mais longa e imprevisível justamente por estar sendo travada com duas lógicas diferentes.
Nesse contexto, surge uma questão crucial: Trump tem condições de conter as ambições de Netanyahu? Os sinais sugerem o contrário. Apesar de suas tomadas de distância, o presidente estadunidense até agora não teve sucesso em direcionar as decisões israelenses.
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